O Brasil que se cuide!
a histórica condição da América Latina como zona de paz e a tradição diplomática brasileira já não bastam para garantir segurança e soberania. Diante de pressões externas, acordos militares no entorno regional e sinais de reconfiguração geopolítica liderada pelos Estados Unidos, o Brasil passa a encarar a defesa nacional como tema urgente
Até pouco tempo atrás não imaginaríamos que o Brasil pudesse estar ameaçado por forças armadas de um país qualquer. A América Latina era uma zona de paz. O tamanho do Brasil impunha respeito, e sua política diplomática em defesa da paz fez com que ele tivesse boas relações com todos os países em torno. O Brasil não quer a guerra nem está preparado para ela.
No entanto, depois da imposição de taxas ao país, da proibição de autoridades brasileiras entrarem nos Estados Unidos, do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, das ameaças ao governo do México de invasão armada, do bloqueio de Cuba e das pressões tarifárias sobre a Colômbia, nossa capacidade de defesa entrou na pauta da segurança nacional. A afirmação de nossa soberania e autonomia está desafiada. Tanto é assim que o governo brasileiro suplementou o orçamento das Forças Armadas, contratou agora a produção de mísseis e apresentou nos jornais o caça Gripen, de quinta geração, produzido no Brasil. A mensagem é: “Vamos nos preparar para as piores eventualidades”.[1]
Em março de 2026, o Paraguai aprovou o Acordo do Estatuto das Forças com os Estados Unidos, que permite a presença temporária em seu território de qualquer quantidade de militares e civis do Pentágono para treinamento, cooperação em segurança, exercícios militares e combate a crimes transnacionais. A atenção se concentra no combate ao narcotráfico e ao crime organizado e no intercâmbio de inteligência, com atuação próxima à fronteira brasileira.
Temos, portanto, a possibilidade de concentração de armamento e tropas norte-americanas no país vizinho. Vale dizer que a Tríplice Fronteira é uma região estratégica na América do Sul, onde Brasil (Foz do Iguaçu), Argentina (Puerto Iguazú) e Paraguai (Ciudad del Este/Presidente Franco) se encontram, delimitados pelos rios Iguaçu e Paraná. Aí os norte-americanos identificam há tempos um possível reduto de terroristas e narcotraficantes…

A nova Doutrina Donroe,[2] formulada pela extrema direita norte-americana e implementada por Donald Trump, coloca a América Latina como um espaço de influência direta, numa disputa pelo controle do território e numa competição global por influência, recursos minerais estratégicos e controle de rotas marítimas.
Coerentes com essa doutrina, os Estados Unidos acabam de criar o “Escudo das Américas”, com o objetivo de combater o narcotráfico e o crime organizado. São participantes os Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago. O plano prevê combater cartéis de drogas e crime transnacional e visa conter o avanço chinês na região. Ficaram de fora as maiores economias da América Latina: México, Brasil e Colômbia. Não foram convidadas. Coincidentemente, esses são os países que lutam por sua autonomia e por uma América Latina soberana e independente. Será contra eles que se mobilizará o Escudo das Américas?
Um indicativo de alinhamento político podemos ver na fala do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira, que declarou, em 20 de março passado, entender que o PCC e o CV são grupos terroristas, o que abriria espaço para uma intervenção militar direta dos Estados Unidos, segundo sua legislação. A inclusão do PCC e do CV na categoria de organizações terroristas é uma bandeira levantada pelo governo Trump, com quem o presidente boliviano se reuniu durante a Cúpula Escudo das Américas, realizada uns dias antes, em 7 de março, em Miami.[3]
Também não podemos esquecer que em 2008, no mesmo momento em que se dava a descoberta do pré-sal, era reativada a 4ª Frota norte-americana, com o porta-aviões nuclear USS George Washington à frente, operando na América Latina e Caribe, com a proposta de cooperação militar e presença estratégica contra a influência de outras potências na região.
Há muitas outras frentes que podem ser referidas nessa verdadeira guerra colonial. A escuta ilegal da Presidência da República, o envolvimento com a Lava Jato, a manipulação da opinião pública e a destruição de setores da indústria pesada estão entre os mais importantes. CIA, FBI e DEA têm escritórios no Brasil e funcionam também como adidâncias em consulados. Os convênios com a Polícia Federal abrem todos os nossos arquivos e processos ao seu conhecimento. Há compartilhamento de serviços de inteligência. Enfim, eles têm acesso a todo tipo de informação.
Geopoliticamente, a extrema direita internacional já atua para intervir em nossas eleições, como ameaçou Elon Musk algum tempo atrás. Com certeza, as plataformas digitais, como Facebook, YouTube, X e TikTok, estarão (ou já estão) engajadas na campanha da extrema direita contra Lula.
Nesse cenário, vemos um comportamento aparentemente errático por parte de Donald Trump, mas que tem um sentido estratégico preciso: reafirmar seu domínio colonial sobre a América Latina, combatendo qualquer iniciativa de autonomia ou formação de blocos regionais, como a Unasul e mesmo o Brics, e, ao mesmo tempo, expulsar a China da região.
Os brasileiros e brasileiras que se cuidem, pois há ameaças no ar.
[1] https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/10/22/senado-aprova-investimento-de-r-30-bi-fora-do-arcabouco-para-forcas-armadas.
[2] A “Doutrina Donroe” é uma reinterpretação da Doutrina Monroe, do século XIX, aplicada pelo governo Donald Trump para reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina. Focada na competição com a China e a Rússia, visa controlar recursos naturais estratégicos e conter a imigração, tratando a região como sua área de influência direta. Ver: https://www.youtube.com/watch?v=zsCI8Gj8r74&t=263s.
[3] https://www.facebook.com/conexaopoliticabrasil/posts/o-presidente-da-bol%C3%ADvia-rodrigo-paz-declarou-que-organiza%C3%A7%C3%B5es-criminosas-como-o-/1360578112755212/.


O Brasil faz tempo que está na lista Negra dos EUA, sua posição é intermediária, logo abaixo de Irã, Venezuela, Coreia, Líbia…A agenda de Lula é de somente insultos ao Presidente Americano, sem diplomacia… Retórica?