O epicentro da crise econômica mundial - Le Monde Diplomatique

Estados Unidos

O epicentro da crise econômica mundial

por Ignacio Ramonet
4 de fevereiro de 2008
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Estamos assistindo à mais importante turbulência econômica das últimas décadas. O desfecho reside na capacidade das economias asiáticas substituírem o motor americano – uma nova manifestação do declínio do Ocidente, anunciando o deslocamento do centro do mundo globalizado dos Estados Unidos para a China

Será que o anúncio feito pelo Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano), de uma grande diminuição das taxas de juros, conseguirá evitar a recessão nos Estados Unidos? Vários especialistas acreditam nisso. Mesmo esperando a redução do crescimento, não antecipam um esfriamento brutal da economia mundial.

Porém, outros analistas, também adeptos do capitalismo, demonstram bastante preocupação. Na França, por exemplo, Jacques Attali profetisa que “daqui a pouco (…) a Bolsa de Nova York, garantidora da pirâmide dos empréstimos, vai desmoronar”1. E Michel Rocard afirma que “a crise mundial é para amanhã”, e não hesita em acrescentar: “Estou certo de que logo tudo vai explodir”2.

De fato, os sinais de desconfiança vêm se multiplicando, como se pode ver na “corrida do ouro”: o metal amarelo, cuja cotação, em 2007, aumentou em 32%, está voltando a ser o refúgio de muitos investidores. Todos os grandes organismos econômicos, entre os quais o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), prevêem uma baixa do crescimento mundial.

Quase tudo começou em 2001, com o estouro da bolha da Internet. Para preservar os investidores, Alan Greenspan, então presidente do Fed, decidiu orientar os investimentos para o mercado imobiliário3. Por meio de uma política de juros baixíssimos e de redução dos encargos financeiros, ele encorajou os intermediários financeiros e imobiliários a estimular uma clientela cada vez maior a investir em imóveis. Instaurou-se assim o sistema dos subprimes, empréstimos hipotecários de risco e taxa variável oferecidos às famílias mais frágeis4. Mas, em 2005, ao aumentar as taxas de juros (estas mesmas que acabou de reduzir), o Fed detonou a máquina e provocou um efeito dominó que, a partir de agosto 2007, fez vacilar o sistema bancário internacional.

A ameaça de insolvência de cerca de três milhões de famílias, com dívidas de mais de 200 bilhões de euros, ocasionou a falência de grandes estabelecimentos de crédito. Para se precaver contra tal risco, estes haviam vendido uma parte de seus créditos duvidosos para outros bancos, os quais os cederam a fundos de investimentos especulativos, que, por sua vez, disseminaram-nos pelos bancos do mundo inteiro. Resultado: tal como uma epidemia fulminante, a crise atingiu o conjunto do sistema bancário.

Estabelecimentos financeiros importantes – Citigroup e Merrill Lynch, nos Etados Unidos; Northern Rock, no Reino Unido; Swiss Re e UBS, na Suiça; Société Générale, na França, etc. – acabaram por reconhecer perdas colossais e prevêem mais depreciações. Para limitar o desastre, muitos tiveram que aceitar capitais provenientes de fundos soberanos controlados por países do Sul e petromonarquias.

Não se sabe ainda o tamanho exato do rombo. Desde agosto de 2007, os bancos centrais americano, europeu, britânico, suíço e japonês injetaram na economia centenas de bilhões de euros sem conseguir restaurar a confiança. Da economia financeira, a crise propagou-se para economia real. E uma conjunção de fatores – redução acelerada dos preços no mercado imobiliário dos Estados Unidos (e também do Reino Unido, da Irlanda e da Espanha), esvaziamento da bolha de liquidez, queda do dólar, restrição dos créditos – fazem temer um real recuo do crescimento mundial. Somam-se a isso outros fenômenos como a alta dos preços do petróleo, das matérias primas e dos produtos alimentares. Ou seja, os ingredientes de uma crise duradoura5. A mais importante desde que a globalização constituiu o quadro estrutural da economia mundial.

De agora em diante, seu desfecho reside na capacidade das economias asiáticas em substituir o motor americano. Seria então uma nova manifestação do declínio do Ocidente anunciando o deslocamento próximo do centro da economia mundial dos Estados Unidos para a China. Dessa forma, esta crise marcaria o fim de um modelo.

 

*Ignacio Ramonet é jornalista, sociólogo e diretor da versão espanhola de Le Monde Diplomatique.



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