Paulo Freire: a educação é política - Le Monde Diplomatique Brasil

CENTENÁRIO

Paulo Freire: a educação é política

por João Lorandi Demarchi
28 de abril de 2021
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Toda a teoria, as atuações e os conceitos desenvolvidos por Paulo Freire ao longo de sua vida consideraram sempre a educação nas suas relações com as questões sociais. Na sociedade capitalista, por exemplo, a educação foi analisada como uma das grandes formas de manutenção das desigualdades sociais. Mas, por outro lado, para Paulo Freire, a educação poderia contribuir para a subversão das opressões, para as pessoas serem mais e para a transformação social

Em setembro próximo comemora-se 100 anos do nascimento de Paulo Freire, inigualável educador brasileiro. Karl Marx afirma que a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa. E é isso que se verifica na relação de Paulo Freire com o Brasil. Contradições da recepção de sua obra: tão lido no mundo todo e tão atacado e desprezado no seu próprio país.

O ato da tragédia, o primeiro, foi durante a ditadura civil-militar (1964-1985) em que ele teve que abandonar o cargo que ocuparia em Brasília, no governo de Jango, e fugir do país por causa de seus ideais e de sua atuação. Já a farsa, que imita o caráter persecutório autoritário da ditadura, tem se desenrolado há alguns anos e se acentuado recentemente.

Ao longo dos últimos anos algumas críticas ignóbeis, fruto de intepretações insipientes e mal intencionadas, foram tecidas sobre a sua obra. Livros insignificantes foram escritos com a pretensão de descontruir sua pedagogia. Políticos neoconservadores repetem a acusação de seu trabalho era doutrinário, comunista e subversivo, ignorando-se tudo o que isso significa. Apesar de ele ter sido considerado patrono da educação brasileira em 2012, suas contribuições são atacadas por grupos reacionários bem financiados. Paulo Freire foi alçado ao posto de maior inimigo do desprezível movimento escola sem partido, que esquizofrenicamente defende uma educação neutra, despolitizada e, por fim, estéril.

Como tragédia ou como farsa, a grande pretensão é sistematicamente silenciar a “pedagogia do oprimido”. Ao chegarmos no centenário de Freire sem comemorarmos – “lembramos juntos” – sua obra, estamos contribuindo para o seu esquecimento. E esquecer a contribuição de Paulo Freire é, para além disso, desprezar um projeto de sociedade democrática e igualitária.

 

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O livro O educador: um perfil de Paulo Freire, de Sérgio Haddad, publicado em 2019 é uma das últimas biografias sobre o patrono da educação brasileira. Esta já distante publicação, como contou o próprio autor no podcast Guilhotina, era um projeto de estudo sobre a trajetória e toda a obra de Paulo Freire que, previa-se, resultaria em três volumes! Uma biografia tão extensa quanto a própria produção do biografado. Mas o arrefecimento do poder de compra por causa da crise econômica e – é preciso que seja dito – a própria desvalorização da obra freiriana fez com o projeto encolhesse. O resultado foi um livro muito bem escrito e bem fundamentado, porém pequeno e sucinto. Um ótimo livro de apresentação do intelectual instigante que foi Paulo Freire. Cumpre eficientemente esse objetivo, mas é insuficiente ao necessário aprofundamento exaustivo que a obra freiriana merecia. A biografia, como o próprio título indica, é um perfil do percurso de vida articulado ao desenvolvimento das ideias de Paulo Freire.

Antes dessas serem uma crítica ao encolhimento do projeto do livro, elas são uma chamada de atenção a todos nós concidadãos de Paulo Freire. Será que o Brasil ainda não está à altura de Paulo Freire?

O professor Jaime Zitkoski, no livro Paulo Freire e educação, de 2007, observou que “a pedagogia proposta por Freire hoje passa a ser uma obra coletiva, que não tem apenas uma autoria pessoal, mas que se tornou conhecimento que impulsiona movimentos, ações e projetos de caráter público em prol dos processos de humanização das sociedades contemporâneas”. Esse otimismo, a grandeza de referência e de estímulo de Paulo Freire se restringem a uma parte de educadores, mas deve ganhar qualidade no debate público. As recentes críticas infundadas não teriam espaço em uma sociedade que reconhecesse o valor das suas propostas e tivesse como objetivo realizá-las. O seu legado ainda é muito potente para transformarmos nossa sociedade. E, nesse sentido, o livro de Sérgio Haddad, ao tratar de conceitos-chave da teoria freiriana, possui uma contribuição relevante para a reversão do deliberado desprezo social com a obra de Paulo Freire.

 

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Na proposta de educação de Paulo Freire, a alfabetização, aprender a ler a palavra, não pode ser alheada à leitura do mundo. Ler significa inseparavelmente tomar consciência do contexto cultural em que os educandos estão inseridos para que aprendam também a identificar as desigualdades sociais e o que as sustenta.

A principal denúncia de Paulo Freire é sobre o modelo de educação hegemônico, a educação bancária, que contribui para a reprodução da desigualdade social. E isso só é possível porque fundamenta-se na desumanização dos educandos, no seu menosprezo como sujeitos cognoscentes no processo educativo. São sistematicamente tratados como incapazes de analisar sua condição histórica e, portanto, de transformá-la. Isso justifica ações paternalistas e heteronômicas.

Outro princípio dessa educação tradicional, para Paulo Freire, é a pretensão ideológica da sua neutralidade. Ele anunciava claramente que a educação não é política por decisão de uma pessoa ou de outra. Ela é política. A neutralidade é falsa. A educação possui um caráter diretivo, envolve inexoravelmente algum projeto de sociedade. Resta a todos os educadores terem consciência a favor de que e de quem e contra o que e quem estão. Sua educação e seu projeto de sociedade são excludentes ou inclusivos?

Paulo Freire
Paulo Freire (Foto: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação)

Paulo Freire construiu uma pedagogia da esperança. Na sua concepção a história não é algo pronto e acabado. As estruturas de opressão e as desigualdades, apesar de serem naturalizadas, são sócio e historicamente construídas. A história, portanto, está por ser feita. Daí a importância de os educandos tomarem consciência da sua realidade para, assim, transformá-la.

Se essas ideias soam ainda hoje como revolucionárias, imagine no contexto da ditadura civil-militar brasileira. Paulo Freire foi transformado em inimigo da nação e obrigado a fugir do país em 1964. Mas, como mostra Haddad, foi essa expulsão que o projetou internacionalmente. À medida em que ele foi perseguido, suas teorias e experiências ganharam o mundo. Percorreu países da América Latina. Foi convidado para dar aula em Harvard. Fixou-se na Suíça para atuar junto ao Conselho Mundial de Igrejas. Contribuiu para a reestruturação da educação de países africanos após suas independências. Para, por fim, retornar ao Brasil, reaprender seu país (como Paulo Freire gostava de dizer e é o título de um dos capítulos do livro). Nesse retorno, ele também compôs o formidável secretariado da prefeita Luiza Erundina em São Paulo, a partir de 1989.

O livro de Haddad percorre essas importantes reflexões. E também episódios da vida particular da família Freire. A rotina de reclusão e escrita de Paulo. A dedicação metódica à escrita. A reivindicação dos filhos por mais tempo com o pai. As amizades e redes de apoio no exterior. Conta sobre a logística familiar nas mudanças de países, desde a expulsão do Brasil. Ora o número de filhos revela-se um desafio, mas na maioria das vezes é o amparo de que todos precisavam no exílio. A então esposa Elza, que dá o nome ao segundo capítulo do livro, é reconhecida como importante nas decisões a serem tomadas pelo casal. Ela foi, por exemplo, determinante na solução entre Harvard ou Suíça. Ela cuidava da organização das questões mais privadas, teve o grande feito de manter as receitas brasileiras em plena Suíça. Legou inclusive a feijoada à Genebra, como conta a seção Esquina da Revista Piauí. São passagens que dão a dimensão cotidiana e material de educador que trabalhou tanto por seus ideais e por outro mundo.

 

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Ao regressar para o Brasil, em 1979, depois de quase quinze anos fora, Paulo Freire lecionou na Pontifícia Universidade Católica, a PUC, em São Paulo e posteriormente na progressista Universidade Estadual de Campinas. Em 1985, Rubem Alves foi o responsável pelo parecer que formalizaria o ingresso de Paulo Freire na Unicamp. No documento ele escreve:

Por isso o meu parecer é uma recusa em dar um parecer.

E nesta recusa vai, de forma implícita e explícita, o espanto de

que eu devesse acrescentar o meu nome ao de Paulo Freire.

Como se, sem o meu, ele não se sustentasse.

Mas ele se sustenta sozinho.

Paulo Freire atingiu o ponto máximo que um educador pode atingir.

O óbvio ululante que Rubem Alves se recusa a verbalizar é o que nós agora precisamos redescobrir, sobretudo em tempos sombrios, e divulgar. E o livro de Haddad é um aliado. A memória de Paulo Freire não se sustenta mais sozinha, nós precisamos fazer o que Eric Hobsbawm considerou ser o trabalho dos historiadores: lembrar o que tantos querem esquecer.

Esse processo não poderá ter caráter messiânico, como se nós conhecêssemos a verdade e deteríamos a missão de libertar as pessoas da ignorância. Isso seria completamente contrário ao que Paulo Freire defendeu.

Esse trabalho deve começar pelo diálogo, e tê-lo como princípio. Nos termos de Paulo Freire: educadores-educandos e educandos-educadores aproximando-se das questões que os afligem, da realidade que os oprime, das situações-limite que reduzem a vida para pensar alternativas de transformação. Fazer o possível dentro das condições existentes. Cada um contribuindo com seus conhecimentos, e suas experiências. Se a educação não muda o mundo, tampouco ele muda sem a educação.

 

João Lorandi Demarchi é graduado e licenciado em História, mestre em Geografia Humana e doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo. Professor de história da educação básica. E-mail: joao.l.demarchi@gmail.com.



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