CLÓVIS MOURA, AQUELE QUE (RE)IMAGINOU O BRASIL

O centenário de um intelectual mais atual do que nunca!

Nesse momento de valorização de sua obra, o destaque é que Clóvis Moura é o intelectual que resgatou e trouxe à tona o negro como personagem central da nossa formação e desenvolvimento enquanto sociedade brasileira

Este texto se faz inserido em meio as efemérides referentes ao centenário do nascimento de Clóvis Steiger de Assis Moura – historiador, sociólogo e jornalista – nascido no dia 10 de junho de 1925. Sem adulações ou reverências acríticas ao homenageado em questão, mas enquanto processo celebratório e de resgate de sua obra e trajetória1 enquanto intelectual radicalmente popular, autor de pensata das mais originais e inovadoras já constituídas em terras brasileiras. Referente a um pensador social revolucionário e radical. Desprovido de qualquer intelectualismo e com total desprezo em conjugar ou legitimar os interesses nada civilizatórios da elite arcaísta e reacionária brasileira.

Clóvis Moura fez de seu ofício, um exemplo de busca constante em dessacralizar a produção intelectual. Ao buscar despossui-la de sua áurea canônica, intocável e inquestionável, de sempre se prostar a serviço das velhas ordens vigentes.

O que numa sociedade de origem racista e discriminatória como a nossa, resultou em uma normativa não oficial – mas real – de que a produção intelectual, assim como a legitimação do discurso a ele inerente, é um privilégio de poucos para poucos. Acabando por gerar um processo de deslegitimação sistêmica referente a todo um conjunto de saberes oriundos das classes sociais marginalizadas de nossa sociedade. Com suas historicidades e sociabilidades, que se dão para além das normativas tradicionais e excludentes de nossas relações sociais hegemônicas.

Moura é, portanto, aquele que nos universos da Historiografia e das Ciências Sociais brasileiras, rompe conscientemente a esse padrão vigente. Optando em agir e se dar intelectualmente por um recorte popular e negro. Em analisar e problematizar as incompletudes civilizatórias do país, pelas perspectivas dos historicamente alienados e apartados de toda e qualquer forma de poder decisório institucionalizado. Para isso, rasgando o nosso tradicionalismo historiográfico com o seu véu ilusório de sermos uma sociedade racialmente democrática e socialmente harmoniosa.

Autor de teoria social radical, revolucionária em seu arcabouço e objetivo, em reimaginar a invenção civilizacional brasileira tendo o negro enquanto sujeito coletivo e ator político basilar na centralidade não só da nossa constituição enquanto sociedade, mas como o seu elemento modernizante e dinamizador. Agente crítico e ativo de nossos processos históricos e fenômenos sociais, em constante busca pela efetivação de conceitos de justiça, igualdade e liberdade para todos os brasileiros, através de seus processos de resistências e revoltas por todo o nosso período colonial e imperial.

Das rebeliões negras nas fazendas e cidades, dos quilombos e insurreições que enfraqueceram política e economicamente o poder monárquico, antecipando os ideários de direitos e cidadania, que teoricamente haveriam de se dar enquanto premissa ideológica dos tempos republicanos no Brasil, a partir de 1889. O que para Moura não se dava por acaso, mas sim, enquanto consequência de todo um processo lutas e reinvindicações negras que construíram e deram forma, cor e alma ao Brasil.

Clóvis Moura é aquele que através da aplicação do método marxista dialético de análise social – de acordo com as particularidades históricas e fenômenos sociológicos resultantes de nossa especificidade enquanto sociedade em eterna incompletude – cria o seu próprio método de análise e problematização em sua busca por interpretar o Brasil.

Desde os primeiros passos de sua trajetória intelectual, sempre independente e autodidata, fora dos limites intelectuais universitários, mas ao mesmo tempo sempre em diálogo com os grandes expoentes do pensamento social no Brasil – dentre outros, Arthur Ramos (1903-1949), Caio Prado Júnior (1907-1990), Donald Pierson (1900-1995) e Emílio Williens (1905-1997) – muito antes da publicação de Rebeliões da Senzala (1959), o livro referencial de sua obra, a partir do qual estabeleceria toda uma série de diálogos teóricos e políticos ao longo de sua carreira.

Nesse momento de valorização de sua obra, o destaque é que Clóvis Moura é o intelectual que resgatou e trouxe à tona o negro como personagem central da nossa formação e desenvolvimento enquanto sociedade brasileira. Enquanto elemento dinamizador e radical de nossas estruturas históricas e relações sociais. Mas não por um viés estritamente culturalista, nem muito menos conciliatório. E sim, por uma perspectiva de tensionamento e confrontação ao nosso ordenamento civilizatório de teor elitista e racista. É o negro enquanto ator social e sujeito político coletivo ativo. Protagonista e não coadjuvante. Além de nunca ser presença ignorada ou apagada em suas narrativas ou discursivas analíticas.

O negro é a base, o centro de suas interpretações e problematizações sobre o Brasil, enquanto constituinte de processos humanos que potencializam a superação de nosso arcaísmo social e defasagem cidadã. Na produção histórico-sociológica mouriana, o negro e seu exercício de negritude não é, nem nunca foi, responsável pela nossa incompletude enquanto nação, e muito menos motivo de qualquer tipo de vergonha ou humilhação perante o mundo, como apregoava sem nenhuma vergonha, nossas elites através de seu ideário racista e eugenista. Moura fez do seu ofício intelectual uma antítese a esta realidade, constituindo-a como uma pensata insurgente. Provocativa e combatente quando opta – conscientemente – por dar voz ao negro rebelde, insolente, arrogante, perigoso, belicoso, bandoleiro, revolucionário, quilombola…

Dá luz, sentido as potencialidades de transformações e alteridades históricas que os negros coletivamente geram em meio a sociedade nacional, quando acabam por não ocupar o lugar social de subordinação e alienação sistêmica que se fazem reservados a eles na estratificação social brasileira ao longo dos séculos. São a esses negros com papéis e funções sociais que rompem estereótipos e (pré)determinismos reacionários, são a esses “maus cidadãos” e marginalizados da História, que a sua obra opta por transcrever e verbalizar em suas diferentes formas de protagonismo social, cultural, econômico e político.

Um conjunto de pensata, que sendo reflexo direto de seu autor, se dá em meio a intelectualidade brasileira, sem se importar em se fazer aceito ou estabelecer amizades, mas por se fazer constantemente atuante, mesmo que por vezes solitária, em desafinar o coro dos contentes. Pois como grande intelectual que era, sabia que ao exercício deste ofício, não cabe atuar de acordo com as expectativas vigentes ou as normativas impostas. Assim como não agir para satisfazer as expectativas que outros possam ter sobre sua práxis de pensador social. Para Moura, o ser intelectual se dá no sentido e na perspectiva de contribuir para suprir as demandas sociais de uma sociedade, que devem ser destacadas, confrontadas e superadas. O que no Brasil, pela sua ótica, se dá na perspectiva de contribuir para a finitude de nossas heranças escravocratas que se manifestam a partir dos conjuntos de nossas discriminações sociais cotidianas.

Crédito: Reprodução/Adande

Pensador social que tinha consciência plena da solidão que a prática sociológica acaba por carregar no exercício de sua função de destruir mitos, como a de sermos uma

democracia racial. Ao buscar tensionar e confrontar os alicerces de controle e alienação social, que numa sociedade de capitalismo tardio de origem estamental escravagista como a nossa, possuem fortes elementos característicos de viés racista.

É uma obra e trajetória intelectual, que nos revela uma das maiores crueldades do racismo brasileiro, o de que um negro que aja fora do que dele se espera socialmente, que atue fora dos padrões estabelecidos, é, desde sempre, categorizado enquanto um não cidadão. Exatamente por se opor a esse racismo estrutural alienante e desumanizante – que o impede de ascender socialmente e de se tornar de fato um brasileiro de pleno direitos e não de subcategoria. Se torna, duplamente, vitimado do sistema. Seja pelo fato social de ser um negro inserido a uma sociedade estruturalmente racista, ou quando exerce negação e conflita a essa condição. De um jeito ou de outro, sempre está marcado pelas garras desse monstro de mil olhos e braços, chamado racismo.

Clóvis Moura dá forma e sentido a sua produção de pensata para confrontar sem medo a esse dilema, sem tempo de descanso ante inimigo tão cruel e implacável. Por muitas das vezes não sendo nada fácil o preço a se pagar por isso. Como ele próprio sentiu por toda a sua carreira, ao ter sido sistematicamente impedido de ter circulada e recepcionada devidamente a sua obra, e até mesmo de ter reconhecido sua condição de intelectual pleno e não como – quando muito – mero militante, pelos setores hegemônicos da nossa intelectualidade acadêmica.

Mas Moura não se fez de rogado e a esse desafio. Nunca fugindo ou deixando de se fazer presente aos tantos debates e embates que se fizeram comuns em seu caminho de intelectual e militante de luta incessante contra o racismo endêmico brasileiro. Um legado intelectual, político, humanista e libertário, que em tempos contemporâneos de normalização fascista de preconceitos, e defesa explicita de ideários reacionários e racistas, se revela mais vivo, atual e necessário do que nunca!

E ao qual, não só por isso, mas também por isso, redigimos esse texto enquanto, singela, homenagem, a este pensador seminal. Que hoje se faz resgatado e revalorizado a partir de novas potências políticas e perspectivas intelectuais, exatamente por aqueles a quem optou em retratar suas historicidades e sociabilidades ao longo do conjunto de seus estudos e publicações.

Constituinte de um legado intelectual dos mais originais e sofisticados já produzidos por estas plagas. Além de fundamental para se buscar decifrar esse grande enigma civilizatório, que por vezes parecemos não ter resposta, chamado Brasil!

Ontem, hoje e sempre, VIVA CLÓVIS MOURA!

 

Christian Ribeiro é doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP. Professor titular de Sociologia da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

 

Bibliografia sugerida:

MOURA, Soraya. Um olhar sobre Clóvis Moura: história, família, militância comunista e a escrita da história do Brasil negro – Entrevista com Soraya Moura. Lutas Sociais, São Paulo, vol.27, n.50, p. 74-83, jan/jun – 2023.

MOURA, Clóvis. Brasil: raízes do protesto negro. São Paulo: Editora Dandara, 2023.

MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil negro. 2ª ed. São Paulo: Anita Garibaldi: Fundação Maurício Grabois, 2014.

MOURA, Clóvis. O Negro, de bom escravo a mau cidadão? Rio de Janeiro: Conquista,

1977. (Temas brasileiros, v. 21).

MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala (Quilombos, Insurreições, Guerrilhas). São Paulo: Edições Zumbi. 1959.

1 O que se comprova pela maior percepção da ocorrência de uma série de seminários, mesas-redondas, debates e produção científica ocorrendo em torno do conjunto de sua obra, além da sua trajetória intelectual e militante, não só no Brasil, quanto também no exterior. Sem contar com a (re)publicação constante, de sua obra produção bibliográfica.

 

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