GEOPOLÍTICA SUBMERSA

O continente africano é a fronteira a ser conquistada pela conectividade

Apenas 36% dos africanos têm acesso à internet, uma taxa significativamente inferior à média mundial de 75%

A facilidade de acesso à internet por meio de redes sem fio, bem como a praticidade de armazenar e acessar dados em qualquer lugar por meio da nuvem (cloud computing) nos remete à falsa ideia de que são os satélites que provêm o acesso à internet. Contudo, mais de quinhentos cabos submarinos de fibra óptica conectam países e continentes, suportando essa infraestrutura. Atualmente, 99% dos dados são transmitidos no ciberespaço por meio desses cabos. Além de nossas mensagens, comunicações sigilosas de governos também trafegam por essa rede submarina, e por onde US$ 10 trilhões são transferidos em transações financeiras diariamente.

Da comunicação ao entretenimento, passando pelas finanças e as questões relacionadas à defesa, as sociedades são cada vez mais dependentes do ciberespaço. Essas transmissões viajam em velocidades de milissegundos por entre os abismos submarinos. No leito dos oceanos, cabos de fibra óptica em distâncias que podem variar entre 4 mil e 8 mil metros de profundidade, são, também, um dos vetores da inovação e um elemento necessário para o alcance e sucesso da economia digital.

No livro The Undersea Network, Nicole Starosielski diz que as rotas de cabos foram moldadas pela política territorial e que os laços políticos estabelecidos facilitaram o desenvolvimento da comunicação internacional.[1] No entanto, nos últimos anos, a relevância cada vez maior do domínio cibernético e o aumento do acesso à internet nos países do Sul Global transformaram a rede submarina em um campo de competição geopolítica, especialmente entre China e Estados Unidos. Além disso, a inversão nas propriedades dos cabos, a partir dos anos 2000, transformou empresas de tecnologia como Google, Meta, Microsoft e Amazon em proprietários ou sócios de consórcios de cerca de 66% dessas infraestruturas globais.

De acordo com dados do International Telecommunication Union (ITU), apenas 36% dos africanos têm acesso à internet, uma taxa significativamente inferior à média mundial de 75%. Contudo, essa ordem se inverte quando falamos da construção de cabos submarinos no continente africano. Segundo dados da consultoria especializada TeleGeography, a África se consolidou como o mercado de crescimento mais rápido do mundo para conectividade internacional. Entre 2019 e 2023, a capacidade de largura de banda do continente cresceu a uma taxa anual composta de 44%, superando todas as outras regiões globais. Esse crescimento foi impulsionado por um ciclo de investimento estimado em torno de US$ 13 bilhões, entre 2019 e 2023, em novos sistemas de cabos submarinos, como o 2Africa (construído pela Meta) e o Equiano (de propriedade do Google), que visam atender a uma demanda reprimida que cresce mais rápido do que em qualquer outro continente.

Nesse cenário, a construção de cabos submarinos no continente africano se torna o palco de um novo jogo de poder que coloca a conectividade no topo dessa disputa. Desde 2012, quando impediu a HMN Tech (anteriormente chamada Huawei Marine Networks) de fazer a manutenção de um cabo que conecta Estados Unidos e Canadá a Londres, a Casa Branca busca dificultar a instalação e operação de novos cabos por empresas chinesas, alegando questões de defesa nacional. Contudo, após ser proibida de operar em território estadunidense, a estratégia chinesa concentrou-se no Sul Global, onde o desejo por conexões alternativas aos Estados Unidos é crescente desde as revelações de Edward Snowden sobre a espionagem de Washington em 2013.

O Brasil, envolvido nos episódios da espionagem e que dependia totalmente da infraestrutura dos Estados Unidos para acessar a internet, decidiu ampliar suas conexões, voltando-se para o Sul Global. Nesse contexto, em 2018, foi construído o cabo SACS (South Atlantic Cable System), interligando o Brasil e Angola e tornando-se o primeiro cabo sul-sul entre a África e a América do Sul (a japonesa NEC foi a empresa escolhida para o projeto, superando a chinesa HMN Tech na disputa). Contudo, a HMN Tech retomou o avanço em 2020, ao construir o cabo SAIL (South Atlantic Inter Link), uma segunda conexão sul-sul entre o Brasil e Camarões. O SAIL, com 5.800 km, interligando diretamente a África à América Latina sem passar pelos Estados Unidos e Europa, reduziu drasticamente a latência sul-sul, tornando-se um grande marco técnico para a empresa chinesa.

Segundo Jonathan E. Hillman, autor do livro Rota da Seda Digital,[2] a construção do cabo SAIL, foi o grande marco técnico da HMN Tech, até aquele momento. Além disso, o autor considera que o SAIL estabelece um novo componente estratégico, pois agora, por meio da América do Sul, a China detém uma rota conectada diretamente à infraestrutura de internet que passa pelos Estados Unidos.

Neste sentido, o cabo PEACE é outro marco tecnológico e geopolítico da China. Construído em 2022, a infraestrutura de 25 mil km conecta Ásia, Oriente Médio, África e Europa. Os Estados Unidos trabalharam para impedir que o cabo chegasse até o porto de Marselha, na França, alegando que poderiam estar expostos à espionagem chinesa. Nesse sentido, os cabos chineses aterrados em locais estratégicos como no Djibuti representam um desafio significativo para a transmissão de dados de defesa. Os Estados Unidos possuem uma rede de cabos exclusiva para uso militar na região, no entanto, são dependentes da iniciativa privada para o envio desses dados, que podem acabar passando pelos centros de dados chineses instalados na região. Segundo Hillman, os países dependem cada vez mais de cabos submarinos para a execução de suas operações militares.

Crédito: Walt Ratterman, Sunepi/USAID

O interesse da China na África faz parte do seu projeto da Rota da Seda Digital (Digital Silk Road – DSR), voltado para a conectividade global por meio da expansão de cabos submarinos, redes 5G e data centers, visando a coleta de dados e o estabelecimento de seus padrões tecnológicos. É importante notar que a DSR é o braço de tecnologia e infraestrutura de comunicação da massiva iniciativa global chinesa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), que busca integrar economicamente países por meio de projetos de infraestrutura. Nesse contexto, a África possui pontos estratégicos cruciais para a internet. O Egito, por exemplo, oferece a rota mais curta para cabos entre Ásia e Europa, conectando-se também à África e ao Oriente Médio. Dados do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) consolidam o país como um ponto de estrangulamento global (choke point) para os sistemas de cabos submarinos, sendo responsável por cerca de 17% do tráfego global. Além disso, 90% das comunicações Ásia-Europa passam pelos cabos que aterrissam no Egito.

Enquanto a China busca expandir sua conectividade interligando países do Sul Global, os Estados Unidos, que não possuem cabos conectados à África, trabalham para impedir o avanço das redes chinesas no continente. Em 2020, por exemplo, a HMN Tech apresentou o melhor projeto para o SeaMeWe-6 – um cabo de 21 mil km ligando Singapura à França, que seria o maior da empresa. No entanto, a Casa Branca, preocupada com a possibilidade de espionagem, usou sua influência para transferir o contrato para a estadunidense SubCom. Além disso, o país, por meio da FCC (Federal Communications Commission), passou a impedir a conexão de cabos com Hong Kong, bem como a exigir uma análise rigorosa de segurança (securitização) para aceitar novas conexões em seu território.

Nesse cenário de competição pela conectividade, fundamental para a economia digital, o avanço da inteligência artificial e a defesa, os países buscam evitar a espionagem e a coleta de dados pelos adversários. Dessa forma, os novos cabos construídos pela China, ao evitarem zonas de influência estadunidense e estabelecerem seus próprios caminhos para a rede global, podem se tornar um problema em caso de aumento da polarização entre China e Estados Unidos. Isso porque os países poderão ser obrigados a escolher qual caminho utilizar para a internet, o que pode levar à negação de acesso por determinadas redes, no fenômeno chamado de “fragmentação da internet”.

Por causa da sua necessidade de conexão, a África é indiferente com essa disputa e emerge como um ator com poder de barganha crescente ao ser um polo de investimento para a infraestrutura de conectividade global. Por outro lado, além do continente possuir os pontos de estrangulamento mais importantes do planeta, como os já mencionados Djibuti e o Egito, que são vitais para a conectividade regional, possui uma grande quantidade empresas estatais de telecomunicações que fazem parte dos consórcios dos maiores cabos que aterrissam no continente, como a Telecom Egypt, que participa de grandes projetos como o 2Africa, entre outros que conectam Ásia, Europa e África.

No Brasil, o mercado de cabos é majoritariamente privado, com o Ministério da Comunicações e a Anatel atuando na regulação, mas não na operação dessas infraestruturas. Para se ter um exemplo, a Angola Telecom, uma empresa estatal angolana, é a principal acionista do consórcio Angola Cables, responsável pelo cabo SACS, demonstrando o envolvimento de uma estatal africana na infraestrutura sul-americana. Outros exemplos da América do Sul são a empresa estatal chilena Desarrollo País que, em parceria com o Google e outras privadas, está construindo o projeto do cabo Humboldt, que vai conectar o continente à região Ásia-Pacífico. O Uruguai, com a operadora estatal Antel, foi parceiro no projeto do cabo Tannat, que liga o Brasil ao Uruguai e à Argentina e foi construído pelo Google e Telxius. Existem exemplos de Venezuela e Equador, contudo, são as empresas privadas e gigantes da tecnologia, como Google e Meta, que são os principais impulsionadores da instalação de novos cabos na região.

Diante do cenário de intensa polarização e competição geopolítica submarina entre China e Estados Unidos, o continente africano emerge como um polo de investimento crucial para a conectividade global. Apesar dos desafios persistentes para a universalização da internet em seu território, a África tem sido o destino dos maiores aportes financeiros em novos sistemas de cabos nos últimos anos. Essa centralidade impõe ao Brasil a necessidade estratégica de consolidar e expandir suas conexões para além da tradicional dependência do eixo Norte Global, priorizando rotas diretas com o Sul Global.

Neste sentido, a busca por uma maior autonomia digital demanda ações concretas no âmbito da política e da legislação. O debate sobre o status dos cabos submarinos como infraestrutura crítica – algo ainda não explícito na legislação brasileira – torna-se urgente. A aprovação de políticas específicas, como o Projeto de Lei nº 270/2025 que institui a Política Nacional de Infraestruturas de Cabos Subaquáticos (PNICS), atualmente paralisado na Câmara dos Deputados, e a consideração da Tomada de Subsídios do Ministério das Comunicações sobre o tema, são passos fundamentais para organizar e proteger o setor.

Em última análise, as oportunidades do Brasil não se limitam apenas ao estabelecimento de novas conexões com a África. A vulnerabilidade exposta pela espionagem e a crescente privatização dessas redes, majoritariamente nas mãos de big techs, levantam a questão do controle. Para evitar ser forçado a escolher um lado na crescente polarização e o risco de uma “fragmentação da internet”, o Brasil pode e deve considerar um maior controle estatal ou uma participação mais ativa na governança dessas infraestruturas, garantindo a soberania e a segurança de sua economia digital.

 

Cícero Araujo Lisboa é doutorando e mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande Sul (PPGEEI/UFRGS). Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas e Relações Internacionais do Sul Global (Neprisul) da UFRGS. Também é colaborador do grupo de pesquisa Papo de Defesa e atua como analista de cibersegurança e riscos.

[1] STAROSIELSKI, Nicole. The Undersea Network. [S. l.]: Duke University Press, 2015.

[2] HILLMAN, Jonathan E. A Rota Da Seda Digital. O Plano Da China de Conectar o Mundo e Dominar o Futuro. Belo Horizonte: VESTíGIO EDITORA, 2022.

Leia mais sobre o tema: