VER E NÃO VER A PALESTINA

Não esquecer Gaza

Em prefácio inédito escrito para o livro Ver e não ver a Palestina, o antropólogo e professor no Collège de France Didier Fassin denuncia a cumplicidade e o silêncio do Ocidente na tentam normalização do genocídio em Gaza, celebrando a obra como um ato de resistência urgente contra o esquecimento e a barbárie. Livro das psicanalistas Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky será lançado em São Paulo nesta quarta-feira, dia 27 de maio, na Livraria Megafauna, e terá atividade na Feira do Livro de SP em 31 de maio

Após o anúncio do acordo de cessar-fogo, em 10 de outubro de 2025, o mundo apressou-se em desviar o olhar de Gaza. Livres do constrangimento de ter de permanecer em silêncio diante das destruições e dos massacres cometidos pelos israelenses durante dois anos, e aliviados por não precisarem mais justificar a indiferença e o silêncio diante do sofrimento dos palestinos, os governantes ocidentais, em sua maioria, fingiram acreditar no fim dos combates. E os grandes meios de comunicação, que por tanto tempo reproduziram sem checagem o discurso da comunicação israelense e se recusaram a dar voz aos palestinos, puderam, enfim, passar a outros assuntos da atualidade.

No entanto, bombas continuaram a ser lançadas sobre a população de Gaza, drones ainda sobrevoavam as ruínas com seu zumbido insuportável, franco-atiradores seguiram atirando contra crianças. A assistência alimentar permaneceu reduzida a uma porção irrisória, insuficiente para conter a desnutrição; as organizações humanitárias internacionais foram proibidas de acessar o território ocupado, privando a população de Gaza tanto de estruturas de atendimento médico quanto de testemunhas das atrocidades cometidas. “The genocide is not over” [O genocídio não terminou], anunciava a associação israelense de direitos humanos B’Tselem em 25 de dezembro.

Foto: Divulgação

No espaço público ocidental, porém, quase não se falava mais de Gaza, das condições terríveis dos habitantes vivendo em tendas, no frio e na chuva, expostos às infecções trazidas pelos esgotos abertos, privados de meios de subsistência, de água potável, de

alimentos, de eletricidade. Tampouco se demonstrava preocupação com a impunidade de que gozavam os criminosos no poder em Israel, apesar dos mandados de prisão internacionais que pesavam contra eles. Ao contrário, por uma inversão da ordem moral e jurídica, os magistrados encarregados de fazer valer o direito na Corte Internacional de Justiça e no Tribunal Penal Internacional tornavam-se alvo de sanções por parte do governo dos Estados Unidos. Uma forma de normalização da violência e da iniquidade estava em curso.

Nesse contexto, portanto, em que valores éticos e princípios jurídicos são pisoteados, em que os crimes israelenses são ocultados, em que as vidas palestinas são desvalorizadas, tudo deve ser feito para não esquecer Gaza. Não se trata apenas do que é devido à dignidade e à esperança de seus habitantes, mas também do que ainda pode restar de humanidade, de moral e de direito no mundo. Diante da avalanche de brutalidade e da imposição da lei do mais forte, os instrumentos pelos quais ainda é possível lutar são modestos, mas decisivos.

A escrita é um deles. Foi a ela que Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky recorreram neste pequeno livro que redigiram para que perdure uma “palavra que não renuncia”. Seus fragmentos de texto – pensamentos inquietos, inacabados, incertos – expressam essa urgência de não deixar que o esquecimento se instale sobre aquilo que provavelmente aparecerá, em um futuro indeterminado, como a ferida mais profunda da história contemporânea desde a Segunda Guerra Mundial. Não em razão do número de vítimas, por mais elevado que seja, mas em virtude da cumplicidade ocidental na realização da catástrofe.

 

Didier Fassin é antropólogo e professor no Collège de France.

 

Lançamentos em São Paulo

27/05, às 19h – Livraria Megafauna Copan

Bate-papo seguido de sessão de autógrafos. Com: Ana Gebrim, autora; Ana Minozzo, psicanalista, assina o epílogo do livro junto a Gebrim; Maria Ribeiro, socióloga e professora da USP e da PUC; Paula Carvalho, jornalista (mediação).

Endereço: Av. Ipiranga, 200

31/05, às 13h – Feira do Livro de São Paulo (Tablado Literário Bubu, Mesa 3)

Ana Gebrim, autora de Ver e não ver a Palestina: ensaio em fragmentação, e Leonardo Tarifeño, autor de Não volte: um jornalista entre os deportados mexicanos em Tijuana, lançam seus livros e conversam sobre a importância do ensaio e da crônica jornalística para narrar experiências de violência e colocar em primeiro plano histórias de vida, muitas vezes reduzidas a números, em contextos de guerra e crises humanitárias; participam também Isadora Szklo, cofundadora do Vozes Judaicas, e a jornalista Tatiana Merlino (mediação).

Endereço: Praça Charles Miller, s/n

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