Nem amigos nem inimigos. Só interesses - Le Monde Diplomatique

IRÃ / AMÉRICA LATINA

Nem amigos nem inimigos. Só interesses

por Nikolas Kozloff
1 de dezembro de 2010
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As relações que se estreitam entre Teerã e vários países da América Latina são parte de alianças circustanciais que fazem sentido no plano geopolítico, mas carregam grandes contradições e diferenças culturais que poderiam colocá-las em perigoNikolas Kozloff

Em dezembro de 2009, o instituto de pesquisas Latin Business Chronicle chamava a atenção para um fenômeno que havia passado despercebido pela maior parte da mídia. De 2007 a 2008, o comércio entre Teerã e a América Latina havia triplicado, atingindo US$ 2,9 bilhões: uma soma considerável se comparada aos fluxos comerciais praticamente inexistentes antes da chegada de Mahmoud Ahmadinejad ao poder, em 3 de agosto de 2005.

Em 2004, o comércio bilateral entre o Irã e a Venezuela mal passava de US$ 1 milhão; dois anos mais tarde, ele beirava os US$ 51 milhões. E no momento em que o comércio entre os países registrou uma queda de 33,8% em 2009, em função da crise internacional, Caracas e Teerã fizeram um acordo no sentido de criar um banco comum de desenvolvimento e assinar cerca de 70 novos acordos de cooperação (de um total de 300). Afinal, os dois países já haviam unido esforços no seio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para reavaliar a alta dos custos do petróleo, cuja exploração financia seus respectivos programas sociais. Símbolo da aproximação dos dois países: voos semanais garantem, desde 2007, a ligação entre as duas capitais.

Tendo como ponta de lança a Venezuela, a penetração iraniana na América Latina se intensificou. Entre 2007 e 2008, o Equador passou à terceira posição entre os parceiros comerciais iranianos na região (atrás do Brasil e da Argentina). Enquanto as importações equatorianas passaram de US$ 0,01 milhão a US$ 168,2 milhões, em 2008, Quito se tornava o primeiro mercado para produtos iranianos na América Latina.1E o Irã não se contentava em vender: o país prometeu investir abundantemente, em especial nos setores de energia hidrelétrica e da petroquímica. Entusiasmado, em sua visita a Teerã em 2008, o presidente equatoriano Rafael Correa assinou mais de 25 acordos bilaterais capazes de aproximar ainda mais as duas economias. Na América Central, com o anúncio de US$ 1 bilhão de investimentos, o Irã vai construir o porto em águas profundas que falta à Nicarágua, ao mesmo tempo que empresta ao país os fundos necessários à edificação de um local de produção de energia hidrelétrica. Na Bolívia, Teerã propõe auxiliar a otimização da exploração de gás natural. Dessa forma, poderá participar das pesquisas preliminares relativas aos vastos recursos de lítio2do país andino.

Mas, por hora, 94% do intercâmbio entre o Irã e a América Latina – US$ 2,4 bilhões, no total, em 2009 – passam pela Argentina e pelo Brasil.3 Este último, um dos únicos cujo comércio com Teerã continuou a crescer em 2009, atingindo US$ 1,297 bilhão. Ainda é muito pouco: por ocasião da visita do presidente iraniano a Brasília, Ahmadinejad e Lula se comprometeram a fazer o comércio bilateral atingir a meta de US$ 10 bilhões até 2014.

 

Relação com Estados unidos

Desnecessário dizer que em Washington essa atividade toda preocupa. Em 11 de dezembro de 2009, a secretária de Estado americana, Hilary Clinton, advertia que toda aproximação com o Irã era “uma péssima ideia”, já que Teerã “apoia, promove e exporta o terrorismo”. Hilary notificou seus anônimos interlocutores: “Quem quiser flertar com o Irã deve pesar as consequências. Os Estados Unidos esperam que tais pessoas pensem duas vezes”. Quanto a Ahmadinejad, ele se limita a ver nessa aproximação as consequências de uma sadia fraternidade: “Com os amigos, nossas relações não têm qualquer limite”, resumia ele em 24 de setembro de 2009.

Mas mesmo que se trate de “amizade”, ela é daquelas de cuja natureza profunda fala um velho ditado: “Os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”. Que cada um julgue por si. Em 2002, Chávez sofreu um golpe de Estado que contava com o respaldo de Washington. Em 2009, Correa irritou a Casa Branca ao decidir não renovar a concessão da base militar americana de Manta (em solo equatoriano). Em 5 de agosto de 2010, o presidente boliviano considerava que os Estados Unidos “procuram pretextos como o terrorismo e o narcotráfico” para intervir na América Latina. E acrescentava: “O objetivo central dessa intromissão consiste em se apoderar de nossos recursos naturais”4. A política dos governos da esquerda latino-americanos, visando reduzir a influência das multinacionais (não hesitando em expulsá-las) e defender a soberania nacional em se tratando de recursos naturais, irrita. Por seu lado, Teerã não ignora que os Estados Unidos dispõem de um plano de ataque contra o Irã5, que detém as terceiras maiores reservas conhecidas de petróleo do mundo.

Os estadunidenses reativaram a 4a frota que navega ao longo da costa atlântica da América Latina, onde eles também dispõem de múltiplas bases militares. Bases que também estão nas fronteiras do Irã. Sabendo disso, Caracas decidiu estender seus programas de cooperação militar com Teerã, especialmente na formação de pessoal e na produção de munições. Em abril de 2009, o ministro da Defesa iraniano, Mustafa Mohammed-Najjar, se comprometeu a “oferecer todo o seu apoio ao desenvolvimento das capacidades militares venezuelanas, no quadro de acordos de defesa mútua”6.

A solidariedade “anti-imperialista” não se limita ao terreno militar. Ela consiste ainda em denunciar, entre seus aliados, as “manobras” que cada um teme. Por exemplo, as tentativas de desestabilização por ocasião dos escrutínios eleitorais considerados “contestados”. Essa é provavelmente a lógica que levou o Brasil, a Nicarágua, o Equador, a Bolívia e a Venezuela – países nos quais os observadores internacionais sempre reconheceram a transparência dos escrutínios – a dar seu apoio incondicional a Ahmadinejad quando da eleição presidencial de junho de 2009, fortemente criticada pelos Estados Unidos.

Lula temperou os ardores “anti-imperialistas” de seus correligionários. Foi assim que se gabou de se entender bem tanto com George W. Bush quanto com Hugo Chávez. Mas é evidentemente inegável que os Estados Unidos perderam seu papel de principal parceiro comercial do Brasil para a China. Forte, com um robusto crescimento, o Brasil procura ter uma voz no concerto das nações ao romper com a lógica própria do circuito dito “Elizabeth Arden” da tradicional diplomacia brasileira, que só se interessava por Roma, Paris, Londres e Washington. Lula buscou o apoio dos países do Sul para obter o reconhecimento internacional (e um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas). O que passava, obrigatoriamente, pela demonstração de capacidade de o país enfrentar o Norte.

Foi o que aconteceu em maio de 2010, quando Lula propôs uma alternativa às sanções das Nações Unidas contra o Irã: um acordo de troca de combustível. Na época, o chefe da Organização de Energia Atômica iraniana, Ali Akbar Salehi, também vice-presidente do país, estimava que, pela primeira vez, os países ocidentais eram obrigados a admitir que “os países emergentes podem defender seus direitos na cena internacional sem precisar das grandes potências”, antes de concluir: “Para elas, isso é duro de ser aceito”7. É bem verdade que a operação terminou numa derrota, já que o Brasil acabou finalmente ratificando as sanções decididas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas contra o Irã, em 10 de agosto de 2010. Segundo seus defensores, nem por isso deixava de ficar aberta a perspectiva de uma diplomacia internacional menos dominada por Washington.

Alguns, como o candidato à presidência iraniana, Mir-Hossein Mussavi, estranham “que em vez de investir nos países vizinhos do Irã, o governo tenha gasto seu tempo derramando dinheiro em países da América Latina”8. Eles talvez ignorem que os investimentos do Irã na América Latina permitem que ele sustente sua própria economia, sobretudo os setores industriais desenvolvidos de modo autônomo, isso apesar das sanções econômicas sofridas por Teerã: aviação, exploração de petróleo e gás, produção de automóveis…  O diretor da Sociedade Comercial de Petroquímica do Irã, Reza Hamzehlu, se alegrava, em 18 de outubro de 2010, por ter encontrado dois novos clientes potenciais: o Brasil e a Argentina.9

 

Paradoxos

Em 25 de novembro de 2009, por ocasião de uma visita de Ahmadinejad a Caracas, representantes da oposição, reunida na sede da Coordenação da União Democrática (MUD), organizaram uma manifestação: “Nós exigimos respeito por todos os seres humanos, pelas mulheres iranianas e venezuelanas, assim como por toda a humanidade”, não se cansavam de dizer em coro, acrescentando ainda: “Aqui, nós acreditamos na democracia e na igualdade de direitos entre homens e mulheres”10. Paradoxo? Na Venezuela, jamais foram feitos tantos progressos nessa esfera quanto os realizados desde a subida de Hugo Chávez ao poder. A Constituição de 1999 reconhece pela primeira vez o trabalho das mulheres no lar, para o qual previa uma remuneração. O texto denuncia a discriminação e o assédio sexual, garantindo a igualdade homem-mulher nos locais de trabalho. Além disso, um projeto de lei é atualmente discutido, autorizando a interrupção da gravidez nas 12 primeiras semanas de gestação – uma medida que a administração Chávez ainda não conseguiu aprovar.

No Brasil, importantes progressos foram registrados na esfera do direito das mulheres, nos últimos anos, apesar de a campanha para a eleição presidencial ter demonstrado que a sociedade e a classe política brasileiras continuam amplamente opostas ao direito da mulher ao aborto. Desde 2004, uma lei obriga os partidos políticos a apresentar 30% de mulheres candidatas às votações. Além disso, a lei brasileira não faz distinção entre homens e mulheres; não é esse em absoluto o caso no Irã, que contrariamente à América Latina parece retroceder nesse terreno.

Teerã defende a permissão de os homens se unirem a várias esposas sem, no entanto, prever essa mesma opção para as mulheres. A chamada polícia da moralidade do regime iraniano prende e infringe maus tratos a jovens iranianas que não cometeram outro crime a não ser o de passear em público com o namorado. Quando centenas de pessoas se reuniram para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o Date, agentes da polícia – usando ou não uniforme – reprimiram a multidão a golpes de cassetete.

Contrariamente ao estereótipo segundo o qual a América Latina continua culturalmente impregnada de machismo e homofobia, o continente fez importantes progressos nesse domínio. Apesar de os homossexuais ainda sofrerem discriminação no Brasil, o país figura entre os mais tolerantes da América Latina. São Paulo organiza a parada gay mais importante do mundo, que atrai milhões de participantes todos os anos. Alguns Estados autorizam casamentos homossexuais, defendidos tanto pela presidente eleita, Dilma Rousseff, quanto por seu principal oponente na eleição presidencial de outubro de 2010, José Serra. Em 2008, o Uruguai e em seguida o Equador autorizaram a união civil entre homossexuais.

Mesmo Cuba – onde até recentemente não era raro que homossexuais fossem detidos, presos, ou vítimas de diversas discriminações –, avança pouco a pouco. Mariela Castro, a filha do presidente Raúl Castro que dirige o Centro Nacional de Educação Sexual, defende que “a identidade e a orientação sexuais são um direito humano”11 e pede o apoio do pai. Mas ela foi obrigada a desistir de sua promessa de conseguir a legalização das uniões homossexuais, pela oposição tanto da Igreja Católica quanto de uma parte do governo.

Em julho de 2010, a Argentina se tornava o primeiro país latino-americano a autorizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Frente à oposição da Igreja Católica, a presidente Cristina Kirchner não hesitou em classificar as críticas como sendo “da época da Inquisição”12. Por seu lado, no Irã, Ahmadinejad declarou que “a homossexualidade vai contra a natureza humana”.

Se do ponto de vista boliviano a aliança com o Irã surpreende, também é porque Morales, que reivindica suas origens aymara, sempre defendeu o direito das minorias em seu país, diferentemente de Ahmadinejad. Este último favoreceu a repressão política das minorias étnicas das províncias periféricas do país, acusadas de desestabilizá-lo. No Irã, curdos, árabes, turcomanos, azeris, balúchis e outras minorias não persas formam cerca de metade da população. Algumas, como a minoria balúchi, são vítimas de uma expectativa de vida e de um percentual de alfabetização bem inferiores à média.

No âmbito do direito dos trabalhadores, aparece uma contradição da mesma ordem. Na América Latina, os governos de esquerda trabalharam – em diversos níveis – pela melhoria das condições de trabalho e pelo reconhecimento dos direitos dos assalariados. Lula e Evo Morales são oriundos de organizações sindicais progressistas. No Irã, o governo mantém uma relação conflituosa com os movimentos sociais e os sindicatos. Assim, quando os motoristas de ônibus de Teerã entraram em greve para denunciar as condições de trabalho, as forças de segurança iranianas detiveram um bom número deles, provocando protestos de trabalhadores brasileiros na frente da Câmara de Comércio Irano-brasileira, em 23 de março de 2009.

Lógica, no plano geopolítico, “a aliança” de circunstâncias entre o Irã e a América Latina é atravessada de contradições políticas. Uma América que tenta jogar luz sobre as ações das ditaduras dos anos 1960 a 1980 vê com maus olhos a maneira como o Irã trata a oposição: após a contestação do resultado da votação de 2009, por exemplo, milhares de manifestantes foram jogados na prisão. Em Teerã, é comum que reuniões públicas pacifistas, de dissidentes ou de mulheres, sejam violentamente reprimidas.

Do mesmo modo, as declarações de Ahmadinejad sobre o holocausto exasperam o outro lado do Atlântico. Em 22 de novembro de 2009, quando o presidente iraniano veio ao Brasil em visita oficial, militantes homossexuais, representantes da comunidade judaica e sobreviventes da deportação se reuniram para protestar, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Pior ainda: os comentários do dirigente iraniano deram munição à oposição venezuelana, autorizando a interpretação, ao apertar a mão de Ahmadinejad, que Hugo Chávez era “ele também” antissemita.

Todavia, ninguém questiona quando Barack Obama aperta a mão do presidente Lula, qualificado por ele como “o político mais popular do mundo”13, e demonstra que apoia a política brasileira de proibição do aborto.

Não seria ingenuidade se surpreender com o fato de governos de esquerda considerarem necessário se aproximar de países cujos dirigentes não compartilham sua visão de mundo? Nesse domínio, entretanto, o pragmatismo sempre imperou. Quer se tratasse de ligações entre a ex-União Soviética e os países árabes, que matavam comunistas, ou daquelas que uniram a China de Mao ao Chile de Pinochet, ou ainda da aliança que continua associando os Estados Unidos à Arábia Saudita.

A frase de lorde Palmerston, primeiro-ministro da rainha Vitória (de 1855 a 1858, e de 1859 a1865) se aplica provavelmente a poucas esferas como se aplica à política externa: “Eu não tenho amigos, eu não tenho inimigos, eu só tenho interesses”.

Nikolas Kozloff é jornalista.



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