Militância Avatar - Le Monde Diplomatique

ATIVISTAS PALESTINOS

Militância Avatar

por Henry Jenkins
1 de setembro de 2010
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Na Cisjordânia, o filme de James Cameron foi reencenado por ativistas palestinos como crítica à ocupação israelense. Fórmula é antiga: na Europa, a população se fantasiava de povos reais (os mouros) ou imaginários (as amazonas), considerados ameaças à civilização;nos EUA, negros de Nova Orleans criavam tribos indígenasHenry Jenkins

 

Em fevereiro último, cinco militantes – palestinos, israelenses e de outras nacionalidades – desfilaram na vila ocupada de Bil’in, na Cisjordânia, com os corpos pintados de azul. Eles representavam os Na’vi, povo herói de Avatar, filme de ficção científica de James Cameron. O exército israelense lançou gás lacrimogêneo e bombas sonoras contra os manifestantes vestidos com véus e keffiehs e adornados com orelhas e rabos pontudos. Imagens em vídeo dessa ação, justapostas a trechos do filme hollywoodiano, logo foram difundidas pelo YouTube1. Os personagens proclamavam: “Vamos mostrar ao Povo do Céu que ele não pode ter tudo o que deseja! Esta é a nossa terra!”.  

   

A ficção de James Cameron gerou reações. Um crítico de cinema do Vaticano viu no filme uma apologia do “culto à natureza2”. Já os ecologistas o consideraram “a maior epopeia dedicada ao meio ambiente da história do cinema3”. Muitos militantes de esquerda rebatizaram o filme de “Dançando com os Smurfs”, em referência zombeteira à contradição de uma narrativa que condena o colonialismo, ao mesmo tempo que reproduz o fantasma da culpa dos “brancos progressistas”. Para um militante da comunidade cherokee, Daniel Heath Justice, Avatar chama a atenção para as condições de vida dos povos autóctones, ainda que o diretor tenha simplificado ao extremo os males do colonialismo ao criar uma representação do complexo militar-industrial fácil de ser condenada, mas sem elementos que possibilitassem uma compreensão profunda do processo de dominação. Contudo, cada uma dessas abordagens rompe com a visão de uma cultura de massa trivial e insignificante, que seria mero entretenimento ou fuga dos problemas do mundo real.  

   

Os manifestantes de Bil’in relacionaram o combate dos Na’vi em defesa de seu Éden às próprias tentativas de recuperar suas terras. Dessa forma, o imaginário criado por Avatar consolidou-se como uma representação de suas próprias lutas. E graças à potente máquina publicitária hollywoodiana, as imagens desses militantes puderam ser reconhecidas no mundo inteiro.  

   

Ao se apropriar de Avatar, os militantes neutralizaram algumas das objeções mais comuns feitas ao filme. Conservadores crônicos condenaram a película por, supostamente, incentivar um sentimento antiamericano, mas à medida que a imagem dos Na’vi foi retomada por grupos de contestação do mundo inteiro, o mito foi reatualizado em encarnações locais do complexo militar-industrial. Em Bil’in, o cenário de combate ficcional foi substituído pelos conflitos entre palestinos e exército israelense; na China, pelas contendas entre moradores expulsos de suas moradias e o governo de Pequim, que vem empreendendo uma violenta política de urbanização; no Brasil, pelos conflitos entre indígenas e madeireiras que atuam na Amazônia.  

   

Embora não se tenham pintado de azul, intelectuais como o romancista indiano Arundhati Roy e o filósofo esloveno Slavoj Zizek aproveitaram os debates em torno de Avatar para relembrar a situação crítica das tribos autóctones indianas, Dongria Kondh, que tentavam impedir o acesso de mineradoras a seu território sagrado, rico em bauxita. Os Estados Unidos não são, pois, o único “império do mal” do planeta. Críticos de esquerda acreditavam que a ênfase sobre os protagonistas humanos brancos do filme ofereciam uma possibilidade de fácil identificação, mas é a pele azul dos Na’vi que os espectadores revoltosos buscam reproduzir.  

   

Na realidade, os “militantes Avatar” exploram uma velha linguagem de protesto popular. Em seu clássico ensaio, Women on top4 [Mulheres por cima], a historiadora da cultura, Natalie Zemon Davis, nos lembra que na aurora da Europa moderna os manifestantes mascaravam suas identidades trocando de papel. Por exemplo, fantasiavam-se de povos reais (os mouros) ou imaginários (as amazonas), considerados uma ameaça à civilização. No Novo Mundo, os cidadãos de Boston perpetuaram essa tradição ao se fantasiarem de ameríndios para jogar fora carregamentos inteiros de chá no porto da cidade. Em Nova Orleans, negros estadunidenses inventavam suas próprias tribos indígenas no carnaval, recorrendo ao imaginário do velho Oeste de Buffalo Bill, para reivindicar respeito e dignidade.  

Há pouco tempo, uma equipe de pesquisadores da Escola Annemberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade da Califórnia do Sul fez uma lista de grupos que reinvestiram na cultura pop para defender a justiça social, e identificaram o particular interesse dessas iniciativas pela “cultura participativa”. Diferentemente dos meios de comunicação de massa, os meios digitais permitem que um grande número de usuários se aproprie de ferramentas de comunicação e subverta a cultura dominante para seus próprios fins. As narrativas compartilhadas são a base de vínculos sociais poderosos que geram espaços de debate e troca de ideias, produzem conhecimento e criam cultura. Nesse processo, os fãs adquirem competências e constroem uma infraestrutura local com a finalidade de compartilhar suas perspectivas de mundo. Da mesma forma que nas sociedades de caçadores e coletores, os jovens se divertem com seus arcos e flechas, na sociedade da informação a juventude também se aventura na manipulação desta última.  

   

O fundador da Aliança Harry Potter, Andrew Slack, chama esse fenômeno de “acupuntura cultural”, sugerindo que essa forma de organização social identifica um “ponto de pressão” vital no imaginário comum e o relaciona a preocupações sociais mais amplas. A Aliança Harry Potter já sensibilizou mais de 100 mil jovens do mundo todo para as guerras africanas, direitos de trabalhadores, casamento gay, levantamento de fundos para o Haiti ou ainda para campanhas contra a concentração dos meios de comunicação. O jovem Harry Potter, diz também Andrew Slack, entendeu que o governo e a mídia mentem ao público para dissimular problemas, e formou com seus camaradas o Exército de Dumbledore para mudar o mundo. Essa abordagem lúdica da militância permitiu, também, mobilizar jovens que se sentiam excluídos de processos políticos convencionais.  

   

Tais iniciativas podem parecer cínicas (por renunciarem ao poder da razão de converter as massas) ou inocentes (por acreditarem antes no mito do que na realidade). Por outro lado, proporcionam ocasiões em que esses jovens são arrancados do conforto do imaginário dominante para se confrontarem com dificuldades e situações reais.  

   

Essa militância não requer obrigatoriamente pintar-se de azul; exige, sim, que as imagens difundidas pelos meios de comunicação de massa sejam reapropriadas com criatividade. A direita também recorre a esse tipo de procedimento. Nos Estados Unidos, o desenho animado Dora, a exploradora, que conta as aventuras imaginárias de uma garotinha latino-americana e seu macaco, foi utilizado pelos dois campos políticos para ilustrar as consequências da nova lei sobre a imigração, votada no Arizona. É evidente que essas analogias não captam as sutilidades dos debates políticos, da mesma maneira que não seria possível reduzir as diferenças entre o Partido Republicano e o Partido Democrata àquelas que separam os elefantes dos jumentos – seus respectivos emblemas, herdados de quadrinhos políticos de outra época. Avatar pode não fazer jus ao velho combate pela liberação de territórios ocupados, e o vídeo do YouTube não substitui um discurso informado sobre a questão. Porém, seu aspecto espetacular e participativo pode promover aos recém-chegados à política a energia emocional necessária para a continuidade da luta. E engendrar novas formas de ação.  

Henry Jenkins ex-diretor do programa de estudos comparados de mídia do Massachusetts Institute of Technology, MIT; decano do Departamento de Comunicação, Jornalismo e Artes do Cinema da Universidade da Califórnia do Sul. Autor de Fans, bloggers and gamers, NYU Press, 2006.



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