Minerais críticos e a geopolítica da desigualdade
Estaríamos diante de uma mudança efetiva no modo de organização da economia mundial, ou apenas de uma reconfiguração tecnológica que preserva, sob novas roupagens, a lógica histórica da exploração?
A promessa e a contradição
A transição energética e digital do século XXI tem sido apresentada como uma ruptura histórica: o abandono progressivo dos combustíveis fósseis em direção a uma economia limpa, eficiente e tecnologicamente avançada. No imaginário contemporâneo, turbinas eólicas, veículos elétricos e dispositivos inteligentes não apenas simbolizam inovação, mas também a promessa de reconciliação entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. Trata-se, em aparência, de uma metamorfose civilizatória, no qual o capitalismo encontraria, enfim, uma forma de compatibilizar expansão produtiva e preservação do planeta.
Essa narrativa, no entanto, oculta uma dimensão fundamental a respeito da base material que sustenta essa transformação. Distante de configurar a desmaterialização da economia, a transição “verde” depende crescentemente da extração intensiva de minerais críticos e terras raras, insumos indispensáveis à microeletrônica, às energias renováveis e às tecnologias digitais. Aquilo que se apresenta como leve, limpo e imaterial repousa, na realidade, sobre cadeias produtivas densamente ancoradas em territórios específicos, marcadas por desigualdades de poder, impactos ambientais e formas persistentes de exploração.
Nesse sentido, a atual reconfiguração tecnológica não pode ser compreendida como uma ruptura com o padrão histórico do capitalismo, mas como sua atualização em novas bases técnicas. A transição energética e digital, ao mesmo tempo em que redefine os centros dinâmicos da economia mundial, reinscreve antigas hierarquias sob novas formas, deslocando, sem necessariamente superar, as estruturas de dependência que historicamente caracterizam a inserção do Sul Global no sistema internacional.
É a partir dessa tensão, entre promessa de transformação e permanência estrutural, que se impõe uma questão central: estaríamos diante de uma mudança efetiva no modo de organização da economia mundial, ou apenas de uma reconfiguração tecnológica que preserva, sob novas roupagens, a lógica histórica da exploração?
Do petróleo aos minerais: uma nova lógica de poder
A centralidade dos minerais críticos e das terras raras na economia contemporânea não apenas redefine a base material da produção, mas inaugura uma transformação mais profunda, ao reconfigurar os próprios fundamentos da geopolítica global. Ao longo do século XX, o petróleo estruturou tanto o crescimento econômico quanto as disputas internacionais, organizando alianças, conflitos e estratégias de poder em torno de seu controle territorial e de sua circulação. No século XXI, embora a energia continue sendo um fator decisivo, o eixo do poder desloca-se progressivamente para recursos cuja função ultrapassa o fornecimento energético, passando a sustentar a própria infraestrutura tecnológica do capitalismo.
A analogia entre o petróleo e os minerais críticos, ainda que útil, torna-se limitada quando tomada de forma simplificada. Diferentemente do petróleo, cuja centralidade estava associada à geração de energia em larga escala, os minerais críticos exercem funções múltiplas e interdependentes, pois são indispensáveis à produção de dispositivos eletrônicos, ao armazenamento de energia, à geração renovável e às tecnologias militares avançadas, como sistemas de defesa, radares, satélites e armamentos de alta precisão. Isso reforça seu caráter estratégico no equilíbrio de poder global. Seu valor, portanto, não reside apenas na disponibilidade física, mas na inserção em cadeias produtivas complexas e altamente especializadas.
Essa transformação desloca o foco da geopolítica tradicional baseada no controle direto de territórios ricos em recursos para uma geopolítica em rede, na qual o poder se exerce por meio do domínio sobre etapas específicas das cadeias globais de valor. Nesse novo arranjo, a capacidade de extrair o recurso é apenas um dos elementos em jogo. Igualmente decisivos são o refino, o processamento, o desenvolvimento tecnológico e a integração industrial. É justamente nesse ponto que se observa uma inflexão significativa no equilíbrio global, já que não são necessariamente os países que concentram as maiores reservas que detêm maior influência, mas aqueles capazes de controlar os pontos críticos da produção, sobretudo nas etapas de maior valor agregado e complexidade química. O poder, assim, desloca-se do domínio territorial para o controle dos fluxos materiais que sustentam a economia contemporânea.
A China ilustra de forma exemplar essa transformação. Mais do que deter reservas significativas, o país consolidou uma posição dominante nas etapas de refino e processamento de terras raras, controlando segmentos cruciais das cadeias produtivas globais. Como indicam análises do World Economic Forum (2024) e do East Asia Forum (2026), esse domínio não é resultado de uma vantagem natural isolada, mas de uma estratégia de longo prazo que articula planejamento estatal, política industrial e inserção seletiva na globalização. Trata-se de uma forma de poder que combina segurança de suprimento, modernização industrial e projeção geopolítica.
Em contraste, os Estados Unidos, apesar de sua liderança tecnológica, enfrentam dificuldades significativas na recomposição de cadeias produtivas autônomas. Setores estratégicos, como a indústria aeroespacial e de semicondutores, já sofrem com gargalos no fornecimento desses insumos críticos, evidenciando que o poder contemporâneo não se define apenas pela inovação, mas pela capacidade de controlar os fluxos materiais que a sustentam (LAMPERT, 2026).
Para compreender como essa arquitetura de rede se traduz em poder real, basta observar o domínio chinês sobre o refino de terras raras. Embora as jazidas estejam distribuídas por diferentes regiões do mundo, a China construiu, ao longo de décadas, uma posição dominante justamente no elo mais sensível da cadeia, o processamento químico, criando controle sobre uma série de minerais críticos e terras raras, o que representa um golpe considerável para a economia dos EUA, já que sem o acesso aos minerais críticos, as empresas viram suas linhas de produção ameaçadas (BBC 2026). Esse controle permite ao país exercer influência desproporcional sobre uma ampla gama de setores industriais globais. Segundo a Reuters (2026), a China mantém uma extensa lista de controle de exportações envolvendo tecnologias e insumos de dupla utilização, exigindo licenças específicas para sua comercialização internacional, independentemente de onde o usuário final esteja localizado.
Nesse contexto, a China não precisou recorrer a bloqueios navais ou ocupações territoriais, ela utilizou seu poder de veto no ponto nevrálgico da rede de suprimentos para paralisar a economia de um adversário. Assim, o equilíbrio de forças desloca-se para a capacidade de um Estado de “desligar” a inovação de outro, convertendo dependência industrial em vulnerabilidade estratégica.
Esse cenário também redefine a natureza dos conflitos internacionais. Se, no passado, disputas por recursos energéticos frequentemente se traduziam em confrontos diretos ou intervenções territoriais, a geopolítica dos minerais críticos tende a operar de maneira mais difusa. Ela incorpora instrumentos como restrições comerciais, controle de exportações e acordos bilaterais assimétricos (parcerias formais entre países marcadas por profundas desigualdades de poder econômico, tecnológico e político). Trata-se de uma forma de poder menos visível, porém potencialmente mais abrangente, na medida em que se infiltra nas engrenagens da produção global.
Dessa forma, a transição dos combustíveis fósseis para os minerais críticos não representa apenas uma mudança de insumos, mas uma transformação na própria lógica do poder geopolítico. Mais fragmentada, mais interdependente e profundamente integrada às cadeias produtivas, essa nova configuração desafia as formas tradicionais de análise e exige reconhecer que, no capitalismo contemporâneo, o controle sobre a matéria-prima é indissociável do controle sobre o conhecimento, a tecnologia e a organização da produção. É justamente essa articulação entre recursos, poder e organização global que recoloca, em novos termos, o problema da governança internacional e da distribuição desigual dos benefícios da transição energética.

A nova geopolítica da energia: a economia verde entre transição e continuidade
A emergência dos minerais críticos como eixo estruturante da economia contemporânea ocorre em um contexto marcado pela ausência de uma governança global capaz de regular, de forma equitativa, o acesso, a exploração e a distribuição dos benefícios associados a esses recursos. Em vez de um regime cooperativo, observa-se a intensificação de estratégias nacionais e blocos de poder que buscam garantir segurança de suprimento, frequentemente por meio de políticas industriais seletivas, restrições comerciais e disputas geoeconômicas. Esse cenário revela que a transição energética, longe de constituir um processo coordenado em escala global, tem sido conduzida sob a lógica da competição interestatal e da fragmentação das regras.
Essa dinâmica torna-se ainda mais evidente quando se considera a base material da própria transição energética. A expansão de tecnologias de baixo carbono, como veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia, painéis solares e turbinas eólicas, depende intensamente de minerais críticos e terras raras, utilizados em baterias, ímãs permanentes, semicondutores e componentes eletrônicos de alta complexidade. Longe de reduzir a centralidade dos recursos naturais, a descarbonização da economia global redefine quais matérias-primas são estratégicas, ampliando a demanda por esses insumos e deslocando a pressão extrativa para novas regiões, em especial no Sul Global. A chamada “economia verde”, portanto, não prescinde da exploração material, mas a reorganiza em novas bases tecnológicas e geopolíticas.
É nesse ambiente que se esboça uma reconfiguração da divisão internacional do trabalho. Países do Sul Global, ricos em recursos minerais estratégicos, tendem a ocupar posições subordinadas, especializando-se na extração e exportação de matérias-primas, enquanto as economias centrais concentram as etapas de maior valor agregado, como o refino, o desenvolvimento tecnológico e a inovação industrial. Em vez de configurar uma ruptura com o padrão histórico, essa dinâmica sugere sua atualização, já que o capitalismo não supera sua lógica extrativista, mas a reinventa sob o signo da sustentabilidade, reorganizando a produção global de modo a preservar, e, em certos casos, aprofundar as desigualdades existentes.
Mais do que uma simples reorganização produtiva, trata-se da consolidação de uma “globalização verde” que opera como linguagem legitimadora de continuidades estruturais. A transição energética, frequentemente apresentada como imperativo técnico e ambiental, tende a obscurecer os conflitos distributivos que a atravessam, naturalizando a ideia de que a descarbonização pode ocorrer sem a transformação das relações de poder que sustentam a economia mundial. Nesse sentido, a sustentabilidade converte-se, não raramente, em um novo vocabulário para práticas antigas, nas quais os custos ambientais e sociais permanecem concentrados nas regiões periféricas, enquanto os benefícios econômicos e tecnológicos se acumulam nos centros de poder.
Diante desse quadro, a disputa em torno dos minerais críticos não diz respeito apenas ao controle de recursos ou de cadeias produtivas, mas à definição das regras que organizarão a economia política da transição energética. A ausência de mecanismos multilaterais efetivos, aliada à assimetria de capacidades entre países, coloca o Sul Global diante de um dilema histórico: ou se limita a reproduzir uma inserção subordinada, baseada na exportação de recursos estratégicos, ou busca construir estratégias capazes de ampliar sua participação nas etapas de maior valor agregado, redefinindo sua posição na economia mundial.
É nesse ponto que a questão da governança global se torna incontornável. Sem instrumentos que promovam transferência tecnológica, coordenação produtiva e distribuição mais equilibrada dos ganhos, a transição energética corre o risco de aprofundar desigualdades já consolidadas. Mais do que uma mudança na matriz energética, está em jogo a possibilidade de uma transformação nas próprias relações de poder que estruturam o sistema internacional.
Ou a transição energética será também uma transição nas relações de poder, reconfigurando a distribuição global de riqueza, tecnologia e soberania, ou será apenas a atualização ecológica de um sistema historicamente desigual.
Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior
Bibliografia
BBC NEWS BRASIL. Por que decisão da China de restringir exportação de terras raras é duro golpe para EUA. BBC News Brasil, 18 abril,2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c62z0l0pwe1o
LAMPERT, Allison; CHEN, Laurie; JACKSON, Lewis; MARTINA, Michael. Exclusivo: Escassez de terras raras se agrava nos setores aeroespacial e de semicondutores dos EUA, apesar da trégua comercial, dizem fontes. Reuters, 26 fev. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/rare-earth-shortages-worsen-us-aerospace-chips-despite-trade-truce-sources-say-2026-02-26/
WORLD ECONOMIC FORUM. Por que a estratégia da China para minerais críticos vai além da geopolítica. Fórum Econômico Mundial, 19 de nov. 2024. Disponível em: https://www.weforum.org/stories/2024/11/china-critical-mineral-strategy-beyond-geopolitics/
ZHOU, Weihuan. A estratégia da China para minerais críticos além da geopolítica. East Asia Forum, 3 mar. 2026. Disponível em: https://eastasiaforum.org/2026/03/03/chinas-critical-mineral-strategy-beyond-geopolitics/


Boa matéria e análise. De fato é uma reconfiguração tecnológica sob nova roupagem. A exploração continua e continuará a trazer impactos, agora sob outra lógica, o que não reprime a história da exploração mineral ao longo do tempo. Óbvio que a crescente demanda se deve a diversos fatores, como o aumento populacional exponencial, mais pessoas tendo acesso ao mercado global, etc… Acredito que as matrizes energéticas e mercadológicas de consumo dependem cada vez mais de fontes renováveis, sem perder de vista aquelas tradicionais dos séculos anteriores. Quanto maior a diversidade de ofertas, melhor para a sustentabilidade de qualquer nação ou povos. Não imagino uma transição plena e nem tão pouco a médio prazo. Estimaria de 1 a 2 séculos, no mínimo, a depender da oferta, capacidade de transformação, adaptação aos novos modelos e hábitos, além de toda a infraestrutura necessária. No caso brasileiro, como exemplo, o gás: devemos ter no mínimo hoje (chute) 300 milhões de fogões a gás e de alta confiabilidade. Será que o fogão elétrico teria a mesma eficácia? Atenderia a toda a demanda, adaptação, além do enorme aumento do consumo de eletricidade e material, aumento de sucatas? Temos pelo mundo afora aquecimentos em chuveiros a gás! Muitos têm medo do chuveiro elétrico, amplamente usado no Brasil e até onde sei, extremamente seguro, como também outros 99% dos casos dos que optam pelo gás e outros. Sempre lembro dos hotéis com aquecimento central e o enorme desperdício de água. Só mesmo para reflexão e dizer que a mudança visa mais, diversificar e/ou reduzir impactos mais agressivos de algumas fontes. O mundo continuará precisando das termoelétricas Carvão ou outra fonte, como derivado de petróleo ou da energia nuclear, das hidrelétricas, fontes solares, eólicas, gás, diesel, querosene, além das diversas baterias dos minerais estratégicos em alta (TR, níquel, cobre, nióbio, grafita, lítio, etc…). Todas as fontes, de uma forma ou outra, impactam o ambiente e exigem muita matéria prima, infraestrutura, distribuição, etc… (só um comentário)… Assunto em alta no mundo. Vamos que vamos, um passo de cada vez.