O desafio de enfrentar uma oposição reacionária

Na mente da direita

O desafio de enfrentar uma oposição reacionária

Chile | Chile
por Álvaro Ramis
17 de março de 2022
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O governo do partido Apruebo Dignidad, chefiado pelo presidente Gabriel Boric, acabou de assumir o cargo. Há muita esperança e vontade nessa equipe capaz e decidida. Mas ela terá pela frente uma oposição frontal, na qual se manifesta pela primeira vez a ação direta do Partido Republicano, liderado por Antonio Kast, que se apresenta à opinião pública com o aval de 44% dos votos obtidos no segundo turno das eleições. José Antonio Kast e seu partido são um grupo conservador? Ou fascista? Analisar esse campo é necessário para avaliarmos sua atuação e caracterizarmos o tipo de coisa que eles estão dispostos a fazer e suas alianças com outros partidos, inclusive seus apoios internacionais.

De certa forma, Kast e o Partido Republicano não são uma anomalia na história da direita chilena. Se rastrearmos a racionalidade desse setor ao longo dos séculos XIX e XX, veremos que, em seu centro, chegar a uma liderança como essa faz bastante sentido. Um escritor que nos ajuda a compreender tais processos é Corey Robin, autor de The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Donald Trump [A mente reacionária: o conservadorismo de Edmund Burke a Donald Trump], já que o espelho trumpista reflete com muita nitidez o que representam líderes como José Antonio Kast sem afirmar, pura e simplesmente, que sejam líderes conservadores tradicionais ou então fascistas de camisas pardas.

Corey assegura que o substrato da mentalidade da direita não deve ser buscado em Milton Friedman, Friedrich von Hayek ou os neoliberais de Chicago: esses não passam de instrumentos e promotores de uma política estratégica mais profunda. Tampouco é o conservadorismo acadêmico, como o de Roger Scutton, que alimenta o pessimismo da razão ante a perspectiva de um futuro imprevisível. O coração da direita deve ser procurado na fonte de seus medos e em suas motivações íntimas. Por isso, é mais proveitoso revisitar Edmund Burke, principal adversário da Revolução Francesa. Nas páginas da história, ele é apenas um personagem honrado, para quem as coisas deviam continuar como estavam, em boa ordem. Mas, na realidade, Edmund Burke era bem mais agressivo e violento do que parece.

José Antonio Kast se encontrou com Jair Bolsonaro em 2018 (Reprodução Redes Sociais de Kast)

Desde os primeiros movimentos de reação à Revolução Francesa, desde o começo da política moderna, a direita não se limitou a preconizar um governo limitado, a falar em liberdade do indivíduo, a tentar estabelecer restrições à ingerência estatal. Ela não é de modo algum o movimento dos “prudentes e moderados”: sua ação sempre visou à criação de uma oposição frontal a todos os movimentos que buscam reestruturar as relações de poder em uma sociedade, de baixo para cima. Sua identidade se define pelo combate aos movimentos que questionam as hierarquias. É isso que une desde os opositores a Balmaceda em 1891, os fazendeiros durante a reforma agrária, os comerciantes e caminhoneiros durante a Unidade Popular, passando pelo pinochetismo, até José Antonio Kast. O que se vê é continuidade. Daí se conclui que a direita é visceralmente reacionária. Por isso, os grupos de direita liberal fracassam ou são efêmeros, não logrando levantar voo. O mundo que a direita representa é endemicamente hostil, antes de tudo, à emancipação dos subordinados da sociedade.

Quem são esses subordinados, que podem mudar com o correr do tempo? Ontem, os trabalhadores. Mais recentemente, os mapuches, as mulheres, os migrantes, os jovens. Nesse sentido, Kast se encaixa perfeitamente nos padrões reacionários da direita tal qual ela existe desde o século XIX e, em especial, da direita nascida nos anos 1960 e 1970.

As roupagens públicas dessa direita surgiram com base na defesa do tradicional, da prudência racional, contra o extravagante, as ideologias. Mas isso é só aparência: o grande temor dos reacionários são as pessoas que dizem: “Temos direito a nos governar. Opomo-nos à subordinação”. Para eles, estamos às voltas com uma crise civilizatória e o que realmente importa é a defesa da hierarquia (e, nessa luta, recorrem a Platão e Aristóteles), embora estejam também dispostos a fazer uma revolução violenta contra os que se opõem.

 

A esquerda diante da direita reacionária

Um erro grave da esquerda, e que tanto o novo governo quanto a não podem cometer, é minimizar o sentimento de perda e os efeitos emocionais gerados na base de apoio da direita chilena. O que temos aqui não é um produto da imaginação dessas pessoas. Psicologicamente, é uma experiência real, embora não concreta em termos políticos. Quem se sente, real ou ficticiamente, no topo de uma hierarquia e passa a suspeitar que pode descer a um nível inferior vê isso como uma perda real, que afeta um núcleo emocional concreto.

Essa sensação de perda não ocorre apenas em pessoas ricas ou em magnatas. Gente de todas as camadas sociais vivencia emocionalmente perdas reais de poder: homens mais velhos que se julgam preteridos por jovens, chefes que temem a insubordinação de seus funcionários, administradores do cotidiano que ficam inseguros em um mundo desobediente. Há também o macho preconceituoso que, impedido de contar suas piadas machistas e fazer suas brincadeiras homofóbicas, diz que tudo está indo longe demais, que já não se pode dizer nada. A direita sempre foi muito eficiente em aproveitar esse tipo de sentimentos de perda. Abascal, Erdoğan, Putin, Trump, Zelenski, Kast – nesse campo, não há grandes diferenças de estratégia.

A razão do domínio de quem possui a maior hierarquia de poder é a capacidade de conectar sua experiência com a de outros níveis, com pessoas que não estão totalmente à margem e que, sem ser excluídas, realmente não têm possibilidade alguma de se tornar proprietárias ou altos executivos de suas empresas. Essas pessoas, pelo menos, gozam dos pequenos privilégios de mandar no dia a dia, em sua casa ou no escritório. O privilégio da pele mais branca, o privilégio da masculinidade, o privilégio da juventude, o privilégio de morar num bairro menos pobre que o de seu concorrente, o privilégio de ser chileno e não estrangeiro, o privilégio de ser “cristão” e não “um gay depravado”… Essa não é uma experiência que diz respeito apenas ao bolso ou ao montante do salário no fim do mês.

A direita acumula uma longa tradição na capacidade de se conectar com essas emoções e os mais liberais do setor acabam cedendo a elas, com absoluta indiferença e com total disposição a contradizer-se sem um pingo de vergonha – pois essa corrente emocional é mais forte que seus argumentos racionais e domina-os sem que eles o percebam.

Assim, a ferramenta de trabalho da direita sempre se orientou no sentido de gerar hostilidade em relação à razão, como base de todo o aparato de pensamento contrarrevolucionário. Por isso, em vez de defender o que existe hoje, sua força consiste em prometer mudar o mundo como é agora e transformá-lo naquilo que “deve ser”. Daí sua hostilidade ao mundo tal qual existe. Um núcleo utópico de pessoas como Johanes e Axel Kaiser, Diego Schalper e Teresa Marinovic não é meramente defensivo; essas pessoas repetem diariamente: “Nós, da direita, vamos imaginar um mundo diferente e criá-lo”.

Portanto, a esquerda não pode desprezar as comunas que votaram na direita nesta última eleição, não pode declarar perdidas as zonas da Araucânia e de Tarapacá, onde a direita prevaleceu. Isso seria uma forma de elitismo que desdenha esse mundo como uma “massa irracional” direitista. A nova direita radical, o Partido Republicano, é a melhor continuidade da UDI original, que montou instituições e aparatos políticos eleitorais muito poderosos. Vincula-se à nova “Direita Cristã” evangélica, que lhe dá apoio e infraestrutura em territórios críticos. Além disso, possui uma liderança como a de JAK, nada desprezível. Sua chave discursista consiste em argumentar retoricamente. Insistem em que “defender a soberania não é ser racista, pleitear a liberdade não é ser xenófobo, proteger o país não é ser fascista. Chamar-nos assim é uma insígnia de honra”. Entretanto, na prática, a conduta rude que adotam não pode ter outros nomes senão racismo, xenofobia e fascismo. Alguma coisa não vai bem quando a descrição de uma conduta já não produz nenhum efeito em quem a executa.

Esse projeto é o mesmo dos “amarelos” liderados por Cristián Warken, que converteram a acusação de indefinição em identidade claramente reacionária.

 

As fraquezas dessa direita

Embora esse adversário pareça formidável, tem muitas fraquezas. A mais evidente é sua crise de paradigma para sair da crise. No contexto chileno se observa um alto nível de insatisfação e desaceleração do crescimento, problemas não resolvidos por Piñera. O mercado parece inerte, pois já privatizaram tudo o que se podia privatizar, desregulamentaram tudo o que era possível desregulamentar, arrancaram todos os frutos da árvore e a única coisa que lhes resta fazer é cortar o tronco para vendê-lo como lenha. Isso explica a falta de um projeto estratégico de desenvolvimento. Não há mais nada que possam oferecer para o futuro.

Ao mesmo tempo, não há igualmente nada a dizer a quem pode ganhar muito no processo de mudanças. Não há também nada para entregar às pessoas que buscam formas de sair da segregação social e que não se encontram necessariamente só nos setores mais pobres da sociedade. É fácil, para a direita atual, permanecer no espaço de defesa de sua identidade. Mas, no contexto do presente, o futuro não depende apenas de vontade. Na década de 1970, bastava a força militar, um apoio determinante que a direita se dispunha a usar não importava quanto isso custasse. Hoje, a realidade é muito diferente, por razões internacionais e também endógenas, que nem sempre são adequadamente avaliadas.

O desafio político no momento, tanto para o êxito do processo da Nova Constituição quanto para o do governo do Apruebo Dignidad, mede-se por saber cortar os fios do circuito do “sentimento de perda” que a direita procurará instalar. Esses fios unem o milionário de La Dehesa ao guarda da firma que vê seus vizinhos como inimigos. Trata-se de um vínculo de cumplicidade entre o gerente florestal e o camponês pobre, não mapuche, para quem as comunidades indígenas são seus piores adversários. É o laço de confiança entre o dono da empresa de caminhões e seus motoristas, todos prontos a rir das mesmas piadas machistas e racistas. É desse nível de micropolítica que se alimenta a direita e abalá-lo pode ser a chave do êxito do processo de mudanças.

 

Álvaro Ramis, reitor da Universidad Academia de Humanismo Cristiano

 

Tradução do espanhol por Frank de Oliveira

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