Memória de um Setembro Negro - Le Monde Diplomatique Brasil

HÁ CINQUENTA ANOS, AS AUTORIDADES DA JORDÂNIA REPRIMIAM A UTOPIA REVOLUCIONÁRIA PALESTINA

Memória de um Setembro Negro

Edição 158 | Mundo Árabe
por Alain Gresh
1 de setembro de 2020
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Após a derrota para Israel em 1967, o mundo árabe viveu importantes transformações políticas. As diferentes facções palestinas aproveitaram-se dessas mudanças para fortalecer a luta armada contra o Estado hebreu. A Jordânia tornou-se a retaguarda desse movimento e os combatentes vislumbraram até a possibilidade de derrubar a monarquia. Com forte apoio ocidental, o rei Hussein enterrou a ameaça em sangue

Amã, setembro de 1970. “Revolução até a vitória!”, “Todo o poder para a Resistência!”, “A estrada para Jerusalém passa por Amã!”. Esses slogans, pintados nas paredes da capital da Jordânia, estão ao lado de cartazes do “guerrilheiro heroico” Che Guevara, assassinado em 9 de outubro de 1967 na Bolívia por ordem da CIA. Militantes armados, com a cabeça coberta por um kufiyyah, fiscalizam os principais cruzamentos, enquanto pick-ups com metralhadoras apontadas para o céu circulam pelos labirintos da cidade. O congresso da União Geral de Estudantes Palestinos (Gups) dá boas-vindas a centenas de ativistas de esquerda estrangeiros, alguns deles judeus, que entraram na Jordânia mais ou menos ilegalmente. Citam Fidel Castro e Mao Tsé-tung, devoram Frantz Fanon e Ho Chi Minh, comentam os escritos de Vo Nguyen Giap sobre a Guerra Popular no Vietnã. No fim do verão, paira sobre a cidade das sete colinas um perfume que, para alguns, lembra o de Petrogrado em 1917 e o slogan “Todo poder aos sovietes!”. Para o líder de uma das organizações palestinas de esquerda, Nayef Hawatmeh, vive-se na Jordânia uma situação de “duplo poder” e o rei Hussein deve se afastar diante da resistência palestina, como o governo de Alexander Kerensky foi apagado pelos bolcheviques.

Em Amã, assim como em Havana, Argel ou Hanói, o Terceiro Mundo se insurge e sonha com uma realidade alicerçada em outras bases. Os jovens estudantes e trabalhadores do Ocidente, em revolta desde a primavera de 1968, reconhecem-se nessa utopia. O diretor Jean-Luc Godard filma in loco “a guerra prolongada até a vitória do povo palestino”, enquanto o escritor Jean Genet canta seu amor pelos combatentes palestinos: “Da Ásia à América, a atmosfera é de revolução! Quero apenas grandiosidades, como um buquê de fogos de artifício, incêndios que saltam de banco em banco, de ópera em ópera, da prisão ao tribunal”.1 A escritora Ania Francos, cujos avós foram mortos nos campos de Hitler, proclama: “Vale a pena morrer em terra estrangeira e, da mesma forma que me senti argelina quando os Aurès foram tomados, hoje me sinto palestina”.2

Esse tornado atingiu um mundo árabe traumatizado pela derrota para Israel, em junho de 1967. Uma marretada que desencadeou uma silenciosa raiva popular contra os poderes locais. O Egito de Gamal Abdel Nasser e seu aliado baathista sírio – líderes do nacionalismo árabe anti-imperialista revolucionário – perdem parte de sua aura. Nasser e seu regime são contestados não pelos movimentos islâmicos enfraquecidos pela repressão das décadas de 1950 e 1960, mas pela extrema esquerda, que orquestra protestos de estudantes e trabalhadores contra a clemência demonstrada pelos tribunais egípcios para com os responsáveis pela derrota, contra “a nova classe” e todos os aproveitadores, ao mesmo tempo que reclama o aprofundamento da opção socialista. No Iraque e na Líbia, golpes de Estado levam a mudanças de regime.

 

Desvio israelense

É nessa brecha imprevista que irrompem as organizações de fedayin. Elas aproveitam o enfraquecimento da monarquia para se estabelecer em território jordaniano, onde metade da população é palestina, e oferecem a luta armada como instrumento de vingança contra Israel e seu aliado norte-americano. Elas fazem parte da dinâmica da Conferência Tricontinental, realizada em janeiro de 1966 em Havana, com o objetivo de unir os povos da África, Ásia e América Latina contra o “imperialismo ianque”.3

Quais são essas organizações?4 A principal, liderada por um homem ainda pouco conhecido, Yasser Arafat, é o Fatah, que lançou suas primeiras ações armadas contra Israel em 1º de janeiro de 1965, defendendo a libertação de toda a Palestina pelos próprios palestinos. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e sua divisão de esquerda, a Frente Democrática e Popular para a Libertação da Palestina (FDPLP), surgiram do Movimento dos Nacionalistas Árabes, criado em Beirute depois de 1948 por George Habache, um cristão palestino. Por muito tempo, ele defendeu a unidade árabe como condição para a libertação da Palestina, reconhecendo-se no discurso de Nasser, antes de se converter ao marxismo-leninismo e criticar tanto o líder egípcio quanto o Fatah, por ser “pequeno-burguês”, mesmo que uma ala deste último se autoproclamasse maoista. A esse cenário, soma-se uma miríade de pequenos grupos, muitas vezes financiados por capitais árabes, como o Saika, subserviente a Damasco, e a Frente de Libertação Árabe, vassala de Bagdá.

A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), criada pela Liga Árabe em 1964, está desacreditada e estagnada por seu caráter burocrático. Em fevereiro de 1969, ela passou ao controle do Fatah e de Arafat, que se tornou presidente de seu comitê executivo, reunindo as várias organizações fedayin, mas permaneceu como uma estrutura unitária frágil, com cada organização desempenhando seu papel. Para além de suas diferenças, essas organizações rejeitam a ideia de um simples retorno à situação de antes de 5 de junho de 1967 – conforme preconizado na Resolução n. 242 do Conselho de Segurança da ONU de 22 de novembro de 1967, cuja filosofia pode se resumir em troca de territórios ocupados pela paz – e advogam pela “libertação de toda a Palestina” por um único instrumento: a luta armada. Essa perspectiva revolucionária coloca essas organizações em oposição a regimes árabes como o da Jordânia ou mesmo de Nasser – que, no entanto, apoia essas organizações. A intensificação das ações de guerrilha na Cisjordânia ocupada parecem confirmar a estratégia da Resistência: de 97 em 1967, passam para 916 em 1968, 2.432 em 1969 e 1.887 até setembro de 1970 (quando então caem para 45 em 1971).5

(Michelle Ratto)

A Batalha de Karameh, em 20 de março de 1968, marca o auge do poder dos fedayin. Os combatentes do Fatah resistem por um dia inteiro a uma incursão blindada israelense na Jordânia, com o objetivo de destruir uma de suas bases. Os israelenses perdem dezenas de soldados e muitos tanques. As autoridades israelenses tentam minimizar a dimensão da derrota, que o jornal Haaretz qualificou em 29 de março de 1968 como “uma das páginas mais sombrias da história militar de Israel”. Contudo, os números pesam menos do que seu caráter simbólico: pela primeira vez, os guerrilheiros árabes tinham enfrentado o Exército israelense. Milhares de voluntários, homens e mulheres, sem distinção, em geral muito jovens, vindos dos campos palestinos, do mundo árabe, às vezes do Ocidente, alistam-se nas fileiras da Resistência, cuja popularidade está no auge. Uma vertigem de sucesso acomete as organizações palestinas, e o Fatah promete criar “zonas liberadas” na Cisjordânia.

No entanto, o Oriente Médio não é o Sudeste Asiático, a Palestina não é o Vietnã do Sul, a Jordânia não é o Vietnã do Norte e não corre o risco de vir a ser. O rei Hussein mantém canais de comunicação com os líderes israelenses, é um sólido aliado dos Estados Unidos – e até membro da CIA6 – e não tem intenção de permitir que um poder rival tome conta. Já os palestinos não têm aliados estratégicos, nem mesmo no Egito, principal país do “campo de batalha”.

Em junho de 1970, um plano de negociações baseado na Resolução n. 242 do Conselho de Segurança é proposto pelos Estados Unidos. É aceito pela Jordânia, Egito e, após uma primeira recusa, por Israel. As organizações fedayin não querem endossar um projeto que ignore os direitos dos palestinos, exceto como “refugiados”. A mídia palestina não hesita em culpar o próprio Nasser. Para evitar a ruptura, uma delegação liderada por Arafat encontra-se com o presidente egípcio, em Alexandria. Este último explica a eles, em essência, que não acredita no plano Rogers (em homenagem ao então secretário de Estado dos Estados Unidos) – que Israel denunciará algumas semanas depois –, mas que precisa ganhar tempo para reconstruir seu Exército. Ele garante que não os abandonará diante do rei Hussein, mas pede que sejam realistas. Também menciona a ideia de um Estado na Cisjordânia e Gaza, questionando a possibilidade de “libertar toda a Palestina”. Se por um lado a delegação volta satisfeita com os esclarecimentos, de outro uma engrenagem que ninguém poderá deter é colocada em marcha na Jordânia.

A partir de julho de 1968, a FPLP lança uma série de ações contra aviões ocidentais, com o objetivo de libertar prisioneiros palestinos em Israel. Em agosto de 1969, uma dessas ações é liderada por uma jovem ativista de 25 anos, Leila Khaled, cujo herói é Che Guevara. Em 6 de setembro de 1970, a organização dá um passo mais ousado e sequestra simultaneamente quatro aeronaves, três das quais são forçadas a pousar em uma pista na Jordânia batizada de “Aeroporto da Revolução”. Os fedayin explodem aviões, incluindo um Boeing 747, e as imagens desses “fogos de artifício” circulam pelo mundo. Mesmo sem o derramamento de uma gota de sangue e com a libertação dos quinhentos reféns, essas ações dão às autoridades jordanianas o pretexto para uma ofensiva destinada a “restaurar a ordem”.

Confiante no apoio norte-americano e israelense, Hussein nomeia um governo militar em 15 de setembro de 1970 e lança veículos blindados para atacar os alojamentos dos fedayin, que são bombardeados dia e noite pelo Exército. Ao contrário do que pensavam os fedayin, o Exército tem um número muito limitado de deserções, embora muitos de seus soldados sejam palestinos. Como conta o jornalista Éric Rouleau, correspondente especial do Le Monde: “O rei confiou a maior parte dos cargos aos transjordanianos. Ele havia organizado uma campanha de informação com o objetivo de desacreditar os comandos, acusados de serem ateus, inimigos de Deus, aliados de judeus de extrema esquerda […]. Jovens israelenses, judeus europeus e norte-americanos não tinham participado do Congresso da União de Estudantes Palestinos?”.7 O rei, que colabora com Israel, no entanto, usa essa “presença judaica” como argumento contra a Resistência.

Apesar das promessas de Bagdá, o contingente iraquiano presente na Jordânia desde 1967 não demonstra intenções de combate. A Síria está de fato tentando uma incursão blindada, mas precisa recuar diante das ameaças de intervenção israelense e norte-americana e da recusa de Hafez al-Assad, então ministro da Defesa da Síria, em fornecer cobertura aérea. Embora os combates já somem mais de 3 mil mortos, de acordo com um relatório não oficial da Jordânia (o triplo, segundo os palestinos), é finalmente a mediação de Nasser que salva os fedayin, com a assinatura de um cessar-fogo em 27 de setembro, e um acordo cujo caráter favorável à Resistência entra em contradição com as derrotas militares desta. Mas Nasser morre em 28 de setembro de um ataque cardíaco: já não há empecilhos para o rei completar a “limpeza” da Jordânia no verão de 1971.

As razões para a derrota palestina são muitas. A Resistência é jovem, mal treinada e formada por recrutas entusiasmados, mas inexperientes; seu comportamento indisciplinado alimenta a rejeição de parte da população, incluindo os de origem palestina. Ela superestima seus próprios pontos fortes e permanece presa à tutela de organizações como a FPLP. Sua fraca experiência diplomática e política leva-a a negligenciar as lutas pelo poder regional e internacional e a superestimar a mobilização dos povos árabes. Acima de tudo, para além dos slogans, a Resistência encontra dificuldades para definir uma estratégia política e militar em um contexto fundamentalmente diferente do Vietnã ou da Argélia.

Das consequências desse fracasso, que poderia ter resultado no desaparecimento da resistência do cenário regional, ressalta-se a criação da organização Setembro Negro, que assassina o primeiro-ministro jordaniano, Wasfi al-Tal, em 28 de novembro de 1971. Também pega de surpresa os Jogos Olímpicos de Munique em setembro de 1972, em uma ação que causa a morte de onze membros da delegação israelense. A resistência palestina, enquanto isso, enraíza-se no Líbano, para onde transfere suas capacidades militares e se alia ao movimento nacional. Ganha influência política decisiva na Cisjordânia, em detrimento do rei Hussein e, pouco a pouco, a OLP será reconhecida como “a única representante do povo palestino”. Com a ampliação de suas alianças diplomáticas, tanto na Europa ocidental como no “campo socialista”, ela abandona o discurso utópico dos anos 1960, que tanto entusiasmava o mundo, renuncia aos ataques contra civis e adota uma estratégia mais moderada ao reivindicar, após a guerra de outubro de 1973, a criação de uma autoridade e depois de um Estado na Cisjordânia e Gaza.

Até o momento, contudo, essa via “realista” não trouxe aos palestinos que vivem sob ocupação ou no exílio resultados mais tangíveis do que a utopia revolucionária que fazia o coração da juventude mundial bater mais rápido em 1970.

 

Alain Gresh é diretor do jornal on-line Orient XXI.

 

1 “De l’Asie à l’Amérique, l’air est à la révolution! Je n’en veux qu’une grandiose, en guise de bouquet d’artifice, un incendie sautant de banque en banque, d’opéra en opéra, de prison en palais de justice”. Citado por Hélène Aldeguer e Alain Gresh, Un chant d’amour. Israël-Palestine, une histoire française [Um canto de amor. Israel-Palestina, uma história francesa]. La Découverte, Paris, 2017.

2 “Cela vaut la peine de mourir sur une terre étrangère, et, comme je me sentais algérienne lorsque l’on rasait les Aurès, je me sens aujourd’hui palestinienne.” Ania Francos, Les Palestiniens [Os palestinos], Julliard, Paris, 1968.

3 Ler Edouard Bailby, “L’Amérique latine a choisi l’escalade révolutionnaire localisée” [A América Latina escolheu a escalada revolucionária localizada], Le Monde Diplomatique, fev. 1966.

4 Sobre a história dos palestinos, cf. John K. Cooley e Green March, Black September [Setembro Negro], Frank Cass, Londres, 1973; e Nadine Picaudou, Les Palestiniens, un siècle d’histoire [Os palestinos, um século de história], Complexe, Bruxelas, 2003.

5 Cf. Alain Gresh, OLP, Histoire et stratégies [OLP: história e estratégias], Spag-Papyrus, 1983.

6 “CIA Paid Millions to Jordan’s King Hussein” [CIA pagou milhões ao rei Hussein da Jordânia], The Washington Post, 18 fev. 1977.

7 Eric Rouleau, Dans les coulisses du Proche-Orient. Mémoires d’un journaliste-diplomate (1952-2012) [Nos bastidores do Oriente Médio. Memórias de um diplomata-jornalista, 1952-2012], Fayard, Paris, 2012.

 



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