O esvaziamento do multilateralismo e a reconfiguração da ordem internacional
O problema, portanto, não é apenas o enfraquecimento do multilateralismo, mas o que está ocupando o seu lugar
Durante décadas, a política internacional esteve organizada em torno de um pressuposto relativamente estável: riscos relevantes poderiam ser enquadrados, negociados e, em alguma medida, coordenados por meio de instituições multilaterais. Hoje, esse pressuposto parece cada vez mais distante da realidade. Disputas envolvendo sistemas de pagamento, cadeias de suprimento de minerais críticos e o combate ao narcotráfico têm sido tratadas não como temas de cooperação, mas como questões de segurança, frequentemente fora dos marcos tradicionais de coordenação internacional.
Os riscos políticos tornaram-se transnacionais em velocidade superior à capacidade de resposta das estruturas de governança existentes. Nesse descompasso, o esvaziamento funcional do multilateralismo abre espaço para a securitização de agendas econômicas, tecnológicas e ambientais, legitimando formas crescentes de ação unilateral. O resultado não é apenas a erosão de mecanismos de cooperação, mas a reconfiguração da própria lógica que organiza a política internacional.
A transformação da natureza do risco político é central para compreender esse processo. Durante grande parte do século XX, riscos políticos eram predominantemente domésticos, associados a instabilidade institucional, mudanças regulatórias ou crises de governabilidade dentro de fronteiras nacionais. Esse enquadramento tornou-se insuficiente diante de uma realidade marcada por cadeias produtivas globais, fluxos financeiros digitais, interdependência energética e fenômenos climáticos que ignoram fronteiras. O risco, hoje, se propaga em rede, com impactos que atravessam países e setores em velocidades difíceis de antecipar.
Essa nova configuração coloca pressão direta sobre instituições multilaterais concebidas para um mundo menos interdependente. Organizações internacionais continuam existindo e operando, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir coordenação efetiva em temas sensíveis. Divergências geopolíticas, interesses econômicos conflitantes e assimetrias de poder tornam mais difícil a construção de consensos, reduzindo a capacidade dessas instituições de atuar como espaços centrais de governança.
Nesse contexto, a securitização emerge como mecanismo de substituição. Ao enquadrar determinados temas como ameaças à segurança, Estados ampliam seu espaço de ação, deslocando o debate de arenas multilaterais para decisões unilaterais ou coalizões restritas. O que antes seria tratado como questão regulatória, comercial ou ambiental passa a ser interpretado sob a lógica da segurança, abrindo margem para medidas excepcionais.

Esse movimento não é inteiramente novo, mas tem se expandido para domínios cada vez mais amplos. O combate ao narcotráfico, historicamente associado à segurança pública, passou a ser enquadrado como ameaça internacional, com implicações diretas sobre políticas externas e instrumentos de intervenção. Mais recentemente, disputas em torno de tecnologias, infraestrutura digital e recursos naturais estratégicos, como terras raras, têm sido incorporadas a essa mesma lógica. Sistemas de pagamento, fluxos de dados e cadeias de suprimento deixam de ser apenas temas econômicos e passam a integrar o repertório da segurança nacional.
O resultado é a formação de um ambiente em que o vácuo deixado pela perda de centralidade do multilateralismo não permanece vazio. Ele é progressivamente ocupado por formas de poder que refletem a capacidade de ação de grandes potências. Em vez de regras compartilhadas, observa-se a expansão de práticas baseadas em assimetria, coerção e competição estratégica. A previsibilidade, elemento central para a estabilidade internacional, torna-se mais frágil.
Essa dinâmica sugere que o sistema internacional atravessa não apenas uma fase de instabilidade, mas uma transformação mais profunda. A governança baseada em instituições e regras não desaparece, mas passa a conviver com uma lógica crescente de ação orientada por poder e securitização. A coexistência desses dois padrões cria tensões, zonas cinzentas e incertezas que redefinem a forma como riscos políticos se manifestam e são geridos.
O problema, portanto, não é apenas o enfraquecimento do multilateralismo, mas o que está ocupando o seu lugar. À medida que a coordenação se torna mais difícil, a tendência é que Estados recorram com maior frequência a enquadramentos de segurança para justificar ações fora de estruturas coletivas. O que está em jogo vai além da eficácia das instituições e alcança o tipo de ordem internacional que emerge desse processo.
Quando riscos transnacionais encontram respostas fragmentadas, o problema deixa de ser apenas de coordenação. Ele passa a ser de poder.
Eduardo Galvão é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor no Ibmec, atuando na área de risco político

