Memórias do Desenvolvimento será dois filmes - Le Monde Diplomatique

3º FESTIVAL LATINO-AMERICANO DE CINEMA

Memórias do Desenvolvimento será dois filmes

por Iana Cossoy Paro
10 de agosto de 2008
compartilhar
visualização

Dirigida por Miguel Coyula, obra homônima ao romance está focada em Sérgio, personagem principal, que surge como alguém existencialista e desconforme. Já O pai, a filha e o desconhecido, de Lorenzo Regalado, baseia-se na relação entre Sérgio e a filha que ele descobre ter em CubaIana Cossoy Paro

O novo livro de Edmundo Desnoes, Memórias do Desenvolvimento, [Memórias del desarrollo, Mono Azul, Madri, 2007], será transformado em dois filmes. Um deles, Memórias do Desenvolvimento está sendo filmado há três anos pelo diretor cubano Miguel Coyula, 31, e tem previsão de lançamento para 2009. O segundo, que tem como título provisório O pai, a filha e o desconhecido, será dirigido por Lorenzo Regalado, também cineasta cubano, em colaboração com o próprio Desnoes, que diz haver participado mais de perto deste processo. “O outro saiu das minhas mãos”, afirma.

Desnoes conta que Memórias do Desenvolvimento é a história de um Sérgio [1]mais velho, no exílio. É sobre a velhice, o ser latino-americano e cubano nos Estados Unidos, o não adaptar-se a nenhum modelo de sociedade, o pensar o que se fez e o que se deixou de fazer. Sem abandonar a ambigüidade que caracteriza o Sérgio Corrieri de Memórias do Subdesenvolvimento.

As memórias e a identidade-árvore

Desnoes não acredita em escrever como oficio, no escritor que senta todos os dias e escreve durante um determinado número de horas. Diz que há “escritores que escrevem por falta, outros por excesso de experiências”. Seu caso, conta, é o primeiro, já que escreve sobre o que poderia ter feito, dito, decidido. Conta que seu longo silêncio entre Memórias do Subdesenvolvimento e Memórias do Desenvolvimento se deve a um prolongado período de reflexão. E complementa afirmando que, para ele, “pensar também é uma forma de agir”.

Quando chegou aos Estados Unidos, em 1979, dedicou-se a lecionar e a entender sua identidade ali. Viu-se em um mundo em que o latino-americano era visto como “mais criativo” e “imaginativo”. Refletiu sobre os estereótipos e imagens que nós, latino-americanos, aceitamos como nossas.

Desnoes tem um pouco da dificuldade de adaptação desse segundo Sérgio, exilado. E define que sua identidade e a de muitos cubanos vai além da geografia. Afirma que na ilha estão as raízes de muitos ramos de uma árvore que extrapola o Caribe e a América Latina.

Os Sérgios e as gerações

O novo personagem, que tem algo do Sérgio anterior e algo do próprio Desnoes, descobre que tem uma filha em Cuba e a conhece. O livro termina com parte do diário dessa filha, que faz perguntas dignas de Sérgio Corrieri: “O que faço e aonde vou?” O filme de Desnoes e Regalado será centrado nessa relação pai-filha e está baseado em Te sigo, o diário da filha de Sérgio ao final do romance.

Mais

Esta é a quinta de uma série de matérias sobre os latino-americanos e seu cinema a partir do 3º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo, redigidas em colaboração por Iana Cossoy Paro, Javier Cencig, Thiago Mendonça e Moara Passoni. Veja os outros textos:

1.
Imagens de um continente em busca de si mesmo
Filmes, debates e oficinas expõem, em São Paulo, estado da produção cinematográfica na América Latina. Festival reflete momento em que tanto o continente quanto seu cinema buscam novos rumos ? mas já não o fazem com as lentes e projetos que marcaram o século 20

2.
O universal e o latino-americano: diálogos entrecruzados
Jornalismo-cinema: numa mesa imaginária, colagem de falas reais, personagens presentes ao 3º Festival, em São Paulo, debatem tanto as condições de produção e distribuição do cinema latino-americano quanto a possibilidade de um projeto estético que expresse a identidade da região

3.
Fernando Solanas: entre a Terra e as Nuvens, o Sonho
Em entrevista especial para Le Monde Diplomatique Brasil, um dos grandes cineastas latino-americanos contemporâneos descreve sua formação política, explica como ela influenciou sua obra e defende uma estética que articule investigação profunda da realidade com invenção formal incessante

4.
Memórias do Subdesenvolvimento, arte e revoluções
Edmundo Desnoes, romancista e inspirador de um filme que marcou o cinema cubano, conversa sobre seu processo criativo, as encruzilhadas da Ilha, política e literatura na América Latina, a banalidade do consumo e a importância do ato de narrar, como sentido da própria existência humana

6.
“Sérgio nunca estaria conformado. Por isso, identifico-me com ele”
Miguel Coyula, diretor de um dos dois filmes que estão surgindo a partir de Memórias do Desenvolvimento, explica como a obra dialoga com romance de Desnoes. Para cineas



Artigos Relacionados

INVERTENDO O ALVO E MIRANDO NO SISTEMA DE JUSTIÇA

O que faz o caso Luana Barbosa tão assustador?

Online | Brasil
por Vários autores
RESENHAS

Miscelânea

Edição 185 | Mundo
O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS BONS SENTIMENTOS

Os usos da compaixão

Edição 185 | Mundo
por Évelyne Pieiller
COMO OS ESTADOS PARTILHAM AS ÁGUAS MARÍTIMAS

Direito do Mar balança, mas não avança

Edição 185 | Mundo
por Didier Ortolland
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

A reforma devora seus filhos

Edição 185 | França
por Simon Arambourou e Grégory Rzepski
CUSTO EXORBITANTE DA LIBERALIZAÇÃO

O choque elétrico europeu

Edição 185 | Europa
por David Garcia
NÚPCIAS DO NEOLIBERALISMO COM A EXTREMA DIREITA

Na Itália, a linguagem dupla de Giorgia Meloni

Edição 185 | Itália
por Hugues Le Paige
GUERRA NA UCRÂNIA EMBARALHA AS CARTAS DO ANTIGO BLOCO SOVIÉTICO

A ladainha húngara

Edição 185 | Hungria
por Corentin Léotard