A MANUTENÇÃO DA DEMOCRACIA FOI A MAIS FORTE RAZÃO DA VIRADA NO SEGUNDO TURNO

O bolsonarismo acabou. E o lulismo também

Estamos no fim de uma era política. O momento é, portanto, de uma reorganização partidária e política

Ouso escrever isso nas primeiras horas após receber a notícia da fuga do miliciano filho em direção aos EUA.

Se não houver um golpe parlamentar ou de outro tipo, ou uma intervenção estadunidense, o bolsonarismo enquanto protofascismo encarnado numa linhagem de homens filhos de Jair Bolsonaro está liquidado.

Os dois filhos que ainda estão por aqui e já são políticos não têm nenhum carisma ou liderança significativa. Carlos, embora eleito senador por Santa Catarina com 2 milhões de votos, é paranoico e belicoso, tendo sido o pivô de vários conflitos e demissões de ministros do governo de seu pai, inclusive militares. Apesar de ter tido pioneira atuação nas redes sociais na campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, dificilmente consegue agregar uma frente mais ampla para manter o sobrenome na liderança da direita nacional. Jair Renan é nulo. Nem merece mais palavras. Jair Messias, o patriarca, cairá numa depressão profunda e talvez consiga sobreviver por alguns anos.

Fica com grande cacife e ainda boa parte do espólio bolsonarista a ex-primeira-dama, Michelle, que obteve quase 1 milhão de votos para representar o Distrito Federal no Senado. Hoje, ela já costura a liderança do PL com o gelatinoso Valdemar da Costa. Ela é mais inteligente que os homens da família, com a vantagem de ser mulher, parecer angelical e honesta. Os cheques do Queiroz já foram esquecidos.

Michelle se libertará pouco a pouco do sobrenome e fará carreira solo. Mas como nasce e cresce em um meio social retrógrado e machista da sociedade, deve ter voo limitado geograficamente.

A desarticulação decorrente da diáspora bolsonarista também facilitará uma delação premiada de Daniel Vorcaro e pode varrer muitos políticos ligados ao clã. E os outros atores do séquito bolsonarista são quase todos oportunistas, parasitas e sem brilho próprio. Mas há os que almejam ser representantes da direita. É aí que reside a ruína do bolsonarismo.

Se, por um lado, esse protofascismo engoliu a direita brasileira tradicional, e até mesmo partidos que se diziam de centro, como o PSDB, talvez ele já tenha cumprido sua missão histórica. Com a fuga precoce do sucessor direto de Jair Bolsonaro, reabre-se, paradoxalmente, novo espaço para a direita brasileira não bolsonarista.

Mas uma nova direita já tem alguns jovens líderes despontando. Não citarei todos, mas apenas os que parecem mais capazes de exercer liderança para além das redes sociais: Renan Santos e Kim Kataguiri. Os outros, na maior parte, são exímios manipuladores das redes sociais, mas despreparados para a vida partidária. O novo Congresso é diferente do atual, é verdade, mas velhas práticas de alianças e favores devem prevalecer ainda por alguns anos, e elas requerem mais do que grito e cortes.

Será necessário aos novos líderes da direita construir algo mais duradouro, ou ficarão em cargos menores e sujeitos aos instáveis herdeiros do bolsonarismo.

Há uma janela aberta para o cargo maior da República, e o líder mais maduro, no campo da direita, hoje, é Tarcísio de Freitas. É um fortíssimo candidato para 2030, e já goza, hoje, de apoio da direita mais tradicional e da maioria dos grandes veículos de impressa e eletrônica. Herdou e reforçou uma ampla rede de prefeituras no Estado de São Paulo, e possui fortes ligações com grandes empresas da área de infraestrutura. Mas em poucos anos pode ser suplantado por mais jovens, que falam muito mais e melhor para novos eleitores.

Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Escrevi até aqui sobre a direita, mas é óbvio que muito se aplica também, e com mais urgência, à esquerda e ao campo progressista.

A tarefa mais urgente para toda a sociedade brasileira, e não apenas para a esquerda, é encontrar lideranças como Lula. E não será rápido ou fácil.

Lula é, goste-se ou não dele, o mais importante e mais popular líder político da história brasileira e, no plano mundial, é o mais inspirador. Não é o mais poderoso, mas é o mais importante.

E por que a sociedade brasileira toda precisa de Lula e um substituto ou substituta seu?

Porque precisamos de lideranças que tensionem a política tradicional, forcem posicionamentos, pautem a agenda social, política e econômica, ressignifiquem o campo simbólico. Lula fez isso desde que despontou na política, ainda em meados dos anos 1970. Não se trata aqui de defender ou combater Lula e o PT, mas reconhecer o papel que representaram na história política nacional.

Nesses últimos 50 anos da política brasileira, todos os políticos tiveram que se deslocar de suas posições e, em algum grau, encampar bandeiras que Lula e o PT defenderam. Isso foi um ganho democrático e social imenso, estando eles ou não no poder. O exemplo mais gritante foi assistir ao último candidato do protofascismo defender programas sociais do governo petista.

O PT e os partidos de esquerda também passam por uma renovação, e já possuem, ao contrário do que a própria esquerda costuma dizer, muitas lideranças importantes. E muito jovens também. A questão é que leva algum tempo para alcançar densidade eleitoral nacional.

Estamos no fim de uma era política. O momento é, portanto, de uma reorganização partidária e política. Que anda junto com uma transformação também social.

O país envelhece, empregos informais ou formais mal remunerados avançam, direitos trabalhistas e previdenciários precarizam-se. Uma bomba relógio que só pode ser desarmada com grandes transformações de políticas conhecidas até aqui, e com uma transformação também do modelo econômico vigente.

Caso o PT e outros partidos de esquerda não se adaptem a isso, a nova direita despontará novamente como antissistema. O campo progressista também precisa retomar as prefeituras e câmaras municipais, pois o dia a dia das pessoas se passa nos transportes públicos, nos serviços públicos descentralizados, nas ruas das cidades.

Além dessas razões, a pressão dos extremos climáticos se fará sentir cada dia mais e mais forte e as cidades terão de se transformar em lugares menos perigosos do que têm se tornado. Portanto, não estamos falando de reformas superficiais, mas de verdadeiras revoluções.

Alguns analistas dizem que a juventude votou em Lula para manter a democracia, e isso denotaria um traço moderado e até conservador. É verdade que a manutenção da democracia foi a mais forte razão da virada no segundo turno.

Mas a juventude está dando mostras mundo afora que não se contenta mais em escolher representantes a cada dois anos. Elege governantes reacionários e violentos, mas não hesita em cobrar imediatamente nas ruas o recuo de medidas prejudiciais a ela. Não existe mais cheque em branco.

 

Carlos Thadeu C. de Oliveira Cientista político e bacharel em Filosofia, atualmente coordenador de Incidência Política da ONG Pimp My Carroça.

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