O deserto da imaginação e as ruínas da universidade neoliberal
Sob o neoliberalismo, a universidade deixou de ser refúgio dos “excêntricos” e transformou-se em fábrica de autopromoção. O pesquisador, em vez de intelectual público, converteu-se em gestor de si mesmo
Há um silêncio estranho que atravessa os corredores da universidade. Não é o silêncio fértil da pesquisa em gestação, nem a pausa necessária de uma biblioteca que guarda segredos. É um silêncio saturado de ruídos artificiais: o clique incessante de formulários digitais, o acúmulo de PDFs em repositórios, a sucessão interminável de congressos que repetem fórmulas gastas. Publica-se como nunca; pensa-se como nunca tão pouco. O que antes era obra transformou-se em produto; o que antes era criação tornou-se estatística.
Sob o neoliberalismo, a universidade deixou de ser refúgio dos “excêntricos” e transformou-se em fábrica de autopromoção. O pesquisador, em vez de intelectual público, converteu-se em gestor de si mesmo. Administra sua vida como uma empresa, contabiliza citações como moedas, transforma relatórios em capital simbólico. Não há mais tempo para o fôlego longo de uma obra; o tempo agora é o do ciclo quadrienal, do edital, da métrica.
Marx já havia diagnosticado essa condição: o trabalho que não pertence mais ao trabalhador, mas ao capital. Hoje, o pesquisador escreve sem se reconhecer no que publica; fala sem ser ouvido; produz sem dialogar. É o trabalho alienado em sua forma acadêmica: a teoria como mercadoria, o artigo como moeda, o currículo como mercadoria-espelho.
E, no entanto, nem sempre foi assim. No passado, havia frestas que poderiam ser mais exploradas do que atualmente. Florestan Fernandes dedicava anos à elaboração de livros que não eram apenas reflexões sociológicas, mas instrumentos de intervenção histórica. Miguel Nicolelis, com seus projetos de grande fôlego, recusa a lógica imediatista da produtividade compulsiva, apostando na ciência como um agente de transformação social. Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, com suas pesquisas de longa duração e campanhas de saúde pública, lembravam que a ciência é antes de tudo compromisso com a vida social, e não corrida por estatísticas. Cada um deles habita, hoje, o lugar da quase impossibilidade: seriam punidos pelo tempo que ousaram dedicar à obra, seriam penalizados por publicar “pouco”, seriam corrigidos por não obedecerem ao formato imposto pelas métricas.
O neoliberalismo não privatizou apenas empresas, não flexibilizou apenas direitos: colonizou o próprio tempo da criação. A universidade tornou-se engrenagem de uma economia do conhecimento que não emancipa, mas captura. Livros valem menos que artigos, aulas contam apenas se registradas em relatórios, pesquisas só ganham sentido se adaptadas a critérios internacionais. A imaginação, que deveria ser força de insubmissão, é reduzida a performance mensurável.
O resultado é uma queda da taxa de lucro intelectual, como bem disse David Graeber [1]. Multiplicam-se artigos, revistas, dossiês, congressos – mas escasseiam obras que atravessem o tempo, que abram horizontes, que falem à vida social. É a escolástica neoliberal: comentários sobre comentários, notas de rodapé produzidas em série, textos que se acumulam como mercadorias sem uso. A abundância de produção não gera riqueza de ideias, mas um deserto saturado, um vazio ruidoso em que todos publicam e ninguém lê.

Nesse deserto, o excêntrico não sobrevive. Aquele que ousa escrever em estilos híbridos, que se arrisca em obras monumentais, que atravessa fronteiras disciplinares é tratado como improdutivo, inadequado, anacrônico. A universidade, que um dia pôde abrigar rebeldes e desajustados, tornou-se aparelho de padronização e controle.
E, no entanto, a vida insiste. Entre as ruínas da universidade neoliberal, surgem fissuras: grupos de leitura que se encontram sem preocupação com relatórios; aulas em que a imaginação sociológica escapa da prova e se torna descoberta; livros escritos contra a corrente, como insistência quase anacrônica na lentidão necessária ao pensamento. São pequenas brechas, mas nelas pulsa o que o neoliberalismo não pode capturar: a potência da teoria e da pesquisa como gesto de insubmissão.
Talvez o tempo das grandes “catedrais intelectuais” esteja no fim. Talvez não surjam mais sistemas monumentais como outrora – o que não necessariamente é ruim. Mas isso não significa resignação. Significa recuperar a coragem de escrever contra o cálculo, de pensar contra a estatística, de recusar a servidão voluntária às métricas. Florestan, Nicolelis, Cruz e Chagas não são ídolos de um passado idealizado, mas são sinais de que a obra intelectual só floresce quando não se curva inteiramente à lógica do imediato.
A universidade neoliberal nos oferece números; cabe a nós insistir naquilo que não se deixa medir. Contra a morte lenta da imaginação, resta a fidelidade a uma possibilidade: a de que o pensamento, mesmo aprisionado em planilhas, ainda pode ser faísca, ainda pode incendiar consciências, ainda pode se abrir como gesto de emancipação. Pensar é sempre um ato de combate – e toda obra que vale a pena nasce não do cálculo, mas da insistência em transformar a vida.
Gabriel Teles é doutor em Sociologia pela USP, professor e pesquisador pela UnB, bem como editor de revistas científicas. Contato: [email protected]
[1] Disponível em: https://thebaffler.com/salvos/of-flying-cars-and-the-declining-rate-of-profit.

