Nossa Senhora Aparecida e a gramática eleitoral da reta final da campanha
Entre a memória afetiva dos católicos, a disputa por símbolos religiosos e a instrumentalização da fé, a padroeira do Brasil entra na última semana da eleição de 2026
Uma notícia polêmica colocou Nossa Senhora Aparecida no centro da última semana da eleição presidencial. Publicações atribuíram ao candidato Flávio Bolsonaro a intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Flávio negou a proposta, e não há prova de que pretenda fazê-lo. A reação ao boato, porém, revelou uma questão verdadeira: Aparecida ocupa um lugar tão profundo na vida brasileira que sua imagem não cabe inteiramente em nenhuma campanha.

Essa história começa muito antes de Getúlio Vargas. A devoção nasceu da imagem encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, e cresceu durante mais de dois séculos no catolicismo popular. Em 1930, o Papa Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida padroeira do Brasil. Vargas participou da proclamação solene, realizada no Rio de Janeiro, em 1931. Naquele momento, a imagem também servia a uma ideia de unidade nacional, em contraste com a antiga referência imperial a São Pedro de Alcântara. Mas o Estado não criou a fé que encontrou: foi a devoção do povo que deu força ao símbolo nacional.
Nossa Senhora Aparecida nunca esteve completamente fora da política. Sua imagem já foi convocada para projetos de integração do país e, em outros períodos, para discursos de combate ao comunismo. Esses usos não esgotam seu significado. A fé popular que atravessou a história brasileira, inclusive em contextos de conflito como o de Canudos, não pode ser reduzida às decisões de governos ou às posições de autoridades religiosas.
Aparecida pertence também à memória afetiva do Brasil. Está na casa da avó, sobre a cômoda ou perto da porta; no comércio de bairro; no carro de quem sai cedo para trabalhar. Está nas romarias e nas promessas, mas também na intimidade de quem a chama simplesmente de Cidinha. Para muita gente, olhar sua imagem é lembrar uma pessoa, uma infância, um pedido feito em silêncio. Por isso, uma agressão à santa pode ser sentida como uma agressão a histórias de família, mesmo por quem não frequenta a igreja regularmente.
O país já assistiu a essa comoção. Em 12 de outubro de 1995, o bispo Sérgio von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou e golpeou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em programas transmitidos pela TV Record. As cenas provocaram forte reação e permaneceram na memória pública. Edir Macedo, fundador da Universal, desautorizou a atitude. Aquele ato não representa os evangélicos como um conjunto. Ele mostra, porém, a carga emocional que um ataque público à imagem de Aparecida pode desencadear.
Há ainda uma dimensão racial e cultural decisiva. A imagem escura é reconhecida por muitos devotos como a representação de uma mãe negra. Emicida aproxima, na música, referências marianas e afro-brasileiras; Roberto Carlos canta a confiança de quem pede cuidado à santa. São linguagens distintas para expressar uma presença que atravessa gerações, classes e repertórios religiosos. Aparecida tornou-se, nesse sentido, uma santa popular: circula muito além dos espaços formais da Igreja.
É nesse terreno que a controvérsia de 2026 encontrou força. O Brasil mudou religiosamente, mas continua sendo um país de maioria católica. No Censo de 2022, 56,7% das pessoas com dez anos ou mais se declararam católicas, enquanto 26,9% se declararam evangélicas. O crescimento evangélico ampliou sua presença nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, no Congresso e na disputa por influência pública. Isso não transforma os evangélicos em um bloco político único, assim como os católicos tampouco votam todos da mesma maneira.
O quadro da Quaest sobre o eleitorado católico permite acompanhar toda a trajetória de setembro, não apenas as três últimas rodadas. No cenário estimulado de primeiro turno, os percentuais foram:
| Último dia da coleta | Lula | Flávio Bolsonaro | Vantagem de Lula |
| 1º de setembro | 43% | 26% | 17 pontos |
| 6 de setembro | 41% | 26% | 15 pontos |
| 13 de setembro | 42% | 27% | 15 pontos |
| 20 de setembro | 43% | 27% | 16 pontos |
| 27 de setembro | 48% | 29% | 19 pontos |
Lula liderou entre os católicos em todas as cinco medições. Depois de oscilar entre 41% e 43% nas quatro primeiras, chegou a 48% na última. Flávio passou de 26% para 29% ao longo da série; portanto, também cresceu numericamente nesse eleitorado, embora a distância entre ambos tenha aumentado. Na rodada final, 5% dos católicos estavam indecisos e 8% declaravam voto branco, nulo ou que não iriam votar. A margem de erro do recorte católico é de três pontos percentuais. A pesquisa mais recente foi realizada enquanto a polêmica circulava, mas o quadro não demonstra que o episódio tenha causado a mudança. No eleitorado geral, essa mesma rodada registrou 39% para Lula e 34% para Flávio no primeiro turno e empate numérico de 42% a 42% em uma simulação de segundo turno.
As trajetórias religiosas dos candidatos acrescentam outra camada à disputa. Lula se identifica com o catolicismo. Em 7 de abril de 2018, antes de se entregar à Polícia Federal, participou de uma missa campal em homenagem a Marisa Letícia diante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Aquela celebração, no momento mais dramático de sua vida política, integra a memória pública de sua relação com a fé católica. Não determina o voto de ninguém, mas evidencia uma ligação biográfica que não nasceu nesta reta final.
Flávio Bolsonaro se declara evangélico. Ele e a esposa, Fernanda, foram batizados em 2024, na Comunidade das Nações, em Brasília. Em dezembro de 2025, Flávio escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública após anunciar a pré-candidatura à Presidência. A comunidade foi fundada pelo bispo JB Carvalho. Portanto, sua relação com essa liderança religiosa também antecede a polêmica atual.
É preciso, então, examinar o que JB Carvalho escreveu. Em A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, pela editora Doxxa, o bispo afirma que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”. Na obra, questiona o reconhecimento nacional de Nossa Senhora Aparecida como padroeira e defende a mobilização de cristãos e parlamentares para mudar essa condição. Sua afirmação de que a lei seria ilegal é uma interpretação do pastor, não uma decisão da Justiça. O livro permite identificar uma posição religiosa e política documentada no entorno de Flávio; não permite transformar as palavras de Carvalho em declarações do candidato.
Há ainda um segundo fato, que deve ser mantido separado do livro. O PL 2.623/2007 foi apresentado pelo então deputado Victorio Galli, não por JB Carvalho nem por Flávio Bolsonaro. O texto propunha substituir, na lei do feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008. Galli viria a trabalhar como assessor no governo de Jair Bolsonaro. São vínculos políticos reais, mas nenhum deles prova que Flávio seja autor da proposta antiga ou tenha decidido retomá-la.
Essa distinção é central para compreender a gramática da polêmica. É falsa a acusação de que Flávio anunciou um plano para retirar o título de Aparecida. É verdadeiro que uma liderança religiosa próxima a ele defendeu essa mudança em livro e que um ex-assessor do governo de seu pai apresentou um projeto nessa direção. Apagar qualquer um desses lados empobrece o debate. Em vídeo de agosto, Flávio disse que, se eleito, decretaria que o Brasil pertence a Jesus Cristo, mas não mencionou Nossa Senhora Aparecida naquela declaração. A semelhança entre essa formulação e a linguagem do livro de Carvalho pode ser analisada politicamente; não deve ser apresentada como prova de adesão ao restante da obra.
A campanha de Flávio compreendeu o tamanho da reação. O candidato negou defender qualquer alteração e apareceu em São Paulo segurando uma representação de Nossa Senhora Aparecida. Ao mesmo tempo, acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de participar da circulação de informações falsas. A CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – negou a acusação, afirmou que não integra estruturas partidárias e repudiou a produção de mentiras no processo eleitoral.
A posição da CNBB também precisa ser lida em seus próprios termos. Quando os bispos falam em dignidade humana, bem comum, democracia, justiça social e participação consciente, setores da direita religiosa frequentemente os classificam como progressistas. A Igreja Católica, contudo, mantém posições conservadoras em diversos temas morais. Em sua mensagem para as eleições de 2026, a CNBB afirma que não indica candidatos nem partidos. Ela apresenta aquelas preocupações públicas como parte de sua missão orientada pelo Evangelho, não como um programa eleitoral de uma candidatura.
Num Estado laico, igrejas e fiéis têm o direito de participar do debate público. Candidatos também podem falar de sua fé. O problema surge quando a devoção é tratada como propriedade de um grupo político ou quando a emoção religiosa passa a servir de atalho para dispensar a verdade dos fatos.
Nossa Senhora Aparecida funciona como um pêndulo nesta reta final porque reúne dimensões que nenhuma campanha controla por inteiro: fé e memória, identidade nacional e experiência íntima, conservadorismo religioso e compromisso social. Sua imagem já foi usada por muitos projetos políticos. O que a polêmica desta semana mostra é que nenhum deles pode reivindicar a posse exclusiva da devoção popular. Antes de pertencer a uma estratégia eleitoral, Aparecida pertence à história vivida por seus devotos.
Marcio Ferreira é doutorando em Sociologia Política, PPGSP/IUPERJ | UCAM Jornalista e Pesquisador do Grupo de Estudos Religião e Cidades (RE-CID) E-mail: [email protected]

