O avanço do negacionismo e a nova dependência geopolítica
O ensaio analisa as eleições legislativas argentinas de 2025, que consolidaram o poder de Javier Milei e revelaram a crescente influência dos Estados Unidos sobre a política e a economia do país. Discute-se o avanço do negacionismo histórico e o enfraquecimento da memória democrática diante da aliança ultraliberal com Washington. A Argentina surge em uma encruzilhada entre dependência externa, erosão institucional e promessas de modernização tecnológica subordinada
As eleições legislativas argentinas realizadas em 26 de outubro de 2025 consagraram Javier Milei como o principal protagonista político do país e, simultaneamente, reacenderam antigas feridas da história argentina. O pleito, que renovou metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, foi muito além de um exercício democrático rotineiro: tornou-se o espelho de um país dividido entre o passado traumático da ditadura e o futuro incerto de um neoliberalismo radical alinhado aos Estados Unidos.
Segundo apuração de Paula Bertolini[1], o partido governista La Libertad Avanza duplicou sua representação no Congresso, alcançando 92 deputados e 19 senadores – um crescimento que garante a Milei maior capacidade para aprovar reformas econômicas, privatizações e medidas de austeridade. A vitória, porém, não se explica apenas pela política interna. Ela está intrinsecamente ligada à geopolítica e à pressão das grandes potências que disputam influência sobre os recursos e os rumos tecnológicos da América do Sul.
Um pleito nacional sob a influência global
Nos bastidores, Washington exerceu influência direta e inédita. O presidente norte-americano Donald Trump, que retornou ao poder em 2025, condicionou um resgate financeiro de US$ 20 bilhões à vitória eleitoral de Milei. De acordo com o The Wall Street Journal[2], citado por Bertolini, o apoio financeiro veio acompanhado de exigências explícitas: reduzir a presença chinesa em setores estratégicos, como telecomunicações, energia e tecnologia 5G, até então, áreas dominadas por empresas chinesas, como a Huawei, e pelo Banco da China[3].
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, chegou a declarar que Milei estava “comprometido em expulsar a China da Argentina”, frase que desencadeou protestos diplomáticos e foi qualificada pela embaixada chinesa em Buenos Aires como expressão de uma “mentalidade de Guerra Fria”. Ainda assim, o governo argentino não recuou: procurou atenuar o discurso, mas confirmou o redirecionamento estratégico. Milei reafirmou que manterá relações comerciais com Pequim, porém sob “novas bases”, priorizando acordos com o setor privado norte-americano.
Essa aliança, selada por meio do swap cambial de US$ 20 bilhões entre o Tesouro norte-americano e o Banco Central argentino, não é apenas uma manobra financeira para estabilizar reservas e conter a desvalorização do peso. É um gesto de subordinação que reconfigura a dependência histórica argentina: de devedora do Fundo Monetário Internacional, agora torna-se dependente das condicionalidades de Washington.
A vitória eleitoral e o fantasma do negacionismo
No plano interno, a vitória de Milei foi surpreendente até para os analistas. Como relatou João Fellet Role[4], o libertário recuperou terreno em províncias tradicionalmente peronistas, revertendo derrotas anteriores e obtendo vitórias expressivas em Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé. Contudo, a onda liberal não veio acompanhada de uma revitalização democrática, e sim de um perigoso avanço do revisionismo histórico e do negacionismo.
Na campanha, Milei e sua vice, Victoria Villarruel, relativizaram os crimes da ditadura civil-militar argentina (1976–1983). O presidente chegou a afirmar que “não foram 30 mil desaparecidos, mas 8.753”, reproduzindo números burocráticos que tentam deslegitimar o horror dos centros de tortura e extermínio como a ESMA (Escola de Mecânica da Armada), onde milhares de pessoas foram assassinadas. Villarruel, por sua vez, sugeriu transformar a área da Ex-ESMA, hoje Espaço Memória e Direitos Humanos, em um “parque para todo o povo argentino”, minimizando seu valor simbólico como patrimônio da luta pelos direitos humanos.
O resultado eleitoral em Núñez, bairro onde se localiza a Ex-ESMA, conforme analisou Hugo Souza (2025)[5] foi emblemático: mais de 59% dos eleitores votaram em candidatos da coalizão de Milei, como o advogado Alejandro Fargosi, cofundador do Centro de Estudos Legais sobre o Terrorismo e suas Vítimas, instituição negacionista dos crimes de Estado. O contraste entre o território da memória e a vitória dos que desprezam essa memória revela um deslocamento profundo no imaginário social argentino – uma espécie de cansaço moral e político que se manifesta como indiferença diante do autoritarismo.
Memória e democracia em risco
A banalização do passado autoritário indica que a Argentina vive uma crise de memória democrática. Desde o governo de Néstor Kirchner, a criação do Espaço Memória e Direitos Humanos (Ex-ESMA) simbolizava o compromisso com a verdade, a justiça e a reparação. Sua eventual desvalorização – seja por discursos revisionistas ou por cortes orçamentários – representa mais que um ataque ao passado: é um abalo das bases éticas da democracia argentina.
A retórica de “libertar” o país da “esquerda decadente” ou dos “parasitas do Estado” ressoa na lógica das ditaduras que prometiam “salvar a pátria” eliminando “inimigos internos”. A diferença é que agora o autoritarismo se reveste de roupagem neoliberal e cibernética, legitimando-se pelo voto e pela promessa de eficiência. A Argentina, país que transformou a memória em política de Estado e referência mundial de justiça transicional, vê-se diante de um retrocesso simbólico que ameaça dissolver conquistas civilizatórias em nome do “livre mercado”.

Dependência e vulnerabilidade estrutural
Do ponto de vista econômico, Milei busca apoio externo para sustentar uma política interna de choque. O swap cambial com os EUA e as promessas de novas linhas de crédito ampliam reservas e reduzem volatilidade momentânea, mas criam condicionalidades políticas que limitam a soberania. Washington, ao oferecer socorro financeiro, exige contrapartidas: exclusividade em setores tecnológicos, preferência para empresas norte-americanas e exclusão gradual de atores chineses.
Essa estratégia, apresentada como “modernização tecnológica”, na prática reforça a dependência estrutural da economia argentina. Em vez de uma integração autônoma e diversificada, o país passa a ocupar um papel periférico de executor de projetos estrangeiros, sem transferência real de tecnologia nem fortalecimento industrial interno.
O campo energético e tecnológico é um exemplo. O Plano Nuclear Argentino, que prevê o desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs) para abastecer data centers, e o megaprojeto Stargate Argentina, parceria entre a OpenAI e a Sur Energy, poderiam representar soberania científica. No entanto, se tais projetos forem guiados por contratos desiguais, a Argentina se tornará mera provedora de território e energia, enquanto o controle intelectual e digital permanecerá no Norte global.
O avanço da ultradireita e o enfraquecimento social
A vitória legislativa também reflete a consolidação de uma nova direita global, conectada por discursos antissistêmicos, negacionistas e pró-mercado. Inspirado por Trump e Bolsonaro, Milei adota a tática de converter ressentimento social em capital político. A precarização da vida cotidiana, com inflação, desemprego, precarização do trabalho e perda de poder de compra é explicada por ele como resultado do “estatismo”, e não da financeirização e da desigualdade estrutural.
Essa retórica simplificadora conquista corações cansados da instabilidade e desiludidos com o peronismo, mas seu custo social é alto. A abstenção recorde de 34% demonstra um eleitorado desmobilizado e cético. Os setores populares, que durante décadas sustentaram o sistema partidário argentino, parecem ter se afastado da política institucional, abrindo espaço para discursos de ódio e soluções autoritárias.
Entre a motosserra e a história
O símbolo da “motosserra”, que Milei empunha para ilustrar seus cortes radicais no Estado, tornou-se metáfora da desestruturação social. Essa “motosserra” não corta apenas gastos: corta políticas públicas, direitos trabalhistas, instituições culturais e espaços de memória. Quando Victoria Villarruel fala em “tirania necessária” para salvar a economia, revela a face autoritária que habita sob o discurso da eficiência.
O perigo não reside apenas nas reformas econômicas, mas na tentativa de reconfigurar a narrativa nacional. A ideia de que a ditadura foi um “mal necessário” para acabar com o comunismo volta a circular com naturalidade em meios oficiais e digitais, agora amplificada por algoritmos e influenciadores. Assim, o negacionismo histórico e o neoliberalismo econômico formam um binômio que ameaça corroer os alicerces do Estado democrático de direito.
Geopolítica e soberania digital
Em escala global, a Argentina se insere num tabuleiro geopolítico digital cada vez mais complexo. A disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica, que vai da infraestrutura 5G à mineração de dados e ao controle de recursos energéticos como o urânio, projeta-se sobre o território argentino. Washington busca conter a influência chinesa e transformar Buenos Aires em um laboratório de integração econômica liberal na América do Sul.
Entretanto, essa estratégia pode ter efeito reverso: ao restringir a diversidade de parcerias, a Argentina limita sua margem de manobra internacional e compromete sua autonomia tecnológica. A dependência de capitais e plataformas norte-americanas cria vulnerabilidades no campo digital, especialmente no controle de dados estratégicos e na segurança cibernética de setores sensíveis, como energia e comunicações.
O dilema argentino: entre o mercado e a memória
A Argentina vive, portanto, uma encruzilhada não apenas econômica, mas civilizatória. De um lado, busca estabilizar sua economia e se integrar à economia digital global. De outro, corre o risco de perder a essência democrática construída com tanto custo após 1983.
A história recente mostra que nenhuma estabilidade econômica é duradoura sem coesão social e sem memória. Países que renunciam à verdade e à justiça em nome do “crescimento” acabam reféns da mesma instabilidade que tentam combater. O negacionismo não é só uma distorção moral: é também uma política de esquecimento que desarma a sociedade diante do autoritarismo.
A democracia argentina, que se orgulhava de ter julgado seus genocidas, agora enfrenta o desafio de julgar o presente, um presente em que a austeridade econômica convive com o desprezo pela história. A “motosserra” neoliberal de Milei não corta apenas gastos: corta raízes. E sem raízes, nenhuma nação se sustenta.
Entre Washington e Pequim, entre passado e futuro
Aos olhos de Washington, a vitória de Milei representa a oportunidade de consolidar uma zona de influência privilegiada no Cone Sul, num momento em que a presença chinesa cresce em infraestrutura e energia na região. Para Pequim, a Argentina é um elo essencial na rota de investimentos e no fornecimento de recursos estratégicos como o urânio e o lítio.
Milei, ao alinhar-se quase integralmente aos EUA, pode obter ganhos imediatos: estabilidade cambial, investimentos em data centers, credibilidade financeira, mas, corre o risco de perder autonomia diplomática. O país que já foi símbolo de soberania e resistência regional pode se converter em plataforma de interesses estrangeiros.
Essa é a verdadeira encruzilhada argentina: não se trata apenas de escolher entre o dólar e o yuan, mas entre um futuro dependente e uma democracia fraturada, ou a construção de um projeto nacional autônomo e plural, que combine desenvolvimento tecnológico com memória e justiça social.
O futuro da memória e da soberania
A vitória de Javier Milei nas eleições legislativas de 2025 marca o início de um novo ciclo histórico na Argentina, um ciclo em que o neoliberalismo se mistura com o negacionismo e em que a política externa se confunde com dependência econômica. A promessa de um “futuro digital” pode até iluminar os arranha-céus de Buenos Aires, mas corre o risco de apagar as luzes da memória.
No mesmo bairro onde funcionou o centro de tortura da ESMA, hoje símbolo da dignidade humana, triunfaram nas urnas os que negam a sua história. Esse paradoxo sintetiza o dilema argentino contemporâneo: um país que, em busca de progresso, parece esquecer que sem memória não há liberdade e sem liberdade, nenhuma modernização é possível.
Carlos Bauer é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), da Universidade Nove de Julho (Uninove).
Fontes consultadas
Clarín, cobertura eleitoral de 26 out. 2025.
[1] BERTOLINI, Paula. Milei vence eleição legislativa na Argentina com ajuda bilionária de Trump. Poder360, 23 out. 2025.
[2] The Wall Street Journal, reportagens sobre swap cambial e restrições à presença chinesa.
[3] BERTOLINI, Paula. Milei vence eleição legislativa na Argentina com ajuda bilionária de Trump. Poder360, 23 out. 2025.
[4] FELLET ROLE, João. Milei vence as eleições legislativas e amplia maioria no Congresso. BBC News Brasil, 26 out. 2025.
[5] SOUZA, Hugo. Eleições na Argentina: a ESMA e o bairro. Come Ananás, 27 out. 2025.

