Memória e ficção em ‘Consigo inventar tudo’, de Julia Barandier
No romance, uma jovem enfrenta a própria melancolia enquanto prepara um seminário sobre um enigmático pintor francês que viveu no Brasil no século XIX
Num momento em que a autoficção parece ser a palavra da vez na literatura, a escritora Julia Barandier apresenta possibilidades nada óbvias para propor um encontro entre a fantasia e a realidade em seu novo livro, o romance Consigo inventar tudo, recém-publicado pela Diadorim.
No centro da história, uma jovem prepara um seminário sobre o pintor francês Claude Joseph Barandier, artista que trabalhou para a corte portuguesa, viveu no Rio de Janeiro (RJ) e em Campinas (SP), e faleceu em 1877.
Como sugere o sobrenome, o pintor é um antepassado de Julia. Mas essa informação não é essencial – aliás, nem mesmo importante – para mergulhar no romance. Aqui, a narradora é outra. As semelhanças entre criadora e criatura aparecem (como em qualquer ficção), mas jamais reivindicam o termo “relato”.

A jovem que conta a história tem o desejo de compreender melhor quem foi Claude, além de conhecer mais a fundo os seus trabalhos. Tem uma paixão genuína por quadros do artista (sobretudo, Ajax) e está determinada a encontrar qualquer pista capaz de revelar um pouco mais sobre esse enigmático artista.
Pouco a pouco, monta algumas peças de um difícil quebra-cabeça e reconstrói passagens da vida de Claude, tanto na Europa quanto no Brasil. Pelo caminho, capelas, nobres e artistas dividem espaço com o luto e a melancolia.
O pintor carrega algo intenso, doído, aterrorizante. Isso aparece nos detalhes de seus quadros, mas também na sua relação com a filha, Louise. A garotinha, inclusive, é uma daquelas personagens que impõem à autora seu lugar na história. Nas primeiras páginas do romance, pode até dar a entender que será coadjuvante, mas pouco depois exige – com seu olhar perspicaz e sentimentos conflitantes – mais espaço no enredo. E que bom que a escritora cedeu.
Aliás, os três personagens centrais – a narradora, Claude e Louise – são igualmente interessantes. Se o pintor é um irresistível enigma, a jovem é outro. Não compreende muito bem os motivos por trás da escolha do tema do seminário, teme os olhares arrogantes comuns ao meio acadêmico e tem dificuldade para estabelecer relações pessoais (as familiares e as amorosas).
Vivencia sentimentos contrastantes em relação a Claude. A curiosidade dá lugar à empatia, que dá lugar à obsessão, que dá lugar à revolta, que dá lugar ao medo, que dá lugar à raiva, que dá lugar à repulsa. No fim, cada nova informação obtida sobre ele revela mais sobre si mesma do que sobre o pintor.
Também por isso, o uso de duas linhas narrativas paralelas – uma no passado, sobre a vida do artista, e outra no presente, sobre a preparação do seminário – é bastante eficiente para proporcionar aproximações e distanciamentos entre os personagens.
Todas essas escolhas narrativas acertadas demonstram a maturidade de Julia Barandier como escritora. Se em seu livro de estreia, Bakken (7Letras), a autora já tinha demonstrado técnica e inventividade, aqui ela se supera e entrega uma obra ainda mais profunda, surpreendente e coesa.
Julia constrói trechos memoráveis, cenas perturbadoras e imagens profundamente poéticas. Às vezes, faz tudo isso de uma vez, num parágrafo que dói, mas também acalenta.
Consigo inventar tudo é um delicado inventário de medos, abandonos e descobertas. Um romance capaz de unir passado e presente numa mesma linha do tempo, construída a partir do encontro entre a memória que se finge de ficção e a ficção que se finge de memória.
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

