Na China, o deserto transforma-se em vinha - Le Monde Diplomatique

UM NOVO ATOR NA GLOBALIZAÇÃO DO VINHO

Na China, o deserto transforma-se em vinha

por Boris Pétric
4 de agosto de 2014
compartilhar
visualização

Após o refluxo da crise financeira, as exportações mundiais de vinho atingiram novos picos e representaram mais de 22 bilhões de euros em 2012. Ao mesmo tempo, as vinhas diminuíram na Europa e espalharam-se pela Ásia, fazendo dos chineses os maiores consumidores de vinho tinto do mundo e produtores cada vez melhoresBoris Pétric

 

 

A área dos vinhedos chineses dobrou nos últimos quinze anos e cresceu para cerca de 600 mil hectares em 2013.1 A China pode se tornar um gigante vitícola mundial, enquanto os vinhedos diminuem na Europa (3,5 milhões de hectares, dos quais 800 mil na França). O vinho conhece uma moda sem precedentes. A produção chinesa aumenta muito rapidamente, assim como o consumo, cuja margem de crescimento permanece considerável – 1,2 litro por habitante e por ano, contra 47 litros na França e 37 na Itália.2 Esse mercado em constante progresso aparece como um novo eldorado tanto para os produtores locais como para os exportadores estrangeiros. Em 2014, Pequim já surge na primeira fileira dos clientes da região de Bordeaux.

Se a vinha é conhecida na China há dois milênios, a vinificação e a produção em massa remontam somente aos anos 1980. Até 1990, apenas as regiões de Hebei (em torno de Pequim), Shandong e Xinjiang produziam vinho, sob o controle de um punhado de grandes empresas do Estado (Chanyu, Dragon Seal, Great Wall e Sunitime), que dominam atualmente o setor. No alvorecer do século XXI, a China desenvolveu novas cooperações com o estrangeiro, montando parcerias de sucesso espetacular: 59 mil empresas acolhem hoje investimentos em capitais ocidentais e permitem a transferência progressiva de um conjunto de know-how. Associações são efetuadas com multinacionais como Miguel Torres, Domecq, Pernod Ricard e Castel. Pequim abre seu espaço econômico, mas conserva certos princípios: a terra agrícola permanece sendo um bem inalienável e o acesso à propriedade passa por contratos de arrendamento de longo prazo efetuados com o Estado ou com parceiros locais.

 

Saint-Émilion em Liaoning

Essa cooperação possibilita adquirir um know-how e limitar as importações, graças a transferências de capital e tecnológicas. O Estado francês criou assim um domínio vitícola em Hebei, investindo 2 milhões de euros. Apesar do abandono posterior desse projeto, a experiência permitiu ligar parceiros, trocar conhecimentos sobre cepas e vinificação, e formar os primeiros especialistas chineses. O enólogo Lee Demei tornou-se assim um dos melhores consultores para várias grandes adegas do país. Empresas de capital francês também investiram, com resultados mitigados. A Pernod Ricard preferiu sair de uma primeira parceria complicada com a Dragon Seal no início dos anos 2000, mas permanece presente em Ningxia com seu domínio Helan Mountains. Associada à Chanyu em Shandong, a Castel prossegue a aventura.

Desde 2000, o impulso da viticultura inscreve-se numa vontade de desenvolver o oeste do país e as províncias deixadas ao largo do boom econômico. Xinjiang, Mongólia Interior, Ningxia e Shanxi tornaram-se “regiões de investimento prioritárias”. Com a viticultura, as autoridades locais esperam limitar o êxodo rural e criar empregos. Vinhedos nobres, por vezes de pequeno porte, aparecem com a ambição de produzir um vinho de qualidade. A irrigação, sobretudo nas proximidades do Rio Amarelo, permite-lhes instalar-se nessas regiões desérticas e frias. Para evitar os desastres da geada, as vinhas são enterradas no inverno.

Um discurso político acompanha a valorização da viticultura. “Nós contribuímos para fixar a areia e limitar as tempestades sobre as grandes cidades do leste”, explica-nos um mestre de adega. “Temos um papel coletivo muito importante: tornar verde o deserto e melhorar a vida de nossos concidadãos”.3 Jian Han, do “Château Hansen”, na Mongólia Interior, acrescenta: “A evolução de nossa empresa é indissociável do desenvolvimento de nosso país… É um sonho transformar a natureza, e um dever para a sociedade”.

Os grandes grupos da viticultura não aparecem mais sozinhos desde meados dos anos 2000. Novos ricos chineses4 não hesitam em empregar pedólogos, sementeiros, enólogos e arquitetos franceses para fazer nascer vinhedos de bom porte. “Nosso governo fez do vinho uma prioridade e esperamos continuar a atrair investimentos estrangeiros. Já há trinta vinícolas [no país] e 35 castelos estão em construção. Queremos definir uma apelação de origem controlada (AOC) e fazer uma bebida de qualidade”, confidencia um responsável por Ningxia. A Domaine Baron de Rothschild (DBR) instalou-se na região de Penglai (Shandong), associando-se ao fundo de investimento China International Trust and Investment Corporation (Citic). A Louis Vuitton Moët et Hennessy (LVMH) preferiu a província de Yunnan, onde a empresa francesa criou a marca Shangrila, em parceria com o grupo Vats.

Os complexos de enoturismo, como a construção de uma réplica de Saint-Émilion em Dalian (Liaoning), respondem por sua vez às expectativas das classes urbanas consumidoras de lazer e às necessidades dos promotores em busca de novos investimentos. A presença de um vinhedo parece por vezes secundária nesses vastos complexos compostos de castelo-hotel, golfe, tênis etc. Sob o manto do anonimato, um observador explica: “É preciso relativizar o interesse dado ao vinho. Fundar um vinhedo permite obter um contrato de arrendamento da terra. Com frequência, os homens de negócio zombam da vinha. Com a expansão urbana no futuro, esta poderá ser posta abaixo, mas eles vão manter o contrato de arrendamento… É uma questão a considerar”.

Para o poder, o vinho simboliza também a inserção do país na globalização e reforça a imagem que ele quer promover. Recusando-se a ver sua influência reduzida a uma produção de baixo custo, ele conta com produtos dotados de dimensões culturais e identitárias. O vinho deve representar uma marca nacional na batalha mundial das “marcas-país”. “Meu sonho é simples, de que minha produção se torne o orgulho da China. Nós nos tornamos capazes de fazer grandes vinhos e vamos provar isso para o mundo inteiro!”, entusiasma-se um proprietário de vinhedos de Ningxia.

No entanto, o investimento no vinho justifica-se por uma contribuição para o projeto coletivo chinês e combate a ideia de um sonho individual, o que não impede jovens enólogos, como Emma Gao, do domínio Silver Heights (Ningxia), e Jhing Zhang, do domínio Jiabelan (Ningxia), de receberem destaque da revista britânica Decantere da Revue du Vin de France.

Uma barreira importante para a extensão do domínio da vinha consiste na falta de terras adaptadas a seu crescimento. Os atores da filial exploram o vasto território chinês à procura do lugar ideal. Consultores5 reputados são solicitados, mas, como explica Gérard Colin, enólogo francês, “as três principais regiões – Hebei, Shandong e Xinjiang – não têm futuro. Xinjiang tem um problema, porque enterrar a vinha implica um custo impossível de gerir num contexto de falta de mão de obra. Não digo o mesmo sobre a irrigação e o problema da água. Para Hebei, o avanço da cidade torna-se impressionante. Os camponeses preferem abandonar sua terra e trabalhar na construção… É mais rentável!”. No que concerne a Shandong, outro francês, Bruno Paumard, destaca o sério problema climático:“Uma forte umidade, combinada com o calor, provoca doenças. E o tratamento químico tem seus limites… Ainda não encontramos o espaço ideal para produzir vinho”. Contudo, a China tornou-se o quinto produtor mundial em 2012 e a multiplicação espetacular dos projetos deve catapultá-la rapidamente para um dos três primeiros.6

Ao mesmo tempo, os grandes grupos da agroindústria desenvolvem uma estratégia de aquisição de meios de produção no estrangeiro. Por exemplo, o gigante do negócio Cofco já é dono do Château Viaud (25 hectares), em Bordeaux, comprou os 800 hectares da bodega Bisquertt,7 no Chile – país ligado à China por um acordo de comércio –, e tenta se estabelecer na Austrália. As empresas chinesas também procuram adquirir marcas estrangeiras para distribuí-las diretamente em seu país, como é o caso de Quang Wang, proprietário de uma grande plantação de vinho classificado em Saint-Émilion: Bellefont-Belcier. Em Bordeaux, cerca de cinquenta domínios foram vendidos a chineses. Alguns provavelmente também tentam colocar uma parte de seu patrimônio ao abrigo de mudanças políticas. Ainda que Bordeaux possua mais de 7 mil propriedades, essas poucas vendas suscitam uma emoção particular na França, com alguns vendo nisso um perigo chinês para o patrimônio vitícola nacional.8

Empresas chinesas no estrangeiro, empresas estrangeiras na China… Essas aquisições refletem a transnacionalização crescente dos atores e dos territórios de colheita.9

O impulso da produção visa satisfazer em primeiro lugar a demanda interna: mais de 80% dos vinhos consumidos provêm da China.10 Mas não se deve confundir o que é bebido com o que é comprado. Esse crescimento enraíza-se na cultura dos presentes (liwu), que está por toda parte. A maioria dos vinhos chineses degustados nas diferentes adegas não se encontra no mercado. “Não temos nenhum problema para escoar os vinhos”, explica um mestre de adega. “Meu chefe tem relações com as autoridades locais, às quais oferecemos uma quantidade significativa. Em seguida, os responsáveis obrigam as empresas a comprar nossa produção. Nossas garrafas aterrissam nos banquetes políticos como presente! Não é o mercado da oferta e da procura… Toda a economia funciona assim. Atacar o verdadeiro mercado dos consumidores é outra coisa.”

Essas interdependências entre empresas criam obrigações de compras mútuas, e as bebidas estrangeiras não escapam à lógica preponderante do guanxi (rede).11 As garrafas não são necessariamente bebidas e com frequência acabam nos lares sobre um móvel, como um bibelô de luxo.

A cultura do vinho é assim encorajada como uma prática social associada à restauração moral da classe política. O poder conduz campanhas na mídia exaltando as virtudes do vinho para a saúde, na esperança de limitar o consumo de bebidas alcoólicas fortes. O baiju, aguardente à base de cereais, ainda causa estragos na população masculina. Sua produção requer a utilização de terras que os dirigentes gostariam de ver liberadas para a alimentação. Reportagens audiovisuais estigmatizam certos membros do partido, bêbados durante banquetes nos quais o baijucorre a rodo. Beber junto permanece um imperativo tanto no meio político quanto no econômico para estabelecer relações de confiança. “Se você não bebe, eles o censuram por falta de respeito com seu parceiro”, conta um vendedor francês de vinho. “É preciso se fartar até a morte, partilhar uma intimidade muito intensa para concluir um contrato. As coisas estão indo bem para mim, mas meu fígado está em frangalhos…”

 

O povo prefere aguardente

“Não bebemos vinho. É muito caro. As pessoas preferem o baiju”,confessa um camponês que explora as vinhas em Hebei.A aguardente continua a ser de longe a bebida alcoólica mais consumida, apesar das vontades políticas e ainda que o vinho se torne um elemento de distinção social para os mais ricos. Os 600 milhões de homens e mulheres das classes populares ainda preferem beber essa bebida alcoólica tradicional, ou mesmo cerveja, em vez de um vinho chinês.

O vinho tem a ver com uma população urbana privilegiada e jovem, que adota novas práticas sociais num contexto relativamente inédito de mistura entre homens e mulheres. Nesse universo, os vinhos estrangeiros e mais particularmente os franceses desfrutam inegável prestígio. Os amantes do vinho não confiam na produção local. Os diversos escândalos alimentares, como o do leite adulterado, provocaram forte suspeita. O consumo de produtos estrangeiros tem a ver com uma estratégia para limitar o risco de envenenamento. Enquanto o mercado das cópias representa uma verdadeira praga, o consumo e a coleção de grandes crusfranceses constituem para os novos ricos uma forma de expressar seu poder.

Desde 2013, a política anticorrupção do novo governo teve um efeito sobre a economia do presente e materializou-se pela diminuição do ritmo de importação dos Bordeaux. E não se deve esquecer que o vinho penetrou o imaginário social e que sua produção e seu consumo lentamente se enraízam na nova realidade do país. Este ano, os chineses tornaram-se – à frente dos franceses – os primeiros consumidores de vinho tinto no mundo, com mais de 1,8 bilhão de garrafas.12

BOX

Hong Kong, a adega mais bonita do mundo

 

A cultura do vinho na China transitou largamente por Hong Kong, que se transformou em poucos anos em ponto nevrálgico do comércio vitícola mundial. Ex-governador da ilha entre 2007 e 2011, Henry Tang, colecionador de grandes crus, eliminou todas as taxas sobre esses produtos em 2008. As grandes empresas de distribuição reforçaram então sua presença, ao mesmo tempo que surgiram filiais de prestigiadas casas de leilão de vinhos de Londres e Nova York, como Acker, Merrall and Condit, Christie’s e Sotheby’s. Em 1998, os diretores da Vinexpo, que tradicionalmente acontece em Bordeaux, decidiram realizar a feira a cada dois anos em Hong Kong. Em maio, 1,3 mil expositores receberam mais de 16 mil visitantes.

Transformada na mais bela adega de garrafas raras no mundo, a antiga colônia britânica permanece sendo uma das portas para o gigantesco mercado chinês. Os chineses “continentais” encontram ali um lugar de evasão e de aprendizagem, quando de curtas excursões turísticas para se familiarizar com experiências sociais associadas à cultura globalizada. (B.P.)

 

*Boris Pétric é antropólogo do Centre National Scientifique (CNRS), na França.



Artigos Relacionados

Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Online | Brasil
por Tâmara Terso
A CRISE DA CULTURA

Lei Aldir Blanc: reflexões sobre as contradições

por Rodrigo Juste Duarte, com colaboração de pesquisadores da rede do Observatório da Cultura do Brasil
AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

Onde está o governo sem corrupção de Bolsonaro?

Online | Brasil
por Samantha Prado
CONGRESSO NACIONAL

Financiamento de campanhas por infratores ambientais na Amazônia Legal

Online | Brasil
por Adriana Erthal Abdenur e Renata Albuquerque Ribeiro
EDITORIAL

Só existe um futuro para o Brasil, e ele passa pela eleição de Lula neste domingo

Online | Brasil
por Le Monde Diplomatique Brasil
UMA ENCRUZILHADA SE APROXIMA

Os militares e a última palavra da legitimidade das urnas

Online | Brasil
por Julia Almeida Vasconcelos da Silva
ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti