O astrólogo que inspira Jair Bolsonaro - Le Monde Diplomatique

NO BRASIL, UM REACIONÁRIO NA VANGUARDA DA GUERRA DE IDEIAS

O astrólogo que inspira Jair Bolsonaro

por Gilberto Calil
31 de janeiro de 2020
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“Populista de direita”, amante das provocações, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, é por vezes apresentado como um “Trump tropical”, com quem ele partilha a imprevisibilidade. Mas sua ação não se resume às suas escorregadas, ela se baseia na ideologia formulada por um guru que por muito tempo permaneceu discreto

“Olavo de Carvalho não existe.” Formulada em 2001, a frase do sociólogo Emir Sader, próximo ao PT, ilustrou por muito tempo a receptividade reservada aos trabalhos desse intelectual no meio progressista do Brasil. As teses reacionárias de um filósofo panfletário, que também exercia a função de astrólogo, inspiravam o desprezo dos universitários e pareciam distantes das preocupações do grande público. Muitos estavam convencidos: Olavo de Carvalho só existia para a ala minoritária mais radical da direita brasileira, um nicho político onde se latia muito sem morder.

Quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente do país, em outubro de 2018, os que outrora viviam à margem tomaram o poder. Durante uma transmissão ao vivo em suas redes sociais após sua vitória, Bolsonaro colocou quatro livros bem à vista: a Bíblia, a Constituição Federal, uma obra de Winston Churchill e, por último, um livro de Olavo de Carvalho. Os intelectuais da esquerda descobriram então que seu desdém a respeito dele os impediu de compreender “como o amontoado de erros factuais que caracterizam [sua obra] acabou parecendo coerente a uma parte da população”, segundo as palavras do cientista político Álvaro Bianchi.1

Nascido em 1947, Olavo de Carvalho militou brevemente no Partido Comunista Brasileiro nos anos 1960. Estudou Filosofia, mas logo abandonou os estudos, julgando como de péssima qualidade o ensino que recebia. Começou a escrever para grandes jornais em 1967, consagrando-se na astrologia, uma “disciplina fundamental”: “Aqueles que não a estudaram não sabem nada. São analfabetos”.2 Passando a integrar a classe – já bem numerosa – dos editorialistas conservadores, critica o pensamento vigente, que, segundo ele, imperava no país desde o fim da ditadura (1964-1984). Daí vem o título de uma de suas principais obras, publicada em 1996: O imbecil coletivo: atualidades intelectuais brasileiras.

Seu destaque como intelectual também se explica pelo apoio recebido de Ronaldo Levinsohn. Tendo miraculosamente escapado de uma série de escândalos financeiros, esse banqueiro possuía a UniverCidade, uma universidade privada que abriu suas portas a Olavo de Carvalho. Ele seria encarregado do curso de Filosofia entre 1997 e 2001, e dirigiria sua editora entre 1999 e 2001.

Sua inclinação pela guerra de ideias não o fez desinteressar-se pelo mundo material. A partir de 1998, lançou um site na internet para difundir suas análises e recolher as doações que ele exige das classes superiores. Sua lógica, reformulada em 2009, é a seguinte: como o “‘aparelho ideológico’ burguês, do qual os marxistas falam, não existe”, as classes superiores se encontram “sem defesa” diante da ameaça comunista. “Quando essas tentam debater a seu próprio favor, fazem-no com tanta discrição e delicadeza que parecem estar lutando contra o adversário mais benevolente e compreensivo do mundo, e não contra essas ‘máquinas mortíferas’ que os revolucionários se orgulham de ser.”3 Carvalho se apresenta como um dos raros intelectuais determinados a defender a causa dos abastados. Porém, sem dúvida, muito pouco consciente de sua fragilidade, a burguesia não lhe oferece o apoio monetário que estima merecer. Durante décadas, Plínio Salgado (1895-1975), dirigente histórico do fascismo brasileiro, também lamentou: “A burguesia não nos ajuda”.

A escrita de Olavo de Carvalho se caracteriza por seu gosto pela vulgaridade e por seu tom belicoso. Essa agressividade se apresenta como uma garantia de autenticidade, que lembra o estilo de Bolsonaro. Olavo de Carvalho estima que suas ofensas “apenas exprimem a humilde recusa de uma falsa solenidade”. Ele defende seu uso “em situações nas quais uma resposta delicada constituiria uma forma de cumplicidade com o intolerável”.4

(Ilustração: Lila Cruz)
Bobos da corte, traidores e vagabundos

Tal opção retórica também permite esquivar-se do debate quando não se têm argumentos convincentes. Uma das técnicas favoritas de Olavo de Carvalho consiste em desqualificar seus adversários atribuindo-lhes apelidos com conotação sexual ou escatológica. Afirmando, por exemplo, que o “pessoal da esquerda” é essencialmente genocida, conclui: “Se você responder a eles com educação, estará conferindo dignidade às suas ideias. […] Que porra de educação! Vai se fuder, filho da puta!”.5 Mas às vezes parece justo, em especial quando critica o pouco caso desses intelectuais progressistas que o reprimem por não possuir um diploma universitário… em um país onde 83% da população adulta também não possui um.

Em 2002, Olavo de Carvalho lançou o site Mídia Sem Máscara. Embora escrevesse na época em colunas regulares dos principais jornais do país, sua plataforma se impôs com o objetivo de demonstrar o domínio comunista sobre a imprensa. Por mais absurda que pareça, em um país onde a mídia é controlada por uma oligarquia, a cruzada elevou Olavo ao nível de referência intelectual da extrema direita, que admira sua “coragem”.

É que, aos olhos do astrólogo, o rótulo “comunista” engloba os reformistas moderados, os sociais-democratas ortodoxos e os neoliberais do PSDB. Partidários de uma “abertura” econômica apoiada em uma modernização social, estes últimos constituem a seu ver um dos atores-chave de uma operação ideológica que qualifica como “gramisciana” e que visaria fragilizar a sociedade brasileira a fim de prepará-la para a reviravolta. A partir da publicação de A nova era e a revolução cultural, em 1994, Antonio Gramsci se tornou uma obsessão para Olavo de Carvalho. Segundo os cálculos do pesquisador Leonardo Puglia, o nome do intelectual comunista italiano – apresentado como “o profeta da imbecilidade, o guia da multidão de imbecis”6 – aparece “318 vezes nas quatro principais obras publicadas pelo autor”.7

“Se Lenin é o teórico do golpe de Estado”, explica Olavo de Carvalho, “[Gramsci] é o estrategista da revolução psicológica que deve preceder e preparar o terreno para o golpe de Estado. […] A revolução gramsciana é para a revolução leninista o que a sedução é para o estupro.”8 Propagando-se de maneira imperceptível, a “estratégia gramsciana” visaria corromper os fundamentos cristãos e morais da sociedade com o objetivo de abrir caminho para a revolução comunista. Por isso, tanto a “guerra cultural” como “os comunistas” libertariam a sociedade brasileira para promover o aborto, a homossexualidade e a liberdade sexual – um raciocínio retomado, quase palavra por palavra, pela senadora Kátia Abreu em 2011: “A hegemonia do pensamento de esquerda, que a estratégia gramsciana de revolução cultural inoculou na universidade, estabeleceu uma ditadura do pensamento”,9 proclamou, quatro anos antes de compor o governo “de abertura” de Dilma Rousseff como ministra da Agricultura.

Paradoxalmente, o sucesso de Olavo de Carvalho baseia-se em um conjunto de ferramentas de comunicação análogo às que Gramsci propunha aos comunistas para conduzir a “guerra de posições”, ou seja, a batalha de ideias. Fazendo isso, participou de uma forma de revolução cultural da direita, facilitando a eleição de Bolsonaro, cujo governo reflete suas posições essenciais: anticomunismo, negação das questões climáticas, questionamento dos direitos humanos, ataques contra as mulheres, negros e minorias sexuais. Sabemos hoje que foi o próprio intelectual quem escolheu o atual ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Mas sua influência atinge sobretudo o presidente e seus filhos: Flávio (senador), Eduardo (deputado federal) e Carlos (vereador do Rio de Janeiro).

Sob os governos de Lula (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016), os diferentes ramos da direita conseguiram se unir o suficiente para obter a prisão (sem provas) do primeiro10 e a destituição (inconstitucional) da segunda.11 Com Bolsonaro eleito, as divisões ressurgiram, inclusive dentro do governo. Elas opõem os militares (que ocupam oito ministérios),12 os ultraliberais (trazidos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes) e a fração mais ideológica que gravita em torno de Olavo de Carvalho, tal como a pastora Damares Alves, ministra dos Direitos Humanos, da Família e das Mulheres, que preconiza que meninos devem vestir azul e meninas, rosa.

Mesmo assim, Olavo de Carvalho está na mira do vice-presidente, o general Hamilton Mourão, bem como de grupos ultraliberais, como o Movimento Brasil Livre. Por sua vez, o filósofo-astrólogo denuncia os “moderados” do governo, cuja timidez impediria Bolsonaro de desenvolver seu programa. No topo da lista de obstáculos a serem modificados: o general Mourão, um “moleque analfabeto”.13

Olavo de Carvalho clama por uma radicalização política. Ele aprovou as manifestações organizadas em 26 de maio de 2019 para pedir a suspensão das instituições democráticas, acusadas de atrapalhar as ambições “do povo”, e as de 30 de junho, em apoio ao ex-juiz e agora ministro Sérgio Moro, responsável pela prisão de Lula, em relação à qual hoje está comprovado que ele politizou o processo. Durante esse último agrupamento, autofalantes dispostos sobre um caminhão difundiam uma mensagem de Olavo de Carvalho: “Durante quatro ou cinco décadas, os comunistas e seus parceiros dominaram o Brasil: a mídia, as universidades, o mundo das artes e do espetáculo. Tudo, absolutamente tudo!”. O intelectual convidava os manifestantes a romper com “os bobos da corte e os traidores, que começaram a negociar com o outro lado e se dizem moderados”. Chegou a hora, concluiu ele, de “quebrar as pernas desses vagabundos”.

 

*Gilberto Calil é professor de História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).

 

1 Citado por Patricia Facchin, “Olavo de Carvalho é um efeito da nova direita, e não sua causa”, Instituto Humanitas Unisinos, 19 dez. 2018. Disponível em: <ihu.unisinos.br>.

2 “Um acerto de contas com a astrologia”, Porto do Céu, Recife, jun. 2000.

3 Diário do Comércio, São Paulo, 17 ago. 2009.

4 “Coleção de frases com Cu e cia.”, Olavo de Carvalho, 20 abr. 2015. Disponível em: <https://olavodecarvalhofb.wordpress.com>.

5 Citado por Lucas Patschiki, Os litores da nossa burguesia: o Mídia Sem Máscara em atuação partidária (2002-2011), dissertação de mestrado em História, Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2012.

6 “A nova era e a revolução cultural: Capítulo II”, Olavo de Carvalho. Disponível em: <http://olavodecarvalho.org>.

7 Leonardo Seabra Puglia, “Gramsci e os intelectuais de direita no Brasil contemporâneo”, Teoria e Cultura, Juiz de Fora, v.13, n.12, dez. 2018.

8 “A nova era e a revolução cultural”, op. cit.

9 Citado por Lucas Patschiki, op. cit.

10 Ler Perry Anderson, “Au Brésil, les arcanes d’un coup d’État judiciaire” [No Brasil, os arcanos de um golpe de Estado judiciário], Le Monde Diplomatique, set. 2019.

11 Ler Laurent Delcourt, “Printemps trompeur au Brésil” [Primavera enganadora no Brasil], Le Monde Diplomatique, maio 2016.

12 Ler Raúl Zibechi, “Que veulent les militaires brésiliens?” [O que querem os militares brasileiros?], Le Monde Diplomatique, fev. 2019.

13 “Olavo de Carvalho retruca Mourão via redes sociais; Carlos Bolsonaro apoia”, Poder 360, 23 abr. 2019. Disponível em: <www.poder360.com.br>.



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