Quais as consequências do recuo estratégico de Trump no Tarifaço?
Com a perda da agenda da defesa da soberania para Lula no caso do Tarifaço, a extrema direita brasileira tenta se organizar em torno da segurança pública
Brasil e Estados Unidos chegaram a um entendimento na relação bilateral. O anúncio da suspensão da tarifa extra de 10% sobre alguns produtos brasileiros, já havia sinalizado que os americanos haviam desistido da batalha política-comercial no julgamento de Jair Bolsonaro. E de forma surpreendente, no último dia 20, houve a redução dos 40% extras de tarifas para alguns gêneros alimentícios, tais como café, carne, açaí, banana, etc.
Diferente do que alguns setores políticos e da imprensa defendiam, a redução em grande parte das tarifas às exportações brasileira não são apenas um problema de ordem interna dos EUA. Isto é, não se deu em função apenas do aumento da inflação em produtos como café ou carne, mas também pela perda de popularidade que Trump experimentou nas últimas semanas.
O recuo estratégico de Trump, também é um esforço notável da diplomacia brasileira. Entre janeiro e abril, Brasil e EUA não tiveram qualquer contato político. Depois, foi aplicada a primeira tarifa de 10% sobre os produtos brasileiros. Entre esse primeiro movimento e o segundo movimento americanos, em julho, as relações entre os dois países seguiram estagnadas.
Porém, no segundo semestre, os esforços diplomáticos, políticos e empresariais do país tiveram seus efeitos. O primeiro contato ocorreu em setembro na AGNU, momento em que Trump anunciou a “química com Lula”. Na sequência, os dois presidentes conversaram por telefone e fizeram o primeiro encontro bilateral em outubro. Desses grandes movimentos políticos, como falou Trump, ficou acertado a suspensão das tarifas para alguns produtos brasileiros.

Lula e Trump: da trégua aos resultados concretos
Como havia escrito em setembro, era muito possível que do primeiro contato na ONU, surgissem resultados concretos para a diplomacia brasileira. E os resultados vieram com a redução das tarifas para alguns produtos brasileiros. Diferente do que fez para alguns países, Trump não anunciou um acordo mútuo, como fez com a China ou a Coreia do Sul.
A vitória diplomática de Lula é um indicador de que Trump percebeu a força e popularidade do presidente brasileiro. Há menos de um ano para as eleições presidenciais de 2026, Lula encaminha sua reeleição com mais uma demonstração de habilidade política nas relações internacionais do país.
Não é à toa que a força do presidente brasileiro chegou na imprensa internacional, dando destaque para a vitória de Lula à Trump no caso do tarifaço. Se em 2026, Trump perceber que Lula ganhará as próximas Eleições no Brasil, não causará surpresa que a relação bilateral se amplie, as tarifas sejam retiradas no todo, e eles cheguem a algum acordo comercial em setores estratégicos (terras raras, “big tech’s”, carnes, soja, etc.).
A extrema direita brasileira migra do apoio dos EUA no Tarifaço para a “Bukelização” da segurança
Com a perda da agenda da defesa da soberania para Lula no caso do Tarifaço, a extrema direita brasileira tenta se organizar em torno da segurança pública. Quase de imediato, figuras conhecidas do Bolsonarismo, tais como Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira surgiram em El Salvador para conhecer de perto o processo de “Bukelização” da segurança pública.
A “Bukelização” da segurança pública é o processo de endurecimento das ações contra o crime organizado, ancorado em graves violações de direitos humanos. Há um aumento da punição e de medidas autoritárias das forças de segurança que são apoiadas por um projeto populista e autoritário. Vale recordar que Bukele chegou ao poder pela via eleitoral, e já mudou as regras do jogo para reeleições sem limites.
Com pouca transparência eleitoral e internacional, Bukele tem chamado atenção da extrema direita brasileira que vem procurando espelhar a agenda de El Salvador para combater o crime organizado no Brasil. Além do Bolsonarismo, o MBL, através do Partido Missão tem encampado essa pauta nas redes sociais.
Há uma tentativa de surfar nessa temática para enfraquecer o governo Lula. Apesar desse passo, percebe-se que a extrema direita está fragmentada para as eleições de 2026. Ainda que tenham viajado para El Salvador no mesmo momento, as figuras citadas acima não se encontraram. Isso revela que estão rachados em torno das disputas locais para o Senado em Santa Catarina e no herdeiro político do Bolsonarismo para 2026.
A indefinição de um nome para substituir Jair Bolsonaro ano que vem, criou um vácuo de poder e liderança que dificulta uma organização em torno dos nomes que estão no jogo, casos de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Michelle Bolsonaro ou Tarcísio. Sem entendimento entre seus rivais, Lula agradece o presente de uma nova reeleição.
Danilo Sorato é professor de História e Relações Internacionais. Doutor em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisador do Laboratório de Política Externa Brasileira (LEPEB/UFF) e Pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e do Planejamento Espacial Marinho (CEDEPEM/UFF/UFPel). Escreveu diversos artigos acadêmicos e jornalísticos sobre as relações internacionais do Brasil, em especial os governos Temer, Bolsonaro e Lula.

