Notícias do mar: sobre corpos não desejados e a política dos deslocados - Le Monde Diplomatique

REFUGIADOS

Notícias do mar: sobre corpos não desejados e a política dos deslocados

por Ana Gebrim e Flavia Gleich
15 de junho de 2015
compartilhar
visualização

Ângela Merkel clamou o apoio para que se faça “todo o possível para impedir mais mortes perante a porta de nossa casa, a Europa”. Pois bem, todo o possível para que não morram em nossas casas, ou na porta de nossas casas, já que desse crime parecem nada querer saberAna Gebrim e Flavia Gleich

Sobre a inapreensibilidade do espectador à experiência da guerra e do sofrimento humano, Susan Sontag lança mão de uma crítica ao meio jornalístico e seu derivado: “dêem-nos 22 minutos e nós lhes daremos o mundo”. Para ela, toda imagem transmitida não pode capturar nada mais senão uma pequena porção daquilo que poderia ser chamado “o mundo”. Durante muito tempo, acreditou-se que se o horror fosse apresentado de forma nítida e inequívoca – a Guerra do Vietnã tendo sido a primeira veiculada em seu dia-a-dia – seria possível a apreensão da experiência de uma guerra. Todavia, hoje, para aqueles que veiculam a informação ou mesmo dos que a recebem, podemos supor um quantum de experiência traumática. Sempre há um preço a ser pago em qualquer imagem veiculada que aporte o horror e o sofrimento humano. Podemos dizer que a cada imagem, maciçamente transmitida, há um tanto de emoção que se esvai. Imagem e sentimento parecem derivar-se, e assim eclipsar-se. Corpos degradados e homens magricélicos invadem o lar do espectador de forma incessante e intermitente, e acabam por produzir, frequentemente, um efeito anestésico.

Frente aos recentes acontecimentos em alto mar Mediterrâneo e asiáticos, o que têm as imagens a dizer? O que podem produzir como efeitos à opinião pública? Ainda que com novas traduções e roupagens do meio jornalístico e da mídia social, a imagem segue sendo dos veículos mais fundamentais na atualidade para a representação de eventos que reproduzam o horror. Aqui, referimo-nos à imagem midiatizada, que, enquanto tal, aporta uma imediaticidade. Em sua maioria, parecem dizer respeito ao atual, ao presente, e assim, simulam uma espécie de paralelismo entre o tempo de produção do evento e o tempo de recepção deste. Nesse sentido, nas cenas ocorridas nas últimas semanas, os olhares parecem estar mais voltados a espetacularização do sofrimento do que ao contexto histórico e político de cada situação precarizada que é apresentada. Acaba-se por esvaziar a experiência: são essas as cenas que evidenciam corpos nus, corpos em sofrimento, corpos desprovidos da mais básica subsistência e que de tão intensamente invadirem nossas casas, muito além da denúncia da precariedade, acabam por se tornarem triviais.

Desde Roni Brauman sabemos da reportagem televisiva muito mais  acalmando a sede (bastante cruel, por que não?) de compaixão do que da produção de um espírito crítico. Assistimos – aqui tomado em seu duplo sentido – aos efeitos perpetuados de uma política na qual o espectador tem a chance de ver uma cena que não se mostra toda. Os barcos – agora os humanitários – protagonizados por ONGs ocidentais das mais variadas (algumas vezes reconhecidamente generosas e necessárias) parecem deturpar a visão: acalmam os ânimos e podem oferecer novamente o sono ao espectador, mas, dificilmente, conseguem incidir para uma mudança estrutural naquilo que se presencia. É preciso dizer: assiste-se, impávido, diante das televisões, no conforto do lar, a não só imigrantes que buscam a sobrevivência (física e psíquica) do lado de lá do Mar Mediterrâneo, mas aos efeitos deletérios de uma política migratória internacional que exclui e, continuamente, segrega sujeitos não desejados em território Europeu.

Trata-se de um problema iminente. A cada mês novas populações, comunidades ou etnias submetem-se a deslocamentos em que o que está em jogo é a sobrevivência. Literalmente no mesmo barco estão os que fogem de perseguições das mais diferentes ordens, os que têm um fundado temor – tal como prevê a legislação para concessão do estatuto de refúgio – assim como todos aqueles que fogem da fome, da miséria e os que tomam para si a esperança de seus pares de que alguém possa, enfim, conquistar alguma outra sorte.

Se até pouco tempo as políticas migratórias nos países do hemisfério norte eram concebidas e executadas em seu caráter mais regulador – o de assimilar ou controlar os contingentes em variadas formas – hoje atuam tais como as formações reativas cunhadas por Freud para explicar um certo mecanismo de defesa ao retorno do recalcado. Eis o problema pós colonial, a exploração colhe hoje todos seus efeitos deletérios. Frente às massas que decidiram por insistir pela vida a resposta é uma só: o muro. Em cada tentativa de entrada em território europeu – ou de saída da precariedade no país de origem – novas barreiras são erguidas.

Se os milhões de euros e todo o policiamento permitem a construção dos muros e das fronteiras, toda sua sustentação deve-se a um elemento mais fundamental: a fantasia. É dela que se vale a nova política de se gerir os deslocados, essa de que nada pode ser feito a fim de não se abrir precedente para novas chegadas. Porém, não podemos deixar de sublinhar, tendo em vista os mais recentes acontecimentos (referimo-nos aos documentos vazados pelo Wikileaks), que, mais do que uma política do não se poder fazer nada, o novo tom tem apontado para medidas que visam a subtrair absolutamente as reais razões dos problemas – agora imbuídos de uma justificativa samaritana de defesa das práticas legais, o combate deixa de ser à miséria e à degradação humana produtoras do deslocamento, mas ao crime organizado do tráfico de pessoas.

Muito recentemente, Ângela Merkel clamou o apoio para que se faça “todo o possível para impedir mais mortes perante a porta de nossa casa, a Europa”. Pois bem, todo o possível para que não morram em nossas casas, ou na porta de nossas casas, já que desse crime parecem nada querer saber. É precisamente desse elemento que a tal fantasia parece insinuar: não deixemo-nos invadir pelos corpos não desejados, protejamos nossa casa, fechemos nossas portas, alimentemos nosso conto de fadas identitário de cada dia, esse do pretenso nós e todos os outros. Disso que parece dizer: não nos matem em nossos lares, nem tampouco morram na soleira de nossas portas. Afinal, como prestar contas desses corpos extraviados de que nada sabemos? E, diga-se de passagem, dessa diretriz o governo brasileiro parece também ter adotado, pois frente às centenas de novas chegadas diárias de haitianos pela Amazônia nenhuma medida efetiva tem sido tomada.

Se a livre-circulação parece irrestrita ao capital, cada vez mais os corpos submetem-se a uma trama muito bem delimitada. Viajar é verbo intransitivo só para os turistas – que se esforçam em gozar da pretensa liberdade de deslocamento pelas companhias aéreas e seus passaportes devidamente carimbados – aos outros, quase todos, do além mar, a deriva parece ser o único destino possível. É na reprodução mais íntima – e solitária – dos lares que a fantasia mainstream parece encontrar eco: essa que se vale da crença da invasão dos corpos não desejados.

Se o estado das coisas puder ser ainda pior, e o futuro próximo vier a confirmar as informações dos documentos vazados sobre militarização e destruições dos barcos em nome do combate ao terrorismo e ao tráfico ilegal de pessoas, a “administração dos indesejáveis”, como nos propõe Didier Fassin, assumirá gradações ainda mais autoritárias – para além do esvaziamento da experiência pela mercantilização das imagens – vê-se no enunciado da guerra ao terror (mais uma vez) o passe livre para matar, agora, corpos totalmente destituídos de qualquer semelhança com aquilo que poderia produzir humanidade.

 

Ana Gebrim e Flavia Gleich são psicanalistas e trabalham com imigrantes e refugiados em São Paulo.



Artigos Relacionados

ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA

Uma escolha nada difícil

Online | Brasil
por Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
CENÁRIO LATINO-AMERICANO

Os desafios da “nova Onda Rosa” na América do Sul

Online | América Latina
por João Estevam dos Santos Filho
AUTOCRATIZAÇÃO

Erosão democrática no Brasil de Bolsonaro

Online | Brasil
por Carolina Azevedo
GUILHOTINA

Guilhotina #185 - José Celso Cardoso Jr. e Monique Florencio de Aguiar

DEMOCRACIA AMEAÇADA

Três dimensões para pensar a eleição mais importante da Nova República

Online | Brasil
por João Rafael Gualberto de Souza Morais
Qual é o plano?

A guerra às drogas precisa parar. Os presidenciáveis estão preparados para essa conversa?

por Juliana Borges
O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Cozinhas Populares apontam caminhos para a soberania alimentar

por Campanha Periferia Viva