Juventude negra

O direito de sonhar

Sonhar para a juventude negra é um caminho para romper as amarras mentais do racismo, mas estes sonhos precisam ser materializados em políticas públicas

Sempre que alguma mudança brusca atinge minha vida, busco construir um caminho reflexivo sobre minhas ações. Afinal, como já nos ensinava Paulo Freire ao pensar uma pedagogia da autonomia, ser autônomo exige coragem e determinação numa realidade de erros e acertos em constante aprendizado. É por conta disso, que este texto estava guardado há uns três meses e apenas decidi publicá-lo ao mundo hoje.

É preciso que a juventude negra tenha direito de sonhar. E sim, afirmo como um direito do ponto de vista amplo por compreender que o direito à vida preexiste à possibilidade do sonho. Num cenário do qual a juventude negra é alvo das instituições, do Estado e do imaginário racista instalado na sociedade, compreender a necessidade do sonho desses jovens é possibilitar um caminho de encruzilhada entre o ser, poder e querer.

O ser, poder e querer se encontram nas encruzas pelas condições sociais, econômicas e políticas que lançam sobre os corpos possibilidades distintas de acesso, como aponta Carla Akotirene. Lembro-me que quando criança, ao ser perguntado sobre o que eu queria ser quando crescesse, dizia que queria ser presidente do país. Na época, a minha principal referência de presidente era Lula, um trabalhador, nordestino, que tinha rompido as barreiras de uma sociedade economicamente desigual por um sonho coletivo de mudança.

O sonho de criança ficou para trás diante das realidades materiais do poder e ser. Outros sonhos apareceram de forma muito mais organizada e racional, afinal, sonhar é o início de qualquer planejamento. Dentro desses sonhos, se concentrava a vontade de ser advogado; ter uma carreira acadêmica. Pouco a pouco, fui realizando um a um e ainda estou em projeto de realização de vários outros. No entanto, essas realizações só foram possíveis porque tive pessoas que me cercaram e disseram “você pode!” e políticas públicas que sustentaram a garantia desses sonhos.

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Essas pessoas são extremamente importantes e muitas das vezes passam batidas nas nossas vidas. O “você pode!” de alguém pode mudar a vida de um jovem que foi ensinado a apenas sobreviver para comprar o “ganha pão” de amanhã. E vejam, não estou aqui dizendo que sonhos colocam comida na mesa, mas afirmando que é possível colocar comida na mesa e ter o direito de sonhar. Igualmente, concordo que para muitos comer é um sonho.

Escutei uma vez de uma pessoa que “governos não mudam a vida de ninguém, apenas o trabalho”. Em partes, com um olhar muito focado no “ganha pão”, esta pessoa não estava completamente errada. O trabalho é a principal possibilidade de reconhecimento da autodefinição de uma pessoa na sociedade. Por conta disso, construir políticas públicas de garantia de trabalho digno para as pessoas é tão importante. Entretanto, governos que pensam na produção de políticas públicas interseccionais conseguem sim mudar a vida de alguém.

É por conta disso que, ao tratar sobre sonhos, escolho materializá-los na construção de políticas públicas. As políticas públicas visam resolver os chamados “problemas malditos”, são constituídas por “fluxo contínuo de decisões e procedimentos dos quais é necessário tentar descobrir o sentido” (MULLER, 2018, p.27). A construção dessas políticas públicas se constitui por um ciclo formativo que vai da construção da agenda até a avaliação. Em todo esse percurso encontram-se sonhos coletivos organizados em agendas que possibilitam a construção de novas perspectivas.

As políticas públicas em relação à atuação do governo é o “você pode!” estatal. É a partir dessas políticas que é possível propor mudanças nas estruturas sociais e lançar mão do trabalho de construir outras realidades possíveis para aqueles que aprenderam que há uma estática na formulação de um lugar social. Um exemplo interessante para se ver em ação foram as políticas educacionais e as políticas de ações afirmativas. Não são poucos os relatos de filhes de trabalhadores pobres que viraram doutores. Há uma história de construção de negras e negros que adentraram nas universidades pelas ações afirmativas de cotas étnico raciais e hoje se apresentam ao mundo como sujeitos de sua própria história. Então, sim, governantes bons possibilitam mudanças de vida.

Quando afirmo que sonhar para a juventude negra é um caminho para romper as amarras mentais do racismo, busco afirmar que é preciso reivindicar o direito a sonhar e materializá-lo em políticas públicas. As agendas constituídas por um coletivo já foram o sonho de muitos que não se deixaram levar pela automatização da vida. Nós não somos máquinas de enriquecer os mais ricos, somos produtores de uma história que ainda há de ser contada. Então, sonhar é preciso.

 

Ícaro Jorge da Silva Santana, advogado, é doutorando em Direitos Humanos e Cidadania e docente colaborador do GPP/UnB.

 

MULLER, P. As políticas públicas. Niterói: Ed. UFF, 2018. p.23-84.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade? Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2018.

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