Morte súbita: a volta do futebol brasileiro na pandemia e a política

Por que a pressa?

Morte súbita: a volta do futebol brasileiro na pandemia e a política

por Helcio Herbert Neto
23 de junho de 2020
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Por que a pressa?  A pergunta feita pelo ex-jogador e comentarista Walter Casagrande Júnior, na mesa redonda esportiva Bem, Amigos!, do SporTV, foi direcionada a Rodolfo Landim, presidente do Flamengo

Maracanã sob silêncio. No terceiro dia com mais mortes durante a pandemia do coronavírus no Rio de Janeiro, o Flamengo voltou aos gramados contra o Bangu pelo Campeonato Estadual. Sem torcida, além das delegações esportivas envolvidas na partida, estavam no complexo do estádio até 400 pacientes que conviviam a doença. Essa é a capacidade do hospital de campanha montado exclusivamente para o combate à Covid-19. A diretoria rubro-negra, desde o princípio do regime de isolamento social, pressionou as autoridades do município, do estado e o governo federal pelo retorno do futebol no país. Por que a pressa?

A pergunta feita pelo ex-jogador e comentarista Walter Casagrande Júnior, na mesa redonda esportiva Bem, Amigos!, do SporTV, foi direcionada a Rodolfo Landim, presidente do Flamengo. Os dois participaram da edição da semana que antecedeu a volta do futebol masculino profissional no país, a despeito de todas as recomendações sanitárias. A discussão travada no ar reflete a disputa sobre políticas a serem adotadas para enfrentar a disseminação do vírus no país. Programas como esse constituem um gênero televisivo que, ao longo de décadas, não se deteve somente a comentar os acontecimentos esportivos e abordou nuances da vida social brasileira. 

Por conta da escassez de ambientes para interação entre diferentes pontos de vista em veículos de comunicação e na sociedade em geral – devido aos períodos autoritários que o país atravessou desde os anos 1950 ou pela falta de pluralidade na televisão –, as mesas redondas esportivas permitem um olhar sobre aspectos culturais e políticos. Principalmente quando há uma conexão entre a política partidária e o esporte, como na crise do coronavírus. O embate entre Landim e Casagrande exige um olhar mais abrangente para o passado, para que seja compreendido o choque entre manifestações democráticas e autoritarismo no esporte.

Técnico Jorge Jesus e membros da diretoria do Flamengo cumprem procedimentos sanitários antes de jogo contra o Bangu. (Alexandre Vidal/Flamengo/Divulgação)
Técnico Jorge Jesus e membros da diretoria do Flamengo cumprem procedimentos sanitários antes de jogo contra o Bangu. (Alexandre Vidal/Flamengo/Divulgação)
Landim na sala de troféus

Rodolfo Landim ganhou destaque no mundo corporativo como executivo do grupo comandado pelo empresário Eike Batista. Foi eleito no final de 2018 para presidir o Flamengo e, em fevereiro do ano seguinte, houve um incêndio nas dependências do Centro de Treinamento do clube. O episódio determinou a morte de dez atletas das categorias de base, mas famílias das vítimas batalham até hoje na justiça por indenizações. O dirigente rubro-negro teve como um de seus atos no primeiro ano de mandato inaugurar a sala de troféus. O nome do espaço não homenageou a memória dos jovens e adolescentes. Nem mesmo um dos tantos jogadores que fizeram história com a camisa do time carioca. 

A nova área para exibir as conquistas do clube foi batizada com o nome de José Maria Scassa, comentarista esportivo filiado à União Democrática Nacional (UDN) – partido que ofereceu a sustentação civil ao Golpe Militar de 1964. Muito conhecido nas primeiras décadas da TV no Brasil, chegou a se candidatar a vereador da Guanabara pela sigla. Na inauguração da sala de troféus, Landim não faz referência ao fato de Scassa ter convivido com o contraditório em debates televisivos, a seu apelo popular ou a quaisquer outras características. O presidente do Flamengo foi direto na cerimônia de 9 de julho de 2019: “O Scassa para mim era aquela imagem do meu grande ídolo porque era aquele cara que defendia o meu clube”.

Com a intenção de proteger interesses do Flamengo, Landim posou para foto com Jair Bolsonaro em Brasília, ao lado do médico do clube. Todos sem máscara durante a pandemia. Sob o argumento de que a crise econômica colocava a gestão em perigo, o presidente rubro-negro negociou a volta do futebol em um ambiente de forte apelo para ruptura institucional. Nos dias seguintes, o elenco treinou no mesmo CT cujo alojamento foi alvo da explosão do ano anterior. A atitude contrariava recomendações sanitárias e forçava que os demais times fluminenses retornassem aos treinos, devido ao risco de saírem em desvantagem na disputa do Estadual. O alinhamento de um presidente do clube com um governo autoritário não é um fato inédito.

Em 1966, Veiga Brito foi eleito para deputado federal pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de apoio à Ditadura Militar, e para a presidência do Flamengo. A votação ocorreu após a cassação das demais legendas pelo regime e a instauração do bipartidarismo, com a criação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em oposição à Arena. Edições nesse ano e em 1967 de Grande Revista Esportiva Facit, mesa redonda da TV Globo que tinha como um de seus comentaristas fixos o próprio José Maria Scassa, contaram com repetidas participações de Veiga Brito. Nos anos do processo eleitoral e da posse no cargo, o dirigente esportivo ganhou exposição com a presença frequente no programa.  

Casagrande: das Diretas Já ao Esporte pela Democracia

Do alto do palanque no Vale do Anhangabaú, na década de 1980, um jovem Casagrande, então atacante do Corinthians, apoiou o movimento pelas Diretas Já. O atleta compôs o grupo de jogadores da Democracia Corintiana ao lado do líder do elenco Sócrates, defendeu o fim da Ditadura Militar e pediu mais autonomia para os atletas profissionais nas tomadas de decisões dos clubes. As manifestações por eleições diretas para presidente foram, sob vários aspectos, derrotadas e não alcançaram o objetivo: Tancredo Neves venceu no colégio eleitoral, mas José Sarney presidiu o Brasil até que Fernando Collor, primeiro eleito para o cargo desde o golpe militar de 1964, assumisse o mandato. 

O fracasso do Partido dos Trabalhadores (PT), no segundo turno das eleições de 2018, ocasionou a chegada do ex-capitão Jair Messias Bolsonaro ao principal cargo da república. É o único representante do Exército a ocupar o posto após o período ditatorial criticado por Casagrande. Desde os protestos da Democracia Corintiana contra a Ditadura Militar, muitos anos haviam se passado. O agora comentarista nem poderia conviver com a principal liderança daquele elenco do Corinthians nos anos 1980. O atacante relata, na obra memorialística “Sócrates & Casagrande”, que após a aposentadoria dos dois a relação foi marcada por desencontros. O livro foi publicado depois da morte de Sócrates em 2011. Um dos motivos era justamente a discordância sobre a gestão do país nos mandatos do PT na presidência.

Em maio, depois de manifestações contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal que pediam intervenção militar, Casagrande compareceu ao estúdio do Bem, Amigos!. As discussões daquela edição se voltavam para as declarações de Raí, diretor do clube de futebol São Paulo. Irmão de Sócrates, o ex-jogador pedia para que Bolsonaro renunciasse. O posicionamento não agradou parte dos comentaristas, que era contra manifestações políticas da comunidade esportiva sobre o governo naquele período. Casagrande, em contrapartida, reforçou a necessidade de os atletas se expressarem diante de uma situação tão difícil para os brasileiros. 

No momento em que o debate com Landim na mesa redonda seria transmitido ao vivo para os assinantes de TV a cabo, circulava nas redes sociais o manifesto Esporte pela Democracia. O texto reforçava a necessidade do combate ao racismo, da luta por uma sociedade mais igualitária e denunciava a ausência de políticas públicas que pudessem evitar mortes causadas pelo vírus. Embora não fosse mencionado diretamente o nome de Bolsonaro, as críticas se voltavam para a conduta do presidente da república, cujo negacionismo contribuiu para colocar, naquele mês de junho, o Brasil como o segundo país com mais óbitos na pandemia. O documento tinha em Raí um de seus signatários. O nome de Casagrande também consta na lista.

Cuidado com as fake news

Em Bem, Amigos!, na edição de 8 de junho, Landim respondeu a Casagrande que a pressa era compartilhada por todos os principais times da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol. O dirigente do Flamengo se esforçou para se apresentar como um líder da modalidade no Brasil, sugerindo que a volta do esporte, naquelas condições, fosse uma unanimidade no país. Em 2019, o Flamengo obteve sucesso esportivo às custas de caras contratações. Com estádios cheios, foi campeão do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores, além da conquista do torneio estadual. 

Diante do protagonismo técnico do time, o presidente do Flamengo acreditava também liderar o processo para a retomada do calendário esportivo nacional. Houve, contudo, muitos esforços na direção contrária. Nem mesmo no Rio foi firmado acordo para a disputa do Campeonato Carioca, já que Fluminense e Botafogo recorreram à justiça para que a volta dos jogos fosse protelada a fim de garantir o mínimo de segurança para atletas, funcionários e árbitros. Durante o debate televisionado, Landim ainda afirmou que o Grupo Globo, que mantém o canal por assinatura SporTV, também programava para junho o retorno dos atores para a filmagem das novelas.    

O presidente do Flamengo foi desmentido pelos integrantes do programa. A emissora planejava a volta das telenovelas apenas para o mês seguinte. Em seguida, Casagrande fez com que a mesa redonda reconhecesse que o governo federal não tratou bem a pandemia no Brasil. Para sustentar o argumento, o comentarista lembrou que o ministério da saúde ficou durante meses sem um titular. O ex-jogador ainda ironizou Landim: “Cuidado com as fake news!”. O comentário foi transmitido depois de operações judiciais terem sido cumpridas contra apoiadores do governo Bolsonaro para desmantelar redes de desinformação, suspeitas de interferirem até nas eleições de 2018. O Tribunal Superior Eleitoral vai julgar o caso. 

Futebol, repressão e resistência

Não há uma inclinação automática do clube hoje administrado por Landim para o autoritarismo. Três passagens são elucidativas nesse sentido: a Frente Ampla do Flamengo (FAF), que reuniu representantes rubro-negros de oposição nos anos 1970; o movimento Flanistia, na mesma década, pelo retorno dos exilados políticos e pela abertura da Ditadura; e até a presença nos quadros de atletas de nomes como Stuart Angel Jones, remador e militante de esquerda morto pelo aparato repressor do Estado durante o regime militar. No entanto, os gestos públicos da atual administração mostram uma disposição para aderir ao projeto de poder bolsonarista. 

Um caso envolvendo a memória de Stuart Angel é emblemático para confirmar essa tendência. Quando, em 2019, um grupo de torcedores do Flamengo organizou uma homenagem ao remador do clube, a direção emitiu um comunicado para informar que o evento não foi planejado pela instituição. O texto ainda alertava que manifestações daquele tipo eram algo “estatutariamente vedado”. A simbologia presente nesses acenos ao passado do clube, que privilegia a dimensão de arbítrio em detrimento do legado de resistência, atesta esse traço da diretoria.

Tampouco é possível afirmar que a Democracia Corintiana foi um movimento hegemônico ou duradouro no Corinthians, time pelo qual Casagrande ficou famoso no futebol brasileiro. O clube paulista foi presidido durante um longo período por Wadih Helu. Político da mesma Arena de Veiga Brito, o dirigente foi uma figura ligada a aparelhos de tortura. O que fica claro é que ocorre, no futebol brasileiro, uma disputa de expressões democráticas contra esse viés repressivo. Não são fenômenos isolados que irromperam com a eleição de Bolsonaro para a presidência, mas reminiscências de outros períodos políticos do país que agora vêm à tona. 

É relevante a função que o gênero das mesas redondas esportivas desempenha para o debate da vida social brasileira. Os programas convivem com atravessamentos políticos e é necessário identificar essas vertentes em confronto, nesse caso as tendências antidemocrática e antiautoritária. Interessa menos o resultado do jogo. A saber: o Flamengo venceu o Bangu por 3 a 0, com gols de Arrascaeta, Bruno Henrique e Pedro Rocha. E nos momentos em que a bola foi parar na rede, as comemorações foram sufocadas pelo estádio mudo. 

Helcio Herbert Neto é repórter, doutorando em História Comparada pela UFRJ e pesquisador do Laboratório de História do Esporte e do Lazer (Sport) da mesma universidade.



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