Nasce uma museologia política ativa
Em 2026, o ciclo eleitoral se apresenta como uma oportunidade estratégica para recolocar o museu e suas necessidades no centro do debate político, sobretudo no que diz respeito ao fortalecimento do corpo técnico dessas instituições
O campo da Museologia no Brasil constitui uma experiência singular. Diferentemente de outros contextos nacionais, sua formação epistemológica não se deu de maneira linear. Ao mesmo tempo em que absorveu influências dos centros acadêmicos franceses e anglo-saxões, incorporou também contribuições de pesquisadores oriundos do leste europeu e da tradição russa, marcadas pela vivência do contexto soviético e da Guerra Fria. Essa confluência produziu um campo plural, heterogêneo e em permanente expansão, que hoje se destaca pela interlocução com perspectivas críticas, especialmente aquelas vinculadas ao pensamento decolonial.
Entretanto, essa riqueza teórica e histórica raramente se traduz de forma consistente na prática museal cotidiana. O principal desafio não reside na produção de conhecimento, mas no ambiente político-institucional brasileiro. A maioria dos museus do país está vinculada a estruturas estatais – municipais, estaduais ou federais –, o que submete a gestão museológica às dinâmicas próprias da administração pública. Paradoxalmente, embora o campo seja composto por profissionais altamente qualificados, com formação específica e, muitas vezes, titulação em nível de mestrado e doutorado, esses quadros não são plenamente absorvidos pelas instituições.
O que se observa, com frequência, é a ocupação de cargos estratégicos por agentes externos à formação museológica, escolhidos menos por critérios técnicos e mais por arranjos políticos e coalizões governamentais. Esse processo compromete a qualidade das políticas museais entregues à sociedade e revela um descompasso estrutural entre o conhecimento acumulado no campo e sua efetiva aplicação institucional.

Salvaguardar a memória, função central das instituições museais, exige expertise especializada. Embora o público frequentemente perceba o museu apenas como espaço de visitação, os bastidores envolvem atividades complexas de documentação, pesquisa, conservação, catalogação e monitoramento. Trata-se de um trabalho contínuo, orientado a minimizar os efeitos do tempo e das intempéries, com o objetivo de garantir que as gerações futuras possam acessar objetos e narrativas constitutivos de sua própria existência histórica e simbólica.
Em 2023, a nomeação de Fernanda Castro – museóloga de formação – para a presidência do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) foi amplamente bem recebida pela comunidade museal, especialmente após o período de enfraquecimento das políticas culturais durante o governo Bolsonaro. Contudo, a expectativa gerada não foi acompanhada por uma atuação institucional à altura dos desafios estruturais do setor. O descompasso entre o tempo político e a complexidade das relações entre Executivo e Legislativo, bem como entre União, estados e municípios, limitou a capacidade do IBRAM de se afirmar como ator efetivamente central na formulação e coordenação das políticas museais.
A ocupação de postos-chave por profissionais da museologia, embora necessária, não é suficiente por si só. É fundamental que esse conhecimento técnico e teórico seja traduzido em capacidade de ação política concreta: compreender os mecanismos de licitação, dominar a lógica orçamentária, captar recursos, conhecer a legislação local e operar dentro dos limites impostos pela burocracia estatal. Sem essa mediação, a expertise permanece confinada ao plano discursivo.
Em 2026, o ciclo eleitoral se apresenta como uma oportunidade estratégica para recolocar o museu e suas necessidades no centro do debate político, sobretudo no que diz respeito ao fortalecimento do corpo técnico dessas instituições. Apesar dos esforços e da disposição pública manifestados pela ministra Margareth Menezes e pela presidente do IBRAM, Fernanda Castro, o campo museal ainda opera aquém do que seria minimamente satisfatório para responder às demandas acumuladas ao longo de anos de desestruturação institucional. O contexto político já não é mais o de 2023, marcado pela reconstrução inicial das políticas culturais, e o governo deveria, neste momento, apresentar resultados mais ousados, estruturantes e duradouros. Sem a consolidação de quadros técnicos qualificados, capazes de transformar diretrizes em ação concreta, a política museal corre o risco de permanecer no plano da intenção, distante da capacidade real de produzir impacto público e assegurar a preservação da memória coletiva.
João Polaro é pesquisador em políticas para o patrimônio cultural e museus. Mestre em Ciência Política pela UFPA, bacharel em Museologia e Relações Internacionais, dedica-se a investigar a relação entre Estado, sociedade e patrimônio cultural no Brasil.
Referências:
GREGOROVÁ, Anna. Towards a definition of museology. ICOFOM Study Series (ISS), n. 1, 1980.

