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INDIGENISMO

Novo julgamento pelo assassinato de Vicente Cañas

por Silvia Lenzi
29 de novembro de 2017
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Trinta anos depois da execução do jesuíta, será levado a júri o único acusado ainda vivo . Cañas ou Kiwxí, nome que recebeu dos índios Myky, sabia dos perigos que rondavam os Enawenê Nawê. Pois, a defesa das terras indígenas já tinha desencadeado mortes trágicas na região

 

Passados 30 anos do assassinato brutal do irmão Vicente Cañas, um novo julgamento acontecerá no dia 29 de novembro, em Cuiabá (Mato Grosso). O jesuíta foi morto, aos 48 anos de idade, por defender a vida e o território dos índios Enawenê Nawê, no noroeste de Mato Grosso. Em 5 de abril de 1987, o missionário fez seu último contato por rádio com os companheiros que estavam na capital mato-grossense. Na ocasião, ele avisou que pretendia subir para a aldeia indígena no dia seguinte. Assim, presume-se que sua execução ocorreu entre 6 e 7 de abril. Seu corpo foi encontrado mumificado 40 dias depois, em 16 de maio, junto ao barraco de apoio que havia construído próximo ao Rio Juruena, a 60 km da aldeia dos Enawenê Nawê.

No dia 29 de novembro, o delegado de polícia aposentado Ronaldo Antônio Osmar, único acusado que ainda vive, será levado a júri, em mais um capítulo dessa história que se arrasta há anos. O inquérito policial, por exemplo, tramitou durante seis anos. As dificuldades para se chegar aos mandantes e executores do assassinato do Ir. Vicente Cañas sempre foram enormes – ainda hoje a população local e os indígenas convivem com o medo de represálias. Só foi possível chegar aos nomes dos acusados por meio dos testemunhos dos indígenas da etnia Rikbaktsa (canoeiros), que vivem em terras próximas aos Enawenê Nawê. Desde o primeiro momento após o crime, as suspeitas recaíram sobre os fazendeiros da região, contrários à atuação do jesuíta em defesa da demarcação das terras indígenas.

O primeiro julgamento aconteceu 19 anos depois do crime, quando foram levados a Júri Popular os acusados que ainda estavam vivos, sob a acusação de homicídio duplamente qualificado, mediante pagamento e em emboscada. Estavam no banco dos réus: Ronaldo Antônio Osmar, ex-delegado de polícia de Juína (município onde ocorreu o assassinato), Martinez Abadio da Silva, um conhecido pistoleiro da região, e José Vicente da Silva. Os três, entretanto, foram absolvidos por falta de provas.

Porém, segundo o Ministério Público Federal (MPF), o Conselho de Sentença desconsiderou provas substanciais presentes no processo, como testemunhos e o laudo cadavérico. “Os jurados, realmente, deram as costas ao acervo probatório, ignorando os depoimentos colhidos na fase de instrução em confronto unicamente com o interrogatório do réu, que ao tempo todo negou sua participação no episódio, o que já era de se esperar”, afirmou o MPF nos autos de apelação. É importante ressaltar que houve também a tentativa de sumiço de provas. Por exemplo, o crânio do Ir. Vicente Cañas desapareceu do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte (MG), enquanto estava sendo periciado. Foi encontrado, dias depois, em uma praça da capital mineira.

Ir. Vicente Cañas ou Kiwxí, nome que recebeu dos índios Myky, sabia dos perigos que rondavam os Enawenê Nawê. Pois, a defesa das terras indígenas já tinha desencadeado mortes trágicas na região. Movido por essa preocupação, em setembro de 1984, ele escreveu ao padre jesuíta Thomaz Aquino Lisbôa: “Não vou nunca mais a Cuiabá, não vou sair da área deixando os Enawenê Nawê ameaçados. Nem Doroteia (voluntária da OPAN – Operação Anchieta) vai sair da aldeia. Vamos assumir as circunstâncias até o fim. Se temos que morrer, vamos morrer todos! Esta é uma razão a mais, Jaúka (nome Myky de Thomaz Lisbôa), para urgir a necessidade de resolver de forma definitiva o problema da área (a demarcação), pois a insegurança afeta agora muita gente.”

Ser jesuíta

Nascido na província de Albacete (Espanha), em 22 de outubro de 1939, Vicente Cañas entrou na Companhia de Jesus em abril de 1961. Quase cinco anos depois, em janeiro de 1966, foi enviado em missão ao Brasil – país que adotaria como seu, naturalizando-se brasileiro. O jesuíta viveu, durante décadas, em vários povoados indígenas, levando à radicalidade o mandato de enculturação* nascido do Concílio Vaticano II. Foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário do Brasil (CIMI) e membro da Operação Anchieta (OPAN).

Em 1974, junto com o padre jesuíta Thomaz Aquino Lisbôa, Ir. Vicente Cañas estabeleceu os primeiros contatos os Myky e os Enawenê Nawê, que viviam em situação de isolamento no noroeste de Mato Grosso. Três anos mais tarde, passou a residir com os Enawenê Nawê, lutando pela preservação e demarcação do território indígena. Além disso, o jesuíta escreveu um diário de grande valor antropológico com cerca de três mil páginas. No documento, ele relata suas experiências diárias, sua comunhão profunda com os Enawenê e, também, as ameaças de morte que recebia. Anotava tudo: a finalidade de cada parte do habitat tradicional Enawenê, as invasões do território, até o que acontecia nas cabeceiras do rio Juruena, na mata e na aldeia desse povo que vivia de forma harmoniosa.

Silvia Lenzi é jornalista



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