O Antropoceno no cinema - Le Monde Diplomatique

MOSTRA ECOFALANTE

O Antropoceno no cinema

por Mônica C. Ribeiro
5 de março de 2015
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Não poucos são os sinais do processo de esgotamento do mundo. Desde quando o homem subjugou o planeta à sua vontade, cruzou mares e começou a explorar predatoriamente os recursos naturais, o mundo pareceu dobrar-se sem grandes reações adversas aos seus caprichos e interesses.Mônica C. Ribeiro


imagem do filme O mar perdido, de Hung Chung-Hsiu

Em algum remoto rincão do universo cintilante, que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram que morrer.

Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, Friedrich Nietzsche, 1873

 

Não poucos são os sinais do processo de esgotamento do mundo. Desde quando o homem subjugou o planeta à sua vontade, cruzou mares e começou a explorar predatoriamente os recursos naturais, o mundo pareceu dobrar-se sem grandes reações adversas aos seus caprichos e interesses.

O advento do chamado período Antropoceno1 acirrou exponencialmente a velocidade de apropriação do mundo. Do ritmo exploratório inspirado pela Revolução Industrial aos avanços tecnológicos e químicos pós-Segunda Guerra Mundial, o projeto de domínio do homem sobre a natureza segue seu curso.

O “animal inteligente” parecia ser capaz de resolver todos os problemas. Extrair minerais nas mais adversas condições, fabricar gadjets mirabolantes, ir à Lua e outros planetas. Vencer batalhas, germes e bactérias. Reverter e transpor cursos de água, construir cidades sobre a água e o deserto. Domar grandes distâncias em trens, automóveis, navios e aviões. Ampliar a produção agrícola com químicos e transgênicos.

Os efeitos adversos da epifania da espécie humana sobre a Terra apareceram inicialmente aos poucos, tal como visões – ao menos assim foram tratados pela maioria, satisfeita em auferir lucros com seus feitos incríveis. Há décadas cientistas e estudiosos alertam: o planeta está doente. E, por consequência, o homem. Os tais sinais que apareceram a poucos – e que agora começam a ter mais atenção – incluem aumento da temperatura e do nível do mar, eventos climáticos extremos, diminuição da biodiversidade e esgotamento dos recursos naturais. Quanto ao homem, vemos crescer agressivamente os casos de câncer,2 e há projeção de superbactérias, resistentes às centenas de antibióticos inventados pela farmacologia, serem letais já em 2050.3

Chegamos ao século XXI com grande parte da humanidade negando esse quadro, acreditando que a ciência e o animal inteligente mais uma vez vão resolver os problemas mantendo o curso. Mesmo com as evidências de que transgredimos limites que não deveriam ser transpostos.

Em 2009, um grupo de cientistas internacionais identificou e quantificou fronteiras dentro das quais devemos nos manter para garantir recursos naturais e condições de vida para as populações futuras. Cruzar essas fronteiras geraria mudanças ambientais irreversíveis e insuportáveis para diversas espécies. Já saímos da zona de segurança de pelo menos três delas – mudança climática, taxa de biodiversidade e interferência humana no ciclo do nitrogênio. E estamos no limiar de outras três – uso de água doce, mudança no uso da terra e acidificação dos oceanos.4

Como advertem Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, “a história humana já conheceu várias crises, mas a assim chamada ‘civilização global’, nome arrogante para a economia capitalista baseada na tecnologia dos combustíveis fósseis, jamais enfrentou uma ameaça como a que está em curso”.5

Sobre o fim do mundo e a capacidade do homem de superar os efeitos adversos de sua jornada, em especial a partir do Antropoceno, a indústria do cinema tem produzido exercícios probabilísticos e de futurologia, ano após ano, tais como O último homem na Terra (EUA, 1971),Mad Max (Austrália, 1979),A estrada (EUA, 2009),2012 (EUA, 2009),Contágio (EUA, 2011),Elysium (EUA, 2013),Interestelar (EUA, 2014), só para citar alguns.

No entanto, são os documentários, oriundos de diversas partes do mundo, que trazem “estudos de caso” fundamentais para percebermos os sinais mais do que aparentes de que ultrapassamos os limites. Não são exercícios de futurologia, e sim testemunhas oculares desse processo.

Esses filmes incluem em suas temáticas países que sofrem acirradamente as consequências da mudança do clima (Thule e Tuvalu, Suíça, 2014); o neocolonialismo e suas consequências a partir da exploração europeia dos recursos naturais na África (Sobre a violência, Suécia/Dinamarca/Finlândia, 2014); a vida de mineiros na Ucrânia (O dia dos mineiros, França, 2013); o mercado global tóxico de lixo eletrônico envolvendo Europa, China, África e Estados Unidos (A tragédia do lixo eletrônico, EUA, 2014); a revelação de que químicos não testados estão em produtos de uso diário, em nossas casas e dentro de nós, ao mesmo tempo que a predominância de várias doenças começa a aumentar (O experimento humano, EUA, 2013).

Entretanto, no quadro das transformações ainda pouco previsíveis do planeta e do homem para se adaptar a tudo isso, fulguram alternativas que tentam mudar o curso do trator movido a petróleo e capital. Aqui se destacam filmes como O semeador (Canadá, 2013 – um cidadão e sua empresa de sementes preservando raros e esquecidos cultivares para criar heranças para o futuro); Três acres em Detroit (França/EUA, 2013 – dois homens construindo uma estufa e introduzindo uma nova forma de agricultura urbana em Detroit); Acima de tudo (EUA, 2014 – a ação de um homem torna-se um grito de guerra para manifestantes do clima de todo aquele país contra a construção de um oleoduto de areias betuminosas); Marmato (EUA/Colômbia, 2014 – moradores da cidade de Marmato enfrentam a destruição e confrontam uma companhia mineira canadense que quer os US$ 20 bilhões em ouro que estão sob suas casas).

São centenas de filmes a cada ano, uma produção que não circula pelas salas de cinema no Brasil, mas está presente em grandes festivais mundiais e contribui para montarmos um quebra-cabeça – na verdade, um mapa – do que o Antropoceno tem proporcionado ao mundo. Esses e muitos outros filmes poderão ser conferidos este mês, durante a 4ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (www.ecofalante.org.br/mostra), na cidade de São Paulo. Boa oportunidade para debater esses temas e conhecer um pouco mais do que acontece em diferentes partes do mundo. Lugares diversos, similaridade de situações e consequências.

 

Mônica C. Ribeiro é jornalista e mestre em antropologia.



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