No rescaldo da Primavera Árabe - Le Monde Diplomatique

ISLÂMICOS NO PODER

No rescaldo da Primavera Árabe

por Alain Gresh
5 de novembro de 2012
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Uma poderosa onda islamita composta por uma aliança entre a Irmandade Muçulmana, salafistas e os emires do Golfo parece varrer o mundo árabe. Olhando de perto, porém, o Alcorão já não serve mais como a única bússola que permitiria navegar na paisagem política regionalAlain Gresh

A Irmandade Muçulmana? “Um pequeno grupo que se desviou do caminho correto.” A revolução no Egito? “Ela não teria sido possível sem o apoio do Irã e é o prelúdio de novos acordos Sykes-Picot.”1 A eleição de Mohamed Morsi? “Uma escolha infeliz.” Como muitos funcionários no mundo árabe, o chefe de polícia de Dubai, o general Dahi Khalfan al-Tamim, também se comunica pelo Twitter: “Se os membros da Irmandade Muçulmana tentarem colocar em risco a segurança do Golfo, o sangue que há de correr vai afogá-los”.

Durante todo o verão [do Hemisfério Norte] de 2012, o “policial-mor” de Dubai intensificou os ataques contra a confraria, chamando-a de “organização pecaminosa cujo fim está próximo”,2 defendendo o congelamento de seus ativos e de seus financiamentos. Juntando o gesto ao anátema, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos – de que faz parte Dubai – mandaram a julgamento sessenta membros da Irmandade perante a justiça sob a acusação de conspirar contra o regime.

O jornal Asharq Alawsat é de propriedade da família do príncipe herdeiro saudita Salman. Apesar da reputação desse diário pan-árabe no Ocidente, seu grau de autonomia em relação à política saudita está próximo de zero.3 No dia seguinte à posse de Morsi, em 30 de junho de 2012, seu redator-chefe, Abdul Rahman al-Rashed, fazia parte de suas interrogações – ou melhor, das da família Al-Saud.4 O novo chefe do Estado egípcio iria combater o terrorismo e se oporia realmente à Al-Qaeda? Assumiria o papel de mediador desempenhado pelo ex-presidente Hosni Mubarak sobre a questão palestina? Sustentaria realmente a oposição síria, ao mesmo tempo que se oporia a qualquer intervenção militar estrangeira? Apoiaria o rei Abdullah II contra o protesto liderado pelo braço jordaniano da Irmandade Muçulmana?5 “Como o Irã foi por muito tempo um forte aliado da Irmandade Muçulmana, o presidente do Egito vai renovar as relações diplomáticas com Teerã sob o pretexto de que os próprios países do Golfo mantêm tais relações? Ele permanecerá em silêncio sobre as atividades ideológicas e religiosas do Irã, que se intensificaram desde a queda de Mubarak, como evidenciado pelo apoio de Teerã a grupos locais que querem espalhar o xiismo entre os egípcios? A Al-Azhar [principal instituição do islã sunita, com base no Cairo] já advertiu contra essa influência que poderia provocar um conflito sectário no Egito.”

Algumas semanas depois, em setembro, o mesmo jornalista denunciou a vontade do Cairo de incluir Teerã – ao lado de Riad e Ancara – em um grupo quadripartido encarregado de encontrar uma solução para a crise síria.6 Não é surpresa saber que o ministro saudita das Relações Exteriores boicotou uma reunião daquele órgão, realizada em 17 de setembro, no Cairo.

Esses testemunhos de desconfiança e muitos outros, surgidos na imprensa do Golfo, tiveram pouco eco no Ocidente, talvez porque contradizem a visão comumente admitida: a de uma grande aliança do islã sunita agrupando os emires do Golfo e os diversos movimentos muçulmanos para impor uma rigorosa ordem religiosa e fazer aplicar a charia, a lei islâmica estrita − como se a referência comum a uma visão conservadora do islã apagasse as considerações políticas e as rivalidades diplomáticas, as diferenças nacionais e as divergências de estratégia.

Alguns precedentes históricos alimentam essa fantasia, mesmo que eles se devam mais à política do que à religião. Nos anos 1950 e 1960, milhares de integrantes da Irmandade Muçulmana, perseguidos no Egito ou na Síria, na Argélia ou no Iraque, se instalaram no Golfo, especialmente na Arábia Saudita. Como lembra um intelectual egípcio ligado à confraria, “não era um pacto formal. Na época, a organização tinha sido desmantelada e não contava com uma liderança estruturada. Mas é verdade que os militantes que se instalaram na Arábia Saudita forneceram a esse país milhares de ativistas que contribuíram para a luta contra o nacionalismo árabe, especialmente o do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, e contra a esquerda”.

A invasão do Afeganistão pela União Soviética, em dezembro de 1980, reviveu o acordo em nome da luta comum contra o comunismo.7 Mobilizados sobretudo pelas redes islâmicas – a Irmandade Muçulmana manteve-se bastante reservada sobre o assunto, limitando-se à assistência humanitária8 –, apoiados pelos Estados Unidos e pela Agência Central de Inteligência (CIA) e financiados pelas monarquias do petróleo, milhares de voluntários afluíram para lutar contra o Exército Vermelho. A Al-Qaeda nasceu dessa mobilização em favor dos “combatentes da liberdade” afegãos.

A Primavera Árabe representa a terceira etapa dessa Santa Aliança? Essa hipótese sedutora esconde realidades mais sutis nascidas do pós-Guerra Fria, a começar pela ruptura entre a Irmandade e a monarquia saudita, que ocorreu no início dos anos 1990, à sombra da invasão do Kuwait. Foi num diário desse emirado, o Al-Seyassah, que o poderoso ministro saudita da época, o príncipe Nayef, detalhou desde 2002 suas queixas em relação à organização:9 “A Irmandade Muçulmana é a causa da maioria dos problemas no mundo árabe e provocou danos generalizados na Arábia Saudita. Nós apoiamos demais esse grupo, e ele destruiu o mundo árabe”.

 

em nome da realpolitik

O príncipe lembrou que, durante a crise do Golfo de 1990-1991, ele tinha recebido uma delegação que incluía notadamente o tunisiano Rashid al-Ghannushi (atual presidente do Ennahda, partido que governa a Tunísia desde as eleições que se seguiram à queda do ditador Zine al-Abidine ben Ali), o sudanês Hassan al-Turabi, o iemenita Abdul Majid al-Zindani e o turco Necmettin Erbakan, que pertenciam todos ao movimento da Irmandade. “Perguntamos a eles: ‘Vocês aprovam a invasão do Kuwait?’. Eles disseram que estavam ali para seguir nosso ponto de vista. Mas, depois, foram para o Iraque, onde, para nossa surpresa, emitiram uma declaração de apoio à ocupação do Kuwait.”

O príncipe, no entanto, evitou mencionar outra causa de sua fúria, compartilhada por outros emires da região: a entrada da Irmandade nas sociedades do Golfo e sua participação, desde a guerra do Kuwait, nas disputas que atingiram o reino. Porque sua visão política – um Estado islâmico, certamente, mas construído sobre eleições – difere daquela da monarquia, baseada na fidelidade inabalável à família real saudita. Esta, aliás, preferiu financiar as diversas correntes salafistas, cuja recusa em intervir no campo político e o apelo para apoiar os poderes estabelecidos, independentemente de quais fossem eles – a família real ou Mubarak –, a tranquilizavam.

O fosso entre Riad e a confraria agravou-se nos anos 2000, com a participação da Irmandade Muçulmana, por meio do Hamas palestino, no “eixo de resistência” contra os Estados Unidos e Israel, ao lado de Irã, Síria e Hezbollah.

Em seguida, as revoluções árabes embaralharam as cartas. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos se opuseram a elas. Para esses dois países, o sucesso das experiências conduzidas pela Irmandade no Egito e na Tunísia seria tudo, menos uma boa notícia. Os dirigentes wahabistas, que desenvolveram excelentes relações com Mubarak e acolheram o ex-presidente Ben Ali após sua fuga – eles recusam-se a extraditá-lo, conforme exige o novo governo da Tunísia –, culpam a Irmandade por tê-los feito cair e os Estados Unidos por ter-lhes retirado o apoio. A monarquia se colocou no centro da contrarrevolução e esmagou a revolta no Bahrein em março de 2011. Riad também deu apoio ao rei Abdullah II diante da contestação, na Jordânia, na qual a Irmandade esteve fortemente envolvida.10

E, no entanto, a primeira visita do presidente Morsi ao exterior – como a do primeiro-ministro tunisiano Hamad Jebali, do Ennahda –, em 11 de julho de 2012, foi reservada para a Arábia Saudita. Não por solidariedade “islâmica”, mas em nome da realpolitikque domina as relações internacionais. O Egito precisa fortemente do dinheiro de Riad – recebeu US$ 1,5 bilhão e ficou com a promessa de US$ 2,5 bilhões suplementares.11 Por outro lado, mais de 1,5 milhão de seus cidadãos trabalham no reino, e as remessas que enviam para suas famílias alimentam a balança de pagamentos do país. Quanto à Arábia, quaisquer que sejam seus preconceitos, ela não pode cortar laços com o principal país do Oriente Médio.

“A visita de Morsi não resolveu todos os problemas”, comenta um diplomata egípcio. Isso é um eufemismo. Muitos temas de litígio persistem, seja o tratamento dado aos egípcios no reino ou o destino dos investimentos sauditas no Egito. Em abril de 2012, o reino chamou seu embaixador no Cairo, após protestos pela prisão no reino wahabista de Ahmed al-Gizawy, advogado acusado de “posse de drogas”. Em agosto de 2012, Essam el-Iryan, um dos principais líderes da Irmandade que se tornou conselheiro do presidente, em seu Twitter, pedia à Embaixada da Arábia Saudita “para fornecer esclarecimentos sobre o crime, o julgamento e as circunstâncias da prisão de Nagla Wafa”, cidadã egípcia detida desde 2009, condenada a cinco anos de prisão e a quinhentas chicotadas após um desentendimento financeiro com um príncipe.12

O destino dos investimentos do reino no Egito alimenta o litígio. Em junho de 2011, o riquíssimo príncipe Walid bin Talal anunciou que “doava ao povo egípcio” três quartos dos 100 mil acres que tinha comprado a um preço aviltado graças ao sistema de corrupção dominante no governo do presidente Mubarak.13 Ele evitava assim problemas com a justiça egípcia. Outras investigações foram abertas pelo Ministério Público egípcio visando particularmente interesses sauditas, ainda que Cairo e Riad tentem aliviar as tensões que delas resultam e que um escritório especial tenha sido criado no Ministério do Investimento do Egito para resolver conflitos com a Arábia.14

 

O retorno de Cairo

Riad também se beneficia do retorno de Cairo à cena diplomática, enquanto a última década assistiu à eliminação do Egito, muitas vezes a reboque da monarquia wahabista. A viagem de Morsi, primeiro à China – sinal de que a época da conversa com os Estados Unidos terminou – e em seguida ao Irã, confirmou seus temores. Sua visita a Teerã valeu ao presidente a certeza da estima junto à opinião pública egípcia, orgulhosa por ele ter resistido às pressões dos Estados Unidos e ao mesmo tempo pouco sensível ao discurso anti-iraniano e antixiita dos dirigentes do Golfo. Mas, para evitar ofender a Arábia Saudita, Morsi teve de executar um número de equilibrismo: ficou apenas algumas horas na capital iraniana, não se encontrou com o líder da Revolução como estava previsto e se recusou a discutir a retomada das relações diplomáticas bilaterais. Depois de pagar tributo a Gamal Abdel Nasser – uma vergonha quando sabemos que esse líder reprimiu violentamente a Irmandade nos anos 1950 e 1960 –, ele endureceu seu discurso com a Síria, conclamando a saída de Bashar al-Assad, ao mesmo tempo que recusava a intervenção estrangeira solicitada pela Arábia Saudita.

Al-Ghannushi, líder tunisiano do Ennahda, residiu por muito tempo em Londres, preterindo Riad durante seu longo exílio. Em sua visita aos Estados Unidos em dezembro de 2011, ele declarou que a Primavera Árabe iria erradicar os emires do Golfo; essa previsão lhe valeu uma resposta irônica do diário saudita Al-Riyadh,15 que perguntou se ela se referia também ao emir do Catar, um apoio importante do Ennahda.

Ocorre que as relações entre o Catar – que, tal como a Arábia Saudita, reclama para si o wahabismo (a leitura rigorosa do islã que se impôs na Península Arábica) – e a Irmandade são sólidas. O emirado pensa ter encontrado na confraria um apoio à sua política, ainda que ele não disponha nem de exército, nem de diplomatas, nem de espiões em número suficiente para desempenhar um papel regional ativo, sendo suas reservas em dólar ilimitadas seu único recurso. Ele soube usar a presença em seu território, desde a década de 1970, do xeque Yussef al-Qaradawi, que se tornou um dos pregadores mais populares na região graças a seu programa na rede Al-Jazira do Catar, chamado A charia e a vida. Al-Qaradawi é uma referência religiosa para a confraria, à qual ele pertenceu – ainda que mantenha sua autonomia em relação a ela e não tenha deixado de criticar repetidamente o sectarismo de seu braço egípcio.

Depois de ter flertado por um tempo com o Hezbollah, a Síria e o Irã – sempre mantendo sólidas relações com os Estados Unidos –, o Catar escolheu, desde a Primavera Árabe, apostar na vitória da Irmandade. A rede Al-Jazira, totalmente financiada pelo emirado, perdeu muito de sua aura e alguns de seus melhores jornalistas; tornou-se, especialmente no Egito e por vezes na Tunísia, um mero porta-voz da Irmandade. A visita do emir do Catar ao Cairo, em agosto de 2012, em pleno Ramadã, e seu depósito de US$ 2 bilhões no Banco Central do Egito para ajudar a resolver seus problemas de fluxo de caixa confirmam a solidez do acordo. Mas podemos falar de aliança estratégica? Recentes tensões entre o Ennahda e o Catar, que se preocupa com a incapacidade do movimento de estabilizar o país, vão contra essa ideia.

Ao contrário do que pensava o general De Gaulle, que visitava, com ideias simples, “o Oriente complicado”, a região não é misteriosa, mas pode ser analisada com base nos mesmos conceitos políticos do resto do mundo. Falta concordar em aplicá-los. Assim, os vários ramos da Irmandade não seguem a batuta de um maestro clandestino escondido em Meca lendo uma seleção inspirada dos dogmas do islã: sua estratégia muitas vezes se delineia segundo o molde dos interesses nacionais de cada um, como mostra a política de Morsi em relação a Israel ou a Gaza, que não deixa de provocar uma grande decepção no seio do Hamas.

A esse quadro juntam-se os salafistas – sua entrada na política no Egito e na Tunísia implica novos desafios para essas correntes que sempre rejeitaram esse tipo de atuação;16 a aproximação entre Catar e Arábia Saudita, apesar de o emirado permanecer desconfiado de seu poderoso vizinho; e as ameaças à monarquia jordaniana – que agora se recusa a coordenar sua ajuda aos rebeldes sírios com o Catar, suspeito de favorecer a Irmandade. O suficiente para mostrar a dificuldade de navegar na paisagem islâmica tendo o Alcorão por única bússola.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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