GEOPOLÍTCA INTERNACIONAL

O Brasil, os EUA e a desordem mundial

A Venezuela foi atacada por Trump por dois motivos. Primeiro, pelo interesse econômico em controlar as jazidas de petróleo sob controle estatal. Segundo, pelo interesse político em promover a mudança de um governo contrário a Washington. E o Brasil? Será o próximo da lista?

Há alguns anos, o excelente professor Moniz Bandeira, lançou um livro que explica a realidade mundial após o ataque americano à Venezuela. Em A Desordem Mundial – O espectro da total dominação, o autor defendeu que o mundo era baseado em guerras por procuração, mudanças de regime pelo uso da força e guerras psicológicas para desestabilizar adversários dos Estados Unidos.

A obra focava na política americana para duas regiões centrais no século XXI, o Oriente Médio e o Leste Europeu. Naqueles lugares, os EUA impuseram seus interesses através do uso da força, sem respeitar os ordenamentos jurídicos internacionais criados pelos americanos depois de 1945. Bandeira argumentou que não havia qualquer “ordem internacional estadunidense”, mas sim o contrário, um caos generalizado criado pelos próprios americanos quando impunham sua vontade de potência em países como Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia.

A desordem mundial chegou às Américas

Não é uma novidade que os EUA costumam fazer intervenções na América Latina. Essa política é uma constante desde o século XIX e em boa parte do século XX. Mas pela prioridade dada ao Oriente Médio, ao Leste Europeu e Sudeste Asiático, as administrações americanas evitaram se comprometer de forma direta com países que fossem contrários à sua doutrina liberal.

Porém, o segundo governo de Trump mudou o foco de prioridade de sua política global. A recente aprovação da Estratégia de Segurança Nacional trouxe como novidade o foco no “Hemisfério Ocidental” baseado na Doutrina Monroe. Como ameaça à segurança americana, estão o narcotráfico e a imigração, enquanto dois componentes devem ser combatidos com dureza.

Essa aparente natureza de legalidade, em verdade esconde que os americanos exportam o método da imposição da força para os governos que não sejam aliados. Cria-se uma “Desordem Mundial” nas Américas com a intenção de conseguir seus interesses políticos e econômicos na região.

Crédito: Ana Volpe/Agência Senado

O Brasil na alça de mira?

É preciso entender que o “Hemisfério Ocidental” é grande e possui diversas prioridades para os EUA. A região do Caribe e do Golfo do México são os lugares imediatos de combate da nova política americana para as Américas. Nessas duas regiões, interesses políticos e econômicos se mesclam na busca pela imposição do poderio americano.

Basicamente, a Venezuela foi atacada por Trump por dois motivos. Primeiro, pelo interesse econômico em controlar as jazidas de petróleo sob a posse estatal. Segundo, pelo interesse político em mudar o governo que era contrário a Washigton. E o Brasil? Será o próximo da lista?

O governo Lula foi muito inteligente em sentar-se para negociar com Trump em 2025. A redução das tarifas de exportação e da Lei Magnitsky foram reflexos de uma estratégia de distensão das relações políticas entre os dois países. O Brasil agiu na defensiva após os primeiros passos impostos por Trump.

Além dos avanços no campo econômico, existem dois possíveis caminhos para que os países consigam aumentar a cooperação: as terras raras e o combate ao crime organizado.

Os americanos possuem o interesse econômico em acessar os minerais críticos brasileiros, com a finalidade de bloquear o acesso chinês. É nesse ponto que o Brasil deverá negociar com inteligência, sem entregar todo o recurso brasileiro, mas conseguir retornos econômicos dessa empreitada.

Em relação ao crime organizado, Lula já demonstrou interesse em combater os crimes de brasileiros em solo americano. Deverá aprofundar a cooperação nesse campo para que a política estadunidense contra o narcotráfico não chegue aos moldes do que foi feito na Venezuela.

Portanto, a saída brasileira é por meio de diplomacia, ainda que o “Império” esteja aplicando o uso da força contra seus adversários. É ampliar os espaços de cooperação com os EUA em temas que tenham convergência para ambos. Somente assim, o Brasil não será parte da “Desordem Mundial” imposta por Trump.

Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel).  Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.

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