O Egito entre a revolução e a contrarrevolução - Le Monde Diplomatique

A PERDA DOS PRIVILÉGIOS

O Egito entre a revolução e a contrarrevolução

por Alain Gresh
3 de julho de 2012
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Por que o Conselho Superior das Forças Armadas (CSFA) aceitou a vitória de um dirigente da Irmandade Muçulmana? Porque o Egito mudou profundamente e porque um retorno à antiga ordem não é mais possível.Alain Gresh

(Manifestantes egípcios comemoram na Praça Tahir a vitória do candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, nas eleições)

Durante intermináveis e sufocantes dias, num clima pesado, o Egito segurou a respiração. Esperava a proclamação dos resultados do segundo turno da eleição presidencial, atrasada hora a hora. Sob um sol escaldante, apesar da dificuldade da escolha, na ordem e sob a supervisão dos juízes, os eleitores tinham depositado suas cédulas na urna, tão numerosos quanto no primeiro turno. As salas ficaram abertas até às 22 horas no dia 17 de junho para permitir que cada um cumprisse seu dever.

Poucos incidentes foram relatados. O vencedor deveria ser proclamado oficialmente na quarta-feira, dia 20, e os resultados que saíam à noite confirmavam que Mohamed Morsi, o candidato da Irmandade Muçulmana, apoiado por muitas forças da revolução, tinha ganho. A associação independente Juízes pelo Egito, que havia supervisionado a eleição,1 endossou sua vitória.

No entanto, rapidamente o clima ficou pesado. O adversário de Morsi, o general Ahmed Chafik, entrou com recursos no Comitê Superior pelo Controle da Eleição Presidencial, que decidiu adiar a publicação dos resultados. Paralelamente, a mídia, dirigida pelos mesmos homens do tempo de Hosni Mubarak, relançava rumores e desinformações, explicando que a Irmandade Muçulmana havia fraudado as urnas, que havia perdido e preparava uma insurreição armada!

Na realidade, a decisão já não estava mais nas mãos dos eleitores e do dito comitê de controle, mas apenas do Conselho Superior das Forças Armadas (CSFA), que procurava medir as consequências de uma vitória que ele tinha procurado evitar, pois havia apostado todas as fichas no general Ahmed Chafik, o último primeiro-ministro de Hosni Mubarak. Esse militar faz parte da panelinha dos homens de negócios (e dos oficiais) que haviam espoliado o país durante duas décadas – no dia 2 de março de 2011, durante um debate antológico entre Chafik, ainda primeiro-ministro, e o escritor Alaa al-Aswany, autor do inesquecível O Edifício Yacubian, este último tinha trazido inúmeros documentos confirmando a corrupção cometida por Chafik, obrigando-o a renunciar.

Representante do antigo regime – dos que aqui são chamados fouloul, os “restos” do antigo regime, os de outrora, como diziam no tempo da Revolução Francesa –, ele juntou em torno de si o “Estado profundo”, que mantinha uma atuação discreta desde a queda do ditador e que luta agora com energia para reconquistar seus privilégios. Todos os que não esqueceram nem aprenderam nada.

 

Um civil presidente

Finalmente, depois de longas hesitações, o CSFA cedeu e em 24 de junho proclamou Morsi vencedor; este anunciava sua renúncia à confraria e ao Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ) e afirmava sua vontade de ser o presidente de todos os egípcios. Pela primeira vez na história do Egito republicano, um civil se tornou presidente. Para entender essa reviravolta, basta passear pelas ruas do Cairo e ouvir os egípcios, principalmente os jovens: qualquer que seja sua escolha, eles não querem mais que o poder seja confiscado, eles querem poder dizer o que pensam, querem que sua opinião conte. É a geração da revolução, a que se mobiliza em cada cidade e vilarejo. O tempo dos ditadores passou. Esses jovens que festejam a vitória de Morsi, às vezes usando máscaras de anônimos, dançando ritmos animados, carregando em triunfo um cóptico – com sua grande cruz –, e se parabenizam pela derrota do general do antigo regime parecem pouco com hordas barbudas prontas a se lançar impetuosamente contra o mundo civilizado.

No entanto, a pequena margem da vitória de Morsi, apenas 1 milhão de votos, contra um candidato representando a ordem antiga, contra a qual o povo se levantou no início de2011, diz muito sobre a rejeição que a Irmandade Muçulmana suscita em uma parte da população e sobre as contradições da transição em andamento.

Os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais haviam criado um choque no seio das forças revolucionárias. Emparelhados, mas obtendo cada um apenas um quarto dos votos, Morsi, o candidato da Irmandade, chegou ligeiramente na frente, seguido do general Chafik. Hamdin Sabbahi, candidato pouco conhecido de tendência nasserista, reuniu mais de 20% dos votos – como aqui nada é simples, Sabbahi e seu partido se aliaram à Irmandade para as eleições legislativas. O quarto colocado, Abul Fotouh, obteve 17,5% dos votos. Juntos, os candidatos próximos da revolução, Sabbahi, Abul Fotouh e alguns outros reuniram quase 40% da preferência, mas se encontravam eliminados do segundo turno.

 

Momento de decisões

Como reagir? O que fazer no segundo turno? Para o escritor Al-Aswany, um crítico virulento dos integristas, a escolha era clara: “Não estamos com Morsi, apoiamos a revolução”. Uma posição explicitada no editorial de Mostafa Ali:2 “De maneira trágica, algumas forças favoráveis à revolução descrevem erroneamente uma organização conservadora e vacilante como a Irmandade Muçulmana, que mais de uma vez traiu os objetivos da revolução (e poderá fazê-lo de novo no futuro), como fascistas religiosos. E assim essa força pró-revolucionária equipara uma força que se comprometeu de maneira oportunista com o antigo regime ao regime atual, que procura enfraquecer o conjunto da revolução”.

O espectro de um Estado teocrático imposto pela Irmandade assombra alguns. No entanto, para a maioria das forças revolucionárias, o exército e o antigo regime, que mantêm o controle da principal parte das alavancas do poder, são as forças que devem ser derrubadas e contra as quais foi criada uma frente comum, em 22 de junho. Morsi, rodeado de partidos implicados na revolução e figuras simbólicas como Wael Ghonim e Al-Aswany, se comprometeu com uma plataforma comum de luta contra o CSFA e, principalmente, contra suas decisões nas semanas que precederam a eleição.

“Cometemos um grande erro após a queda do presidente Mubarak aceitando deixar o poder nas mãos do CSFA.” Estamos no dia 14 de junho e Abul Fotouh, candidato perdedor da eleição presidencial, acaba de saber: a alta corte constitucional declarou ilegal a lei que havia permitido a eleição legislativa, provocando sua dissolução. Além disso, a mesma corte acaba de abolir a lei que proíbe as personalidades do antigo regime de se apresentarem às eleições, autorizando, assim, o general Chafik a concorrer no segundo turno da eleição presidencial de 16 e 17 de junho.

No Egito, já foi dito, nada é simples. Durante esses dias de crise, Hamdin Sabbahi efetua a (pequena) peregrinação (omra) a Meca e se confina num silêncio prudente, não tomando posição favorável a nenhum dos dois candidatos que continuam na corrida. Marcado por sua ideologia nasserista, ele não consegue criticar o exército.

Por outro lado, Abul Fotouh, antigo dirigente da Irmandade Muçulmana, procura construir uma ampla frente contra os militares. Com cerca de 60 anos (um jovem no contexto político local dominado pelos velhos), carismático, ele exala uma energia transbordante. Por muito tempo presidente do sindicato dos médicos, foi preso por diversas vezes, durante longos anos. Marginalizado pela confraria, que o considerava liberal demais, participou de maneira ativa em toda a epopeia da Praça Tahrir e adquiriu uma grande autoridade, principalmente sobre os jovens da Irmandade. Muito cedo, anunciou que se apresentaria à eleição presidencial e se comprometeu com um programa de reformas democráticas do país, com um Estado civil, com uma igualdade entre homens e mulheres e com uma igualdade entre os cidadãos, prometendo, principalmente, que um copta poderia ser eleito presidente da República. Ele aliou em torno de si uma vasta coalizão de tendências e personalidades – uma de suas conselheiras econômicas é marxista – e obteve também o surpreendente apoio no primeiro turno dos salafistas, preocupados com uma eventual hegemonia da Irmandade Muçulmana na cena política. No Egito, nada é simples.

Para Abul Fotouh, como para muitas outras forças, a escolha no segundo turno era clara: ou o retorno do antigo regime, com o general Chafik, ou um passo adiante na luta pela “queda do poder militar”, com a eleição de um candidato civil.

 

Ofensiva dos militares

Nas semanas que precederam a eleição presidencial, o CSFA havia lançado uma ofensiva para consolidar seu poder institucional. Em 4 de junho, o Ministério da Justiça validou o direito dos militares de prender e julgar civis. Durante o processo de Mubarak, importantes funcionários do Ministério do Interior, responsáveis pela morte de centenas de manifestantes, e diversos policiais acusados de ter atirado contra manifestantes foram inocentados.

Na sequência do veredicto de 14 de junho, o CSFA retomou em suas mãos o Poder Legislativo que havia cedido ao Parlamento e adotou uma declaração constitucional adicional que protegia o exército de qualquer “ingerência” dos civis e limitava o poder do futuro presidente. Ele se arrogou também o direito de acompanhar a elaboração da futura Constituição.

Paralelamente, o Estado profundo continuou sua ação em favor do general Chafik, mobilizando todos os meios que lhe restavam; e são muitos: mídia dependente – incluindo frequentemente as qualificadas como independentes, mas nas mãos de homens de negócios ligados aos círculos de poder –, intelectuais do antigo regime e pensadores “liberais” mobilizados contra a ditadura islâmica, mas silenciosos com relação à dos militares. Todas as mentiras mais deslavadas foram usadas para desacreditar os islamitas: no Parlamento tunisiano, eles teriam obrigado o restabelecimento da poligamia; Morsi teria decidido privatizar a companhia do Canal de Suez, símbolo, desde sua nacionalização pelo presidente Gamal Abdel Nasser em 1956, da independência do Egito; a Irmandade teria acumulado armas, queria transformar o exército seguindo o modelo iraniano, restabeleceria o imposto especial (jaziya) sobre os coptas, fecharia os cinemas e os teatros etc. Uma das fábulas mais espetaculares, que deu a volta ao mundo: o Parlamento teria pensado em uma lei que permitiria a um homem fazer sexo com sua mulher nas seis horas seguintes ao seu falecimento. Como no tempo de Mubarak ou de outros ditadores árabes, “nós ou os islamitas” continuava sendo a palavra de ordem de todos os de outrora, que buscavam manter a ordem estabelecida.

É preciso reconhecer que a propaganda deu resultado: mais de 12 milhões de egípcios votaram, no segundo turno, no candidato do antigo regime, mesmo que nem todos fossem favoráveis a seu retorno. A Irmandade Muçulmana tem sua carga de responsabilidade, como testemunham seus resultados eleitorais: embora Morsi tenha obtido 5,7 milhões de votos no primeiro turno, seu partido havia conseguido quase o dobro durante as eleições legislativas do fim de 2011 e início de 2012.

 

Jovens contra a Irmandade

A confraria paga por seus erros e suas reviravoltas entre a revolução e o exército. Fortemente reprimida no regime de Mubarak, começou a participar das manifestações somente em 28 de janeiro de 2011, três dias depois do seu início, embora os militantes mais jovens estivessem em movimento desde as primeiras horas. Eles tiveram um papel ativo durante o braço de ferro que opôs a rua e Mubarak e contribuíram amplamente, por sua organização, para a resistência às ofensivas da polícia.

Depois da queda do chefe, essa organização fundamentalmente conservadora em suas orientações procurou um terreno de entendimento com o CSFA. Ela se dissociou dos jovens manifestantes, principalmente em novembro de 2011, quando os enfrentamentos com o exército do Cairo provocaram cerca de quarenta mortes. A Irmandade, desejosa que as eleições legislativas fossem mantidas a qualquer custo, denunciaram “ações irresponsáveis”, algo que muitos jovens não perdoaram.

Tendo ganho uma ampla maioria no Parlamento, deram prova de uma vontade hegemônica que os fez perder muitas simpatias. E sua decisão, apesar dos acordos anteriores, de participar diretamente da eleição presidencial reviveu alguns medos. Fahmi Howeidy, colunista respeitado de tendência islamita, cujos artigos são lidos em todo o mundo árabe, criticou severamente tal decisão. Mas ele acredita que as responsabilidades dos impasses do período precedente são partilhadas: “No Parlamento, os liberais e os outros partidos recusaram todas as propostas da Irmandade para presidir as comissões. Eles fracassaram, mesmo quando a assembleia tomou medidas positivas: reforma do teste do segundo grau, transformação do estatuto de 700 mil trabalhadores precários, salário máximo etc.”. Para ele, a batalha no Egito não opõe apenas leigos e religiosos, mas também o antigo regime e a democracia.

Aceitando, em 22 de junho, a criação de uma frente com as forças revolucionárias, a Irmandade quebrou seu isolamento. Comprometeu-se a combater o poder militar, principalmente pedindo a revogação da declaração constitucional adicional e o retorno do Parlamento eleito. Agora que seu candidato foi eleito, não buscará um novo acordo com o CSFA? Quais serão as modalidades de elaboração da nova Constituição? As questões ficam no ar, mas o dia 24 de junho ficará marcado, aconteça o que acontecer, como uma etapa importante da história do Egito e da liquidação da antiga ordem, principalmente do domínio sobre a economia de uma panelinha corrompida.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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