2026

Narrativas que decidem antes de nós

A indústria cultural e a ausência de pensamento crítico facilitam a aceitação de discursos autoritários em períodos eleitorais. É necessário resgatar o sentimento e a arte como ferramentas essenciais para interpretar o mundo antes que as narrativas decidam por nós. A síntese entre razão e emoção é o único caminho para uma cidadania plena e consciente 

O ano é 1926. Thea von Harbou escreve Metropolis, em uma Alemanha que tenta se recompor dos escombros da Primeira Guerra, atravessada pelo imaginário das vanguardas que percorrem a Europa e suas contradições. No Brasil, nasce Milton Santos, geógrafo baiano que, décadas mais tarde, seria levado ao exílio na França por suas ideias políticas.  

Cem anos depois, o romance de Thea retorna em uma edição especial. Milton já não está entre nós, mas suas reflexões sobre território e globalização parecem que foram feitas na última semana. Ainda este ano, o calendário eleitoral brasileiro se aproxima, trazendo consigo um amontoado de imagens, promessas, inimigos, salvadores e futuros possíveis (?). A cidade de Metropolis parece tão próxima quanto as ideias de Milton.  

Na busca por uma serenidade diante da complexidade e outras contradições atuais é preciso analisar as narrativas antes de sermos interpretadas por elas. 

Crédito: Arquivos da cidade de Saint-Dié-des-Vosges/Wikimedia Commons

O filme homônimo ao livro Metrópolis, dirigido por Fritz Lang, transformou-se em um marco do expressionismo alemão. Filmado em 1927, sem som, preto e branco, com trilha sonora própria, tornou-se mais conhecido do que o romance. Talvez porque imagens circulem com mais facilidade entre as massas há séculos. Contudo, em sua escrita, o romance permite acompanhar detalhes que o cinema simplifica: símbolos, ambiguidades, percepção das cores e emoções atravessam a escrita detalhada de Thea, que escreveu o romance como um roteiro para o filme do marido. 

O livro é considerado uma distopia e não propriamente uma obra de ficção científica. O que faz sentido, pois sua estrutura tem profundidade religiosa. Desde as primeiras páginas, a Virgem Maria, o pecado, a culpa, a estrela de Salomão e a redenção permeiam a narrativa. São muitos símbolos e ambiguidades ao longo de 200 páginas. Esses elementos não aparecem de forma dispersa, não foram colocados por lapso, eles organizam a história e conduzem para uma conclusão específica: a união entre pai e filho. O conflito entre capital e trabalho, evidenciado nos uniformes dos trabalhadores e nas suas caminhadas em manada para os elevadores paternostre, deixa de ser apenas econômico ou social para ser traduzido em linguagem moral, na qual culpa, arrependimento e salvação orientam a compreensão do mundo. 

Não por acaso, a transformação de Joh Fredersen, pai do personagem principal, aproxima-se mais de uma conversão do que de uma mudança política. Sua reconciliação não decorre da reorganização das estruturas de poder, mas do reconhecimento de sua própria condição humana, quando a emoção de ter o filho por perto o faz mudar e tentar amá-lo. A carta de Hel, sua falecida esposa, surge nesse momento, reforçando a ideia – presente na tradição judaico-cristã – de que o arrependimento precede a redenção. Maria, consorte do filho e responsável por uma “revolução” mal-sucedida, torna-se a mediadora entre pai e filho, conduzindo a narrativa para uma solução moral muito mais do que política. 

“O mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o coração”. É a frase que costura a narrativa. Em chinês e vietnamita, os termos que designam mente e coração compartilham o mesmo campo semântico, um tanto diferente do pensamento ocidentalizado. Em tradições budistas, das quais essas línguas fazem parte, observar a própria mente antes de agir é parte do caminho de atenção. E onde está o tempo que precisamos para observar antes de decidir, diante de tantas imagens produzidas por IA, fake news e manifestações nas redes sociais durante as campanhas eleitorais? O carrossel é de notícias, repetindo as manchetes com um (quase) mantra. 

Entre o cérebro e as mãos ainda existe um coração, mas parece faltar tempo para escutá-lo. 

A autora que se filiou ao Partido Nazista 

A obra de Thea segue atual ao apresentar desigualdade, exploração do trabalho, prostituição, tecnologia, religião, poder e dominação sem estabelecer relações causais explícitas entre esses elementos. Oferece imagens, símbolos e lacunas para serem preenchidos pelas crenças e experiências de quem lê. Essas ausências não são falhas, são espaços para que cada um as preencha com suas próprias intenções. Ou com o próprio “coração”. Fazendo o leitor sentir-se parte da história, se identificando com ela. 

A obra também suscita uma questão delicada: é possível separar a artista da pessoa? Thea se filiou ao Partido Nazista e trabalhou para o Terceiro Reich na produção cinematográfica. O fato não deve ser ignorado, mas tampouco deve reduzir a obra a uma única interpretação política. Talvez seja essa contradição entre a autora, sua trajetória e sua obra que nos obrigue a olhar com mais cautela para as narrativas e imagens que consumimos, e para aquilo que elas podem naturalizar, mesmo quando parecem nos alertar sobre os perigos do futuro. 

A Escola de Frankfurt se destaca pelo desenvolvimento de estudos sobre o avanço do autoritarismo na Europa e oferece outra chave de leitura: a indústria cultural tende a produzir mais conformidade do que estranhamento. As narrativas não apenas refletem o mundo, mas participam e moldam a maneira como o percebemos. Tal linha de pensamento tinha como objetivo entender porque sociedades modernizadas, repletas de ciência e tecnologia ainda poderiam produzir dominação. Sua primeira geração nasceu logo após a primeira guerra (em 1923) e tantos questionamentos não foram capazes de evitar a ascensão do fascismo e do preconceito entre povos. Talvez essa tensão ajude a explicar a permanência de Metropolis e a força de seu centenário: já que a obra não entrega respostas prontas; oferece imagens que cada época pode preencher com suas próprias inquietações e conflitos. Um século depois, continuamos olhando para a mesma cidade e reconhecendo nela coisas assustadoramente familiares. Talvez a pergunta não seja apenas o que mudou em cem anos, mas o que aprendemos a naturalizar. 

A ciência explica. As narrativas convencem. 

A ciência opera por outro caminho. Em vez de oferecer respostas prontas, constrói explicações que podem ser revistas diante de novas evidências. Seu compromisso não é eliminar a dúvida, mas produzir conhecimento para reduzir incertezas. Talvez por isso a linguagem científica seja, algumas vezes, menos sedutora do que as grandes narrativas religiosas, políticas e ideológicas, ela exige tempo, interpretação e disposição para rever o que se acreditava saber. 

É nesse ponto que Milton Santos se torna especialmente atual e necessário. Geógrafo baiano, laureado com o Prêmio Vautrin Lud, Milton se intitulava um intelectual e interessado pelas relações que ocorrem no território. Enquanto presidente da Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia, participou do debate sobre reformas econômicas e sociais e suas posições eram consideradas “subversivas” pelo regime, pois dentre elas estava a defesa de medidas de progressividade tributária como a cobrança de impostos de grandes patrimônios e heranças. Com o golpe de 1964, foi preso. Após sofrer um início de AVC, foi levado ao hospital e, então liberado, permanecendo por alguns meses em prisão domiciliar. No final daquele ano, com a mobilização de colegas e do consulado francês, deixou o Brasil e iniciou seu exílio na França, país onde havia realizado seu doutorado em Geografia pela Universidade de Estrasburgo. A França não era um território desconhecido: era também um espaço de interlocução intelectual que Milton já havia construído antes do exílio. Ali, lecionou em Toulouse, Bordeaux e Paris e ampliou o escopo de suas pesquisas, passando a se dedicar também a questões mais gerais sobre as cidades, o desenvolvimento e os países do chamado Terceiro Mundo naquele momento. 

Pode parecer paradoxal, Milton precisou deixar um território para compreendê-lo. O deslocamento produziu distância, e a distância, perspectiva. Para ele, o espaço não é apenas uma localização geográfica, mas um conjunto indissociável de objetos e ações, onde técnica, economia, política e relações humanas ganham forma concreta. O território é parte ativa das possibilidades e das limitações de desenvolvimento de uma sociedade. 

Enquanto Metropolis imagina uma cidade organizada verticalmente, entre o cérebro que pensa acima e as mãos que trabalham abaixo, Milton desloca o olhar para o território vivido e horizontal. O espaço deixa de ser cenário. É nele que as pessoas constroem vínculos, atribuem sentidos, experimentam o mundo e tomam decisões (racionais ou emocionais). Se em Metropolis o coração deveria mediar cérebro e mãos, a proposta de Milton é que razão e emoção não sejam consideradas dimensões opostas, mas como partes da experiência humana que se realiza no espaço.  

Outro fato que chama atenção na estória de Thea é que não há arte em Metropolis. Tecnologia, religião e poder estruturam a narrativa, mas a arte permanece à margem. A arte é a linguagem capaz de expressar o que escapa à racionalidade humana conectando experiência, percepção e emoção. Quando a arte deixa de ocupar o espaço público, diminui nossa capacidade de imaginar outras formas de existência. Ao longo da história, diferentes projetos de poder, autoritários ou exclusivamente orientados pela lógica do mercado, compreenderam muito bem esse potencial. 

Queimar livros e retirar o fomento à cultura são exemplos de como esse espaço de imaginação pode ser restringido. Um povo que não sente e não imagina fica mais vulnerável às narrativas que pretendem conduzi-lo e convencê-lo. 

É aqui que Metropolis volta ao Brasil e que Milton se faz presente. Em 2026, cem anos depois, a obra faz pensar menos na Alemanha e em Thea se filiando ao partido nazista e mais nas eleições brasileiras e seus embasamentos religiosos, num Estado que deveria ser laico. Continuamos disputando poder, território e democracia. A cidadania ainda está em construção como apontou Milton. Apesar dos avanços tecnológicos e do clamor pela IA, é preciso lembrar que nenhuma sociedade é construída exclusivamente por máquinas ou mercados, mas também pelo tempo que consegue reservar para interpretar, sentir e escolher as histórias que contará sobre si mesma. 

“O mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o seu coração” 

 

Sylvia Maria Affonso é bióloga Ambiental, pesquisadora em Inovação Social e Ética e comunicadora em arte e ciência. 

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