ELEIÇÃO DE RUPTURA

O Chile nas urnas: desigualdade, ruptura e a disputa pelo futuro

A eleição é um marco, confirmando a perda das duas coalizões que dominaram a política chilena nos trinta anos após o fim da ditadura do general Augusto Pinochet e o retorno à democracia

Os chilenos foram votar no dia 16 de novembro e deram um claro recado nas urnas. Segundo o Serviço Eleitoral do Chile, esta foi a eleição com o maior comparecimento da história do país, com 85,4% de participação. Para a presidência, a candidata governista Janette Jara, do Partido Comunista, obteve quase 26,85% dos votos válidos, seguida de perto pelo ultradireitista José Antonio Kast, do Partido Republicano, com quase 23,92%. Os dois vão disputar o segundo turno. As forças de direita venceram nas eleições para renovação parcial da Câmara e do Senado, mas não alcançaram maioria absoluta. O fenômeno mais surpreendente foi Franco Parisi, candidato antissistema, que conquistou quase 20% dos votos presidenciais, transformando o seu Partido de la Gente em uma força decisiva no legislativo.

A eleição é um marco, confirmando a perda das duas coalizões que dominaram a política chilena nos trinta anos após o fim da ditadura do general Augusto Pinochet e o retorno à democracia. Muito se apontará para uma polarização crescente ou para a rejeição aos partidos tradicionais – e há de fato verdade nessas interpretações. Mas, o aspecto mais relevante talvez seja outro.

O resultado revelador está no surgimento de divisões regionais bastante acentuadas a partir do mapa eleitoral. De acordo com o Ministerio de Desarrollo Social y Familia, a pobreza não se distribui igualmente por região: por exemplo, na Região Metropolitana da capital Santiago a taxa de pobreza foi 4,4%, enquanto em algumas regiões do norte – como Tarapacá – e regiões rurais ela atinge valores muito mais elevados. Parisi venceu justamente no norte minerador, de vastas jazidas de cobre. Jara foi bem nas regiões centrais e mais populosas, contando com Santiago. Kast prevaleceu no sul agrícola, com exceção do extremo-sul e da região da Patagônia, que favoreceram Jara. Esses contrastes geográficos refletem não apenas as diferenças entre o rural e o urbano, mas espelham desigualdades socioeconômicas profundamente arraigadas.

O Chile que reverberou na América Latina com os protestos massivos de 2019, a chamada Revolução dos 30 pesos, é o mesmo país que testemunha, agora, uma eleição de ruptura. Em 2019, jovens e setores populares levantaram-se contra um sistema que parecia não escutá-los e incluí-los. A onda culminou em uma Assembleia Nacional Constituinte, cujas reformas resultantes foram rejeitadas nas urnas em 2022, revelando um abismo entre anseios populares e institucionalização na democracia. Por trás disso, pulsa um modelo econômico de implacável desagregação social, herdado da ditadura de Pinochet que sustenta uma enorme distância entre pobres e ricos.

Os números por trás das urnas

Para que esse diagnóstico não fique apenas no simbólico, vale trazer à tona os dados nacionais mais recentes sobre pobreza e desigualdade. Segundo a Encuesta de Caracterización Socioeconómica Nacional (CASEN) de 2022, a pobreza medida por renda está em 6,5%. Dentro desse montante, 2% da população vive em pobreza extrema. No entanto, a desigualdade permanece robusta: segundo a mesma CASEN, os 20% dos domicílios com maiores rendas ganham, em média, 8,2 vezes mais do que os 20% mais pobres. Esses indicadores mostram que a pobreza monetária está caindo, mas ainda atestam que a distribuição de renda é altamente concentrada.

Além disso, há uma disputa metodológica em curso: uma Comissão Assessora para a Medição da Pobreza, criada pelo governo nacional, propôs uma atualização nos critérios adotados pela CASEN. Se suas recomendações forem aplicadas, a taxa real de pobreza do Chile poderia subir para 22,3%, segundo estimativas do próprio órgão.

A proposta busca modelos estatísticos que sejam capazes de sobrepor vulnerabilidades, captando dimensões antes invisibilizadas, como a violação de direitos civis e exclusão e redes de proteção social. Esse debate mostra que o desafio chileno não é apenas reduzir a pobreza formal, mas lidar com as suas múltiplas dimensões.

Mulheres protestam no Chile. Atrás delas, a bandeira chilena em um céu azul. Elas vestem preto e vermelho.
Crédito: Paulo Slachevsky

E agora?

Historicamente, o capitalismo ofereceu a promessa de mobilidade: pequenos empreendimentos, camadas intermediárias, funcionalismo público e privado, todos fizeram parte de um estrato social que ganhou peso político ao longo do tempo. No entanto, esse modelo sempre esteve ameaçado pela concentração de capital.

O fordismo, como um modelo de desenvolvimento, com sua burocratização e organização institucional, permitiu a emergência de uma classe média estrutural, que legitimava o pacto social com o Estado, sobretudo no pós-Segunda Guerra Mundial. Mas o mundo pós-2008 mostrou os limites desse modelo: a crise financeira abriu caminho para o recrudescimento de movimentos autoritários, e a reorganização das direitas ganhou novos contornos a partir de um terremoto cujo epicentro se deu nos países ricos, causando efeitos nos conflitos internos da periferia em geral.

No Chile, essa dinâmica se manifesta com força. A esquerda, apesar de suas raízes históricas, parece ter falhado em responder à pauperização. Se viu limitada por um modelo partidário altamente burocratizante, com poucas condições de dialogar com as dificuldades cotidianas. Já as direitas radicais, capitalizaram o desalento, testando os limites da democracia. Kast, embora se dedique à política há décadas, se apresenta como uma resposta à crise de representação e identifica a sua política como uma continuação da obra do ditador Pinochet. Foi nesse espaço que ele contribuiu para transformar a direita tradicional chilena com uma plataforma que evoca comparações com líderes de países como Estados Unidos e Brasil, como Donald Trump e Jair Bolsonaro.

A candidata do Partido Comunista, Janette Jara, foi a mais votada para presidente no primeiro turno, mas obteve um percentual menor do que a aprovação do governo. Como ministra do trabalho no governo do presidente Gabriel Boric, mostrou capacidade de negociar ao aprovar em um Congresso sem maioria uma delicada reforma no sistema previdenciário, tornando-o menos desigual.

Jara está diante da hercúlea tarefa de costurar uma frente eleitoral ampla e heterogênea para frear as forças, agora em torno de Kast, que ameaçam os acordos mínimos da democracia. Ao mesmo tempo, ela precisará ser capaz de oferecer uma plataforma universalista balizada por pontos-chave, dialogando com os desafios reais da população: alto custo de vida com precariedade e informalidade no trabalho, criminalidade crescente e reformas institucionais para tornar a democracia mais inclusiva.

Para transformar o momento presente em uma virada histórica, sua proposta precisará oferecer empatia com a dor cotidiana e inspirar a governança capaz de oferecer rumo, isto é, construir uma aliança entre classes, ou frações delas, para que o Estado volte a se ocupar efetivamente das maiorias. Esse pode ser um campo de disputa privilegiada na arena política contemporânea para afirmar a nação como um conceito básico de democracia. Afinal, os valores republicanos de liberdade e igualdade impulsionam o sentido normativo da democracia.

Nos versos de Regreso, do diplomata e poeta Pablo Neruda, está: “ésta es, ésta es mi patria, aquí nací y aquí viven mis sueños”. O verso representa, em alguma medida, o desafio de transformar a disputa pelo futuro no voto a favor da democracia.

 

Rafael Pepe Romano é bacharel em Direito pelo Mackenzie, graduando em Ciências Sociais pela USP, trabalhou no planejamento de políticas públicas no Governo de São Paulo e atua em consultoria política.

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