Nossos sonhos não cabem nas vossas urnas - Le Monde Diplomatique

EDITORIAL

Nossos sonhos não cabem nas vossas urnas

por Silvio Caccia Bava
2 de maio de 2018
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Se hoje não temos partidos políticos capazes de fazer essa oposição de caráter sistêmico, em diálogo e interação com os movimentos sociais, a história nos ensina que é na sociedade civil que se gestam essas rupturas. As mudanças transformadoras e progressistas são sempre populares.

Vivemos em um sistema político e econômico viciado no lucro e na concentração da riqueza. Os recursos naturais e as pessoas precisam ser explorados até o limite e, quando não servem mais, são descartados como lixo, confinados nas favelas ou vão mofar nas prisões.

É um sistema baseado na destruição e exploração incessantes, no consumismo, no individualismo, na competição, na guerra de todos contra todos, algo que chegou a um nível crítico. A lógica da austeridade promove o aumento da desigualdade social, os desastres climáticos, a pobreza endêmica. E a desigualdade é fundada nas discriminações, colocando uns contra outros com base na cor da pele, na fé religiosa, na sexualidade.

Enfrentar esse sistema demanda conectar os processos que geram as desigualdades econômicas e sociais com o legado persistente da escravidão e se comprometer com os movimentos negros de defesa de direitos; com os movimentos de defesa dos direitos das mulheres; com as lutas dos povos indígenas; com o respeito e a valorização da diversidade religiosa e cultural; com o acolhimento dos imigrantes.

Precisamos promover a redução drástica das desigualdades econômicas, raciais e de gênero. Trata-se de unir a luta por justiça econômica com análises de como o racismo e a misoginia são ferramentas poderosas para impor as desigualdades.

Temos de nos opor a essa economia capitalista baseada na destruição e na exploração incessante, e apresentar uma alternativa. E essa transformação começa pela mudança de valores que organizam nossa sociedade.

Precisamos de uma economia baseada no amor, na generosidade, na hospitalidade, na cordialidade, empenhada em promover uma cultura fundada no cuidado, que acolha aqueles que passam por dificuldades. Precisamos de uma sociedade que coloque em primeiro lugar a melhoria do bem-estar das pessoas, e não o lucro.

A mudança é radical. Implica rejeitarmos a agenda econômica das grandes corporações e adotarmos uma agenda cidadã. O que significa isso? Acabar com o abismo entre ricos e pobres, criar um grande número de empregos com bons salários, reduzir substancialmente as emissões de carbono, revigorar de baixo para cima nossa democracia.

Um programa político cidadão não pode esconder o sofrimento popular. Precisa se dirigir à crescente revolta popular e alimentar a rejeição às políticas do atual governo, construindo uma narrativa nacional que permita aos brasileiros e brasileiras enxergar as diferenças entre as políticas de austeridade, que se aproveitam do medo para aprofundar a desigualdade, e as políticas para a melhoria da qualidade de vida de todos.

É importante fazer a denúncia da restrição crescente dos recursos públicos para as políticas sociais, como a emenda constitucional que congelou por vinte anos os gastos sociais, e demonstrar como educação, saúde, transportes públicos, segurança pública, parques e assistência social estão cada vez mais precarizados por falta de recursos.

Para melhorar a vida dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros e para enfrentar a trajetória do desastre ambiental, há um caminho. Precisamos revigorar nossa democracia, resgatá-la das mãos dos poderes econômicos, colocá-la a serviço de um novo processo civilizatório. Só com esse novo poder democrático, com o controle da cidadania, será possível operar as mudanças necessárias.

Isso não vai acontecer da noite para o dia. Será uma sucessão de embates, de conflitos, de mobilizações, para irmos conquistando mais poder, influenciando o desenho de novas leis, preenchendo nosso Congresso Nacional com autênticos representantes do povo, formulando e implementando novas políticas públicas.2

Queremos manter e aprimorar o SUS como um sistema de saúde pública universal e gratuito. Queremos educação universal, gratuita e de qualidade em todos os níveis, inclusive a universidade. Queremos que os serviços públicos sejam pagos pelo conjunto dos impostos, e não por seus usuários. Queremos uma matriz energética limpa e que o petróleo permaneça no subsolo. Queremos garantir saneamento básico para todos e erradicar a pobreza e o analfabetismo de nosso país. Queremos leis que controlem o setor financeiro e os grandes bancos para que eles obedeçam à estratégia de melhoria da qualidade de vida para todos. Queremos implantar uma tributação progressiva que faça os ricos, finalmente, pagarem impostos condizentes com sua riqueza. Queremos controles efetivos que não permitam a evasão de divisas e a sonegação de impostos.

Dado que esse é um desafio sistêmico, não é de uma só política, mas de uma estratégia de “desenvolvimento”, nossa resposta precisa ser também articulada e sistêmica, envolvendo todas as dimensões da opressão e da exploração.

Tomemos a questão dos direitos da mulher. Aí estão os direitos das mulheres negras de não serem submetidas à violência policial, o direito das mulheres imigrantes de não serem deportadas, o direito das mulheres trans de não serem vítimas do ódio e assédio… o direito de todas sobre o próprio corpo, o direito de todas de receber salário igual ao dos homens para funções iguais, e assim vai… As diferenças não podem sumir, elas são a alma das mobilizações. Se vierem a se articular, aí sim temos uma resposta sistêmica a um projeto de sociedade fundado nas discriminações.

Se hoje não temos partidos políticos capazes de fazer essa oposição de caráter sistêmico, em diálogo e interação com os movimentos sociais, a história nos ensina que é na sociedade civil que se gestam essas rupturas. As mudanças transformadoras e progressistas são sempre populares.

* Silvio Caccia Bava é editor chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

 



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