“Michelangelo e seus homens” – Novos olhares para os desenhos
Desenho em Michelângelo é também desígno, sinônimo de raciocínio, construção do pensamento, construção de imagens e, pode ser acrescentado, busca pela perfeição

Michelângelo Buonarroti (1475-1564), um dos grandes mestres do alto Renascimento italiano, cuja genialidade é indiscutível, foi o responsável por nos deixar uma obra que contempla a escultura, a pintura, a arquitetura e a poesia. Ele mesmo se considerava escultor e não há como pensar em Michelangelo sem nos lembrarmos de suas várias versões da Pietá, do Davi e da pintura grandiosa que é o tento da Capela Sistina. O desenho, que na época não era considerado por si só arte, é a base para todas as técnicas desenvolvidas pelo artista italiano e, sem dúvida, é a técnica que o mesmo dominava e fez parte de sua rotina desde o início de sua carreira até os últimos anos de sua vida. Pensar o desenho como mais uma “categoria” artística é bem mais recente, vale lembrar. É com o Modernismo que se passa a valorizá-lo isoladamente, como obra, como completude em si, sem se ter a necessidade de servir, de ser modelo para a futura obra.
Desenho em Michelângelo é também desígno, sinônimo de raciocínio, construção do pensamento, construção de imagens e, pode ser acrescentado, busca pela perfeição. Sim, busca pela perfeição, visto que Michelângelo se desfez, intencionalmente, da maior parte de seus desenhos para que a obra final, escultura ou pintura, ganhasse destaque. Por isso, infelizmente, são poucos os desenhos que restaram da obra grandiosa do artista, em torno de 600 no total, segundo a biografia escrita por Giorgio Vasari.
O desenho acima é um dos que restaram de seus estudos para a Capela Sistina e faz parte da coleção do museu Teylers, que tem em seu acervo 22 desenhos do mestre italiano.
Sendo considerado o mais antigo da Holanda, o museu Teylers é composto de várias sub-coleções dentre elas há a de livros, de desenhos, de pinturas, de instrumentos, de fósseis e minerais. Pieter Teyler começou a colecionar por volta de 1750 e em 1790 adquiriu 22 desenhos de Michelangelo os quais são a “coluna dorsal” da exposição: “Michelangelo e os homens” “De mannen van Michelangelo”, que teve início em 15 de outubro de 2025 e vai até o dia 25 de janeiro de 2026, no próprio museu Teylers, na charmosa cidade de Haarlem, na Holanda.
Há três salas que compõem a exposição. Duas em verde menta com formas vazadas, que sugerem um olho, levam-nos para outro momento da história da Arte. Estar diante desses desenhos, cartas, esculturas e um fragmento de um poema, é um convite a simplesmente silenciar e contemplar a força e a delicadeza do gesto registrados no papel pelo mestre italiano. Há uma terceira sala, com a exibição de um vídeo. Nele, profissionais de várias áreas comentam os desenhos, ora evidenciado um olhar queer, ora um olhar mais católico, passando por uma abordagem feminista até a de um personal trainer. Nesta terceira sala fica evidente as escolhas feitas pela curadoria da exposição que apresenta questões pontuais levando em consideração várias perspectivas em torno dos desenhos de corpos masculinos de Michelangelo, enfatizando a sua preferência por homens.
A exposição apresenta os desenhos de sua própria coleção, como já foi mencionado, além de outras 40 obras (dentre elas gravuras, escultura e desenhos) de amigos, estudantes e seguidores posteriores e até um desenho de Rafael, que era um rival de Michelângelo. Essas obras foram emprestadas por grandes organizações, tais como: The British Museum, Londres; Louvre, Paris; Gallerie degli Uffizi, Florença; Casa Buonarroti, Florença; The Metropolitan Museum of Art, New York; The Courtauld, London, só para citar algumas, o que demonstra o grande trabalho de parceria realizado em anos anteriores.
Desenhos de corpos masculinos musculosos, ora corpos acéfalos, ora fragmentos de mãos, pés, cabeças, que são esboços super detalhados, alguns são estudos anatômicos, e todos são realizados em carvão sobre papel. A técnica de desenho utilizada é a conhecida hachura, que são linhas simples, que ora se aproximam, ora se afastam e com a sobreposição de camadas de linhas cruzadas vão construindo sombra, volume, dando assim tridimensionalidade à forma. São esses desenhos que pela complexidade e agilidade do gesto do artista, “saltam” do papel diante de nossos olhos. Muitos contém figuras humanas e textos endereçados a amigos, também de autoria de Michelângelo que demonstram como o desenho é uma continuação da escrita e vice-versa.

Michelangelo, conhecido por demitir os ajudantes durante a realização do teto da Capela Sistina, nos últimos anos de vida passou a trabalhar em parceria com outros artistas e, assim, dedicava-se mais ao desenho, delegando a execução da obra final. Por isso, é impossível não parar em frente ao retrato realizado pelo artista Daniele da Volterra (1509–1566), um de seus amigos, com certa reverência.
O retrato, cujos traços revelam o rosto cansado do mestre é uma gravura em metal (ponta seca) e mais que uma homenagem ao mestre, é também um exemplo do legado, dos ensinamentos deixados pelo próprio Michelângelo que ficou famoso em vida e veio a falecer aos 88 anos consciente do trabalho cumprido e da efemeridade da vida. Vida que ele mesmo vê esvaindo-se em sua caligrafia trêmula, como deixa registrado em sua última carta.
Estar diante da beleza desses desenhos é uma experiência única, daquelas que nos tiram as palavras e nos fazem pensar em quem mais gostaríamos de ter ao lado para compartilhar tamanha emoção.
Por isso, se você está na Europa ou tem planos de visitá-la, não perca a oportunidade. Essas obras, com cerca de 500 anos e em papel de extrema fragilidade, são expostas raramente. Ver cada traço de perto é um privilégio em tempos tão difíceis quanto os nossos, e uma chance que talvez não se repita tão cedo.
Vá. E, se puder, leve alguém especial com você.
Maria Salete Borba (Nena Borba) é artista plástica, professora de desenho e doutora em Literatura. Dedica-se aos estudos da relação entre texto e imagem, campo no qual organizou os livros Contatos e Contágios: Escrituras Sobre Valêncio Xavier e 100 anos em 100 filmes: escritos sobre cinema. Em sua produção artística, realizou exposições em Santa Catarina e na Europa e mantém uma escrita constante sobre as conexões entre literatura e outras linguagens artísticas.


Seu legado permanecerá por séculos sua vontade e dedicação para atingir perfeição nos mínimos detalhes de forma sublime está presente hoje em dia nas artes de muitos artistas e nos rascunhos daqueles que aspiram ser.