No Brasil, sons são música! - Le Monde Diplomatique

MÚSICA ELETROACÚSTICA

No Brasil, sons são música!

por NME
7 de julho de 2014
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Imagine que você é convidado para um concerto. Entra na sala do espetáculo, senta e pensa: onde estão os instrumentos? E os músicos? Vê somente uma mesa, um computador e cabos. As luzes se apagam e o concerto começa. Então você percebe que os sons vêm de todos os lados (de caixas de som!)NME

 

A música eletroacústica nasceu como uma experiência sonora filha do cruzamento entre a musique concrète francesa e a elektronische musik alemã. Se o pós-guerra europeu ainda continha rusgas entre Aliados e Eixo, na música eletroacústica não era muito diferente: os alemães trabalhavam com seus geradores de tom como se eles fossem ultrainstrumentistas: os aparelhos poderiam superar a precisão humana e dar novas possibilidades aos compositores. Já os franceses se interessavam pelo suporte: as fitas magnéticas cortadas e difundidas no espaço por caixas de som dispostas no escuro criavam novos significados para os sons, distanciando-os de seus significados originais.

Hoje em dia, a música eletroacústica é uma forma de expressão musical amplamente difundida no mundo. Compositores, dos mais experientes aos mais novos, têm trabalhado em programas de edição, gravando, cortando e transformando sons das mais diferentes origens. Ou ainda, têm estado nos palcos empunhando seus controladores e sensores, manipulando os sons em tempo real.

Se ainda em 2014 a eletroacústica e seus derivados experimentalismos podem soar esquisitos, é porque se segue separando em janelas opostas “som” e “música”. Recorrendo à sua memória auditiva: compare o caminhar matinal em um parque com um fim de tarde em frente a uma construção; a ambiência de um bar lotado à de um vazio; o som vindo da janela de casa durante uma tempestade ao do som de um dia de sol, seco e sem vento. Tais experiências evocam formas e estados de espírito, associados e materializados nos elementos sonoros que nos cercam, como a escuta musical.

Como paisagem sonora, os sons estão presentes por toda parte, numa comunicação incessante entre homem e ambiente, oferecendo a primeira experiência eletroacústica que vivenciamos, mesmo sem termos consciência disso. Você pode se perguntar: onde está o computador? Mas seu cérebro está realizando uma série de modificações entre as diferentes pressões das ondas que chegam aos seus ouvidos, até se transformarem em impulsos elétricos, ou “no som” que você “escuta”.

 

Som em movimento

Um concerto de música eletroacústica muitas vezes assume o formato acusmático, ou seja, não há apresentação de música da maneira tradicional, com músicos espalhados pelo palco, empunhando seus instrumentos. Voltando à origem da palavra, em grego akousma significa percepção auditiva (ou “som imaginário, do qual se desconhece a causa”), e tal como alguns discípulos de Pitágoras, que aprendiam as lições de seu mestre sem vê-lo, escondido atrás de uma cortina de linho, a música acusmática é apresentada somente por um sistema de som disposto, muitas vezes, ao redor do público, envolvendo-o e oferecendo-lhe suas dimensões poéticas.

Em tempo, se você ainda sente falta do intérprete, existem os concertos mistos, que contam com instrumentistas e cantores gerando sons ao vivo, capturados por microfones e manipulados em tempo real por outros intérpretes por meio de computadores, modificando as características originais desses sons.

 

Som e desconforto

Apesar de sua longa trajetória histórica, existe ainda hoje uma sensação de desconforto quanto à música eletroacústica, e esse desconforto é compartilhado tanto por quem é como por quem não é músico. Essa música parece: 1) pretender novidade; 2) pretender falta de respeito com a história; 3) pretender muito e alcançar pouco.

O primeiro ponto é referente à ideia de que se vai ao concerto de música eletroacústica para ver algo novo, talvez como se vá a uma loja comprar algo que não se tem, e aí reside o problema. Deve-se pensar uma música eletroacústica que não pretenda o novo, mas sim o musical, buscando a participação na vida das pessoas, que poderão alimentar-se dela e alimentá-la igualmente.

O segundo refere-se à impressão de que se ignora o que já existe, ignora-se o que já houve em música e na música, e faz-se uma música – agora ao contrário do primeiro ponto – antiga e anacrônica por não se perceber ela mesma no mundo, por não se colocar ela mesma em 2014, onde já está – mundo de DJs, mundo onde muitos têm computador em casa e são, portanto, compositores em potencial, mundo onde a tecnologia empregada na música eletroacústica não é, em si, nada demais. E isso também se resolve com a colocação dessa música na vida cultural, ampla e geral. Esse geral não é necessariamente maciço: não é porque arrumamos muito bem a nossa loja que todos desejarão entrar. E não desejarão mesmo, apesar de poderem.

O terceiro ponto é o da pretensão ela mesma. Podemos (ouvintes, compositores, comentadores, detratores) tê-la em menor quantidade, e para isso precisamos – de novo e de novo – ter uma vida na música eletroacústica. Acontecer mais para pretender menos.

 

Respirando novos ares…

O trabalho do compositor eletroacústico sempre esteve atrelado aos grandes centros de estudo e desenvolvimento tecnológico em música, mas, tal como ocorreu no mundo da música de cunho comercial, os compositores ligados ao experimentalismo passaram cada vez mais a contar com home studios de toda espécie.

É claro que grande parte do ensino, da tradição e do mundo da eletroacústica ainda está vinculada às instituições de pesquisa, e todas as grandes universidades brasileiras têm centros de estudo em eletroacústica e computação aplicada à música. Mas igualmente elementar é que o mundo da música possa seguir seus rumos e seu dia a dia, a despeito das estantes universitárias: é preciso encontrar pessoas que estão fora do mundo acadêmico e respirar outros ares.

 

Sons em revista

Herdeira dessa forma de pensar, a linda (http://linda.nmelindo.com) é uma publicação quevem se propondo a tratar da cultura eletroacústica e experimental dando subsídios para que um novo público encare essa tal “música estranha” com outros ouvidos.

Realizada por músicos, escritores, jornalistas e comunicadores, a revista acaba de ganhar, no mês de maio,umaedição bilíngue, a linda-i.

“Publicar em inglês possibilita que não apenas a revista, mas também parte da cultura contemporânea brasileira esteja à disposição de muitas outras pessoas. Coloca em perspectiva aquilo que temos feito no Brasil”, aponta Tiago de Mello, diretor executivo da linda e do NME.

Por fim, fica o convite a todos os leitores do Le Monde Diplomatique Brasil para participarem de uma apresentação de música eletroacústica e tirarem suas próprias conclusões a respeito. E então, se um amigo o convidasse, você viria a um concerto?

 

NME é um grupo ligado ao universo eletroacústico que vem, ao longo dos três últimos anos, promovendo apresentações, concertos e instalações sonoras, bem como o intercâmbio nacional e internacional de grupos e compositores, apresentando e ampliando o debate dessa cultura de uma forma inédita no Brasil. Para quem quiser conhecer melhor o grupo, escutar música eletroacústica e ver alguns vídeos, é só acessar: http://nmelindo.bandcamp.com e http://youtube.com/nmeclipes. Ou no Facebook: www.facebook.com/nmelindo. Colaboraram na elaboração deste artigo: Bruno Fabbrini, Ivan Chiarelli, Natália Keri, Sérgio Abdalla e Tiago de Mello.



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