ENTREMENTES

Mario Filho na Rádio Guanabara: os ecos de atuação política na radiodifusão

Experiência pouco conhecida no rádio demonstra influência do executivo do Jornal dos Sports para o esporte no Brasil. Confira no novo artigo da série Entrementes: futebol, política e cultura popular

A fisionomia de Mario Filho contém multiplicidades e incoerências do Rio de Janeiro: a silhueta, inconfundível aos torcedores de seu tempo, era acompanhada pela popularidade do Jornal dos Sports; a face do entusiasta do esporte se confunde com a criação do Maracanã – estádio que atualmente carrega o nome do jornalista; o olhar do representante da reconhecida família pernambucana de imprensa esteve atento às relações da sociedade carioca com os palácios de governo. Os vínculos com a radiodifusão transcendem as divisas do município, apontam para a sua abrangência nacional.     

A então capital da República foi o principal polo para a eclosão do rádio como meio de maior alcance no Brasil. O principal exemplo era a Rádio Nacional, emissora encampada pelo Estado Novo que conciliou esporte e música em suas atividades até depois do período ditatorial. Apesar de não ter sido o pioneiro na experiência televisiva, já que a TV Tupi de São Paulo exerceu esse protagonismo, o Rio de Janeiro rapidamente consolidou um conjunto de empresas no setor e conservou a sua preponderância, mesmo com as oscilações econômica e política da cidade. 

É uma distorção conceber Mario Filho apenas como um jornalista. O tino comercial, a manutenção de redes compostas por empresários ou autoridades públicas e os esforços voltados para empreendimentos não permitiriam que sua trajetória fosse restrita à prosa jornalística. Os textos que vieram à tona com os veículos de comunicação até meados do século XX são fundamentais para a compreensão do futebol e seus desdobramentos no novo milênio, mas sua rotina no Jornal dos Sports, e até antes de chegar à publicação carioca especializada em esportes, desvia desses limites. 

A pouco conhecida entrada na Rádio Guanabara derruba qualquer possibilidade de limitá-lo às suas atividades nas redações. É verdade que, se observadas as complexas conexões com manifestações da cultura popular, dificilmente Mario Filho poderia ser classificado como jornalista nos parâmetros importados dos Estados Unidos, ainda na metade do século, para o contexto brasileiro. Não resta nem um traço sequer de imparcialidade, neutralidade ou objetividade no engajamento para a realização de acontecimentos com grande apelo para o país.

Nome oficial do Maracanã presta homenagem ao proprietário da publicação especializada em esportes, que dirigiu também a emissora carioca nos anos 1960 (Divulgação/Riotur)
Nome oficial do Maracanã presta homenagem ao proprietário da publicação especializada em esportes, que dirigiu também a emissora carioca nos anos 1960 (Divulgação/Riotur)

A relação com a família Marinho, que ainda mantém o maior conglomerado de mídia do Brasil, é outro elemento que aponta para esse sentido. Mario Filho trabalhou para o jornal O Globo e contou com o financiamento de Roberto Marinho para comprar o Jornal dos Sports. E é nessa paisagem que os relatos apontam de maneira mais contundente para a organização dos desfiles de escolas de samba que redefiniram o carnaval carioca. Com as decisões do executivo, o evento passaria a ser orientado para a disputa e destinaria troféus aos vencedores. 

No futebol, o incentivo às participações da seleção brasileira, em especial na simbólica Copa do Mundo de 1938, e o empenho para a criação de um estádio que comportasse uma considerável parcela do então Distrito Federal significam isso. Nesse sentido, é menos obscura a oposição da Tribuna da Imprensa, liderada pelo político e jornalista Carlos Lacerda, à defesa do Maracanã no Jornal dos Sports. Mario Filho se colocou a favor da construção, que sediou o último jogo do Mundial de 1950, e participou de conselhos de Estado para a promoção do futebol. 

O relacionamento com clubes, com as federações que administram torneios locais e com a principal entidade da modalidade exigiu circulação pelos gabinetes, tomadas de partido e proximidades com representantes no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. O trânsito político, com Mario Filho em destaque, articulou a retórica a respeito do futebol e diferentes interesses nas disputas de poder. Por isso, é necessário enxergar as dinâmicas dessas ações com a amplitude da radiodifusão – principalmente por transpor as barreiras da cultura letrada e se basear na oralidade. 

Em um contexto de dificuldade para leitura e interpretação – e, no limite, de analfabetismo –, o rádio e a televisão alcançam parcelas maiores de brasileiros. Enquanto executivo de imprensa no Jornal dos Sports, Mario Filho conservou a atenção para os comportamentos dos cariocas e seria difícil que essa característica central da audiência fosse negligenciada. A experiência da Rádio Guanabara na década de 1960 é ilustrativa: o empresário foi contratado para redefinir a emissora e, por sua vez, anunciou outros símbolos da cobertura esportiva à época.  

A programação previa a leitura diária de um texto redigido pelo próprio cronista. A possibilidade de conectar a Rádio Guanabara ao jornalismo impresso deu origem a campanhas para a participação do público, com prêmios a jogadores. Somada à intimidade com os líderes da TV Globo, a capacidade de se comunicar em diferentes linguagens difundiu principalmente o futebol, em um período de grandes vitórias esportivas. As consequências desses laços vão desde a criação da identificação nacional com o esporte até o estabelecimento de tendências políticas. 

O alcance de Mario Filho foi amplificado por esse desconhecido trabalho no rádio antes de sua morte em 1966. Até por esse motivo, é imprescindível colocar em questão as diferentes maneiras pelas quais a perspectiva política do executivo de mídia ressoou com a radiodifusão. Valores e conflitos sociais, presentes na cobertura esportiva desde a década de 1930, foram transmitidas por cabos e antenas – isso permitiu assimilações, tensões e reinterpretações definitivas para os modos como os torcedores lidam com o futebol até hoje no Brasil. 

 

Helcio Herbert Neto é doutor em História Comparada (UFRJ), mestre em Comunicação (UFF), formado em Jornalismo (UFRJ) e em Filosofia (UERJ). 

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