OPRIMIR E GOZAR

Notas sobre o perigo da sedução

Não há novidade aqui: a extrema direita global soube jogar o jogo erótico-político: ela mobiliza a retórica “justiceira” e “renovadora” (sic) com o suporte das capacidades virais e viris oferecidas pelas redes sociais

I

Clarice Lispector andava de mãos dadas com a sedução. Nisso coincidem as suas biografias, cujos relatos afirmam – e confirmam – o magnetismo que ela emanava onde estivesse. Esse feitiço clariceano tinha duas dimensões: uma mais lendária, alimentada pelo conhecimento terceirizado de quem ouvia falar de Clarice sem tê-la visto presencialmente; e outra mais concreta que, no encontro com a escritora, confirmava a atração de uma mulher em tudo estrangeira, em tudo brasileira.

Os relatos sobre o contato pessoal com Clarice revelavam a experiência de estar às portas do mistério: as pessoas que tiveram esse privilégio falavam de um sentimento contraditório, algo situado entre o medo e a vontade – de tocar, olhar, ouvir, falar com ela (cf. Moser, 2012). Todos nós chegamos a sentir algo semelhante: o desconhecido nos atrai porque é sedutor, porque nos oferece a promessa de encontrar algo mais forte e mais vívido do que a existência presente, cada vez mais normalizada, tediosa e miserável. Nas missas que eu frequentava à força, enquanto meus pais rezavam piedosamente, os meus olhos flutuavam entregues aos paramentos do padre. Surgia em mim uma necessidade voraz de sair do meu lugar, ir até aquele homem e passar a mão nos bordados perfeitos daquele templo-tecido. Em minha primeira eucaristia, outra grande vontade era tocar não só o padre, mas também a hóstia – se o corpo de Cristo está tão perto de mim, por que não posso encostar nele e ser ferido por esse prazer?

Também não é novidade que, embora magnética, Clarice Lispector não tinha o objetivo de seduzir ninguém. Pelo contrário, a sua tendência era fugir do mundo (Gotlib, [1995] 2008). Existe uma diferença significativa entre a força de sedução e a vontade de seduzir. Essa dissemelhança está presente tanto na vida quanto na obra de Clarice. Em A hora da estrela (1977), Macabéa, mulher resignada diante da própria mediocridade, acabou por seduzir o narrador (hipnotizado por narrá-la); já Olímpico, o homem com quem ela se relacionou, não era necessariamente atrativo, mas aproveitava-se de sua própria vontade (necessidade) erótico-sexual e masculina, que encontrou em Macabéa o encaixe imperfeito.

II

Nas teorias pré-psicanalíticas, o conceito de sedução está relacionado “a ideia de uma cena sexual em que um sujeito, geralmente adulto, vale-se de seu poder real ou imaginário para abusar de outro sujeito, reduzido a uma posição passiva: uma criança ou uma mulher, de modo geral” (Roudinesco e Plon, 1998: 696). Esse postulado foi abandonado por Freud no final do século XIX e deu lugar à “fantasia de sedução”, que, por fim, terminou por desembocar no que hoje conhecemos como Complexo de Édipo. Contudo, as dinâmicas daquela primeira hipótese freudiana não perderam autoridade psicanalítica: a sedução segue sendo uma lógica de fantasia (de si) e de submissão (do Outro) – pelo menos no que diz respeito às pessoas marcadas não pela força de sedução, como Clarice, mas pela vontade de seduzir, como os milhões de Olimpos soltos pelo mundo.

Notas sobre o perigo da sedução: fotografia de Freud em preto e branco. Ele olha para a câmera.
Crédito: Max Halberstadt/Wikimedia

Em Um copo de cólera (1978 ), Raduan Nassar nos leva ao núcleo mais radical das lógicas de sedução. Após uma noite de euforia sexual entre dois amantes, um evento corriqueiro desencadeia um confronto verbal agressivo e carregado de latente voltagem erótica. Nesse embate, o casal encena um intrincado jogo de sedução e submissão pela linguagem. Por meio do fluxo de consciência, eles trocam ofensas ressentidas e, no auge da hostilidade, quase sucumbem outra vez ao desejo do coito. Assim correlatas, as fantasias de ódio conduzem os personagens à fantasia erótica, dando uma resposta paradoxal à desavença entre os personagens e mostrando a dimensão agressiva da sexualidade – dimensão que, no final das contas, não deixa de ser o perfeito exemplo da dialética entre seduzir e submeter.

O que está em jogo na dinâmica sedutora é a sua organização objetal do mundo: o sedutor articula esforços para colocar alguém num lugar de submissão e, nesse sentido, opera um exercício de poder. O encaixe neurótico subentendido aqui é mais comum do que pensamos: na literatura e na vida, vários são os casais que se encontram a partir da atração opressor/oprimido, algoz/vítima, narcisista/altruísta. O encontro amoroso normalmente é uma interseção de faltas, vazios e ausências que se complementam – não no sentido romântico de descobrir “a metade da laranja”, pois essa alegoria supõe encontrar no Outro a perfeição do igual-a-mim. O que acontece na sedução é o exato contrário: encontro no Outro o avesso da minha potência e, por extensão, a oportunidade de gozar ao oprimi-lo, controlá-lo e subjugá-lo, ao mesmo tempo que disfarço as minhas misérias.

É nesse enquadramento que, ao seduzir, o sujeito não está apenas tentando conquistar alguém no sentido comum do termo, mas, mais profundamente, busca uma confirmação de que sua própria existência é desejável no campo do Outro. Movido por esse prazer autoerótico, a pessoa aparentemente cativante nos lembra que seduzir é enganar: uma determinada característica é projetivamente reforçada com o objetivo de esconder uma realidade constrangedora. A baixa autoestima, por exemplo, opera nesse mecanismo. Não é por acaso que, na teoria e na clínica psicanalítica contemporâneas, a sedução está mais relacionada aos problemas de autoimagem e narcisismo.

III

Neurose, validação e desejo são outros nomes possíveis para a sedução, essa cena primitiva que renasce na possibilidade de ver e cresce na expectativa de tocar e ser tocado, penetrar e ser penetrado. Contudo, existem outros nomes que me interessam mais: disfarce, máscara, omissão. Esses conceitos revelam um estado de coisas muito importante: a sedução pode ser uma órbita perigosa, uma força invisível que nos conduz à violência em níveis complexos. O que seduz em Trump, Milei ou Bolsonaro? Qual é a força atrativa de figuras como Netanyahu, Viktor Orbán, Marie Le Pen ou Giorgia Meloni?

Não há novidade aqui: a extrema direita global soube jogar o jogo erótico-político: ela mobiliza a retórica “justiceira” e “renovadora” (sic) com o suporte das capacidades virais e viris oferecidas pelas redes sociais. Inimigos claros, frases de efeito, soluções fáceis e assentadas na anulação do Outro… esse repertório discursivo seduz porque, simbolicamente, a morte gera um prazer projetivo: a partir do meu ressentimento não assumido, gozo quando o meu herói aniquila o inimigo; e, devido ao narcisismo, também gozo na esperança fantasiosa de ser o meu herói.

Obviamente, os meus ídolos não eram Jesus, Deus ou Maria, cujas histórias exemplares me eram oferecidas nas missas… essas figuras me davam medo e, em relação a mim, eram anti-heróis. Na infância, boa parte da minha libido era investida em me imaginar como Power Ranger, He-Man, Xuxa ou, em minha versão infantil mais perversa, um esperto Pica-Pau. Em partes, a dissolução da fantasia heroica passa por dois fatores fundamentais: aceitar a própria mediocridade e entender que a construção subjetiva sempre estará inscrita entre o prazer e o desprazer. Quando isso acontece em qualquer espectro social, político, religioso ou individual, os heróis se dissipam e o que permanece é a base ética com a qual alcançamos a urgência da alteridade.

Das muitas experiências que passei em Madri, uma delas foi o nojo do consumo: a turistificação da cidade gera um horizonte comercial tão saturado e desnecessário que o feitiço do capitalismo perdeu o fogo. Ter já não me parece relevante – e confesso que, noutros tempos, fui um viciado em roupas e mochilas e relógios, produtos que retroalimentavam a estupidez das minhas fantasias. Quando a deidade sedutora definha, tornamo-nos Macabéas: aceitamos a nossa própria pequenez e nos deslumbramos com a pequena explosão que, sim, pode surgir no caminho: um chocolate, um bolo, roscas açucaradas, um futuro possível.

 

Paulo Geovane e Silva é escritor, poeta, tradutor e psicanalista. Tem doutorado em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (2023) e mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Publicou os poemários Caída (Letramento, 2018) e O homem à espera de si mesmo (Mosaico, 2021), além de contos e crônicas em revistas brasileiras. Reside em Madri.

 

Referências

GOTLIB, Nadia Battella. Clarice. Uma vida que se conta. São Paulo, Edusp: [1995] 2013.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. São Paulo, Rocco: [1977] 2020.

MOSER, Benjamin. Clarice. Uma biografia. São Paulo, Cosac & Naify: 2012.

NASSAR, Raduan. Um copo de cólera. São Paulo, Companhia das Letras: [1978] 1992.

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. São Paulo, Zahar: 1998.

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