O IDEAL MASCULINO, BRANCO E RICO DAS ANTIGAS METRÓPOLES

O fardo do homem branco e os 134 anos do STF

A ausência de pessoas indígenas e negras nos debates públicos, nas instituições e no STF reforça a ideia e o estereótipo do homem branco, único “capaz” de estar à frente das instituições, de levar o fardo do Brasil nas costas. E o que isso tem a ver com o Supremo Tribunal Federal e a mais nova nomeação do presidente Lula, a terceira, para o maior cargo da Justiça brasileira? Tudo

Imagem ilustrativa do mito de Sísifo

Atenta à conjuntura atual, deparo-me com o óbvio: o homem branco é solicitado, em todos os momentos, tanto na mídia hegemônica quanto nas mais progressistas, a explicar (esclarecer, iluminar) todos os assuntos: as tarifas do governo Trump, a tornozeleira eletrônica de Jair (sem Messias) Bolsonaro, a inflação, a (im) popularidade de Lula, o Congresso Nacional, a Lei Geral de Licenciamento Ambiental, o genocídio em Gaza, os BRICS, a guerra na Ucrânia, a China, a Rússia, Cuba, a extrema-direita e a esquerda, filosofia clássica e contemporânea…

Deve ser difícil carregar esse fardo, intensificado pelo Iluminismo, segundo o qual quem precisa iluminar é o homem branco, economicamente privilegiado, separado daquele “apto” para o trabalho braçal. No auge da colonização, do desenvolvimento industrial e científico no mundo ocidental, o britânico Rudyard Kipling, em 1899, publicou o poema O Fardo do Homem Branco. Nessa obra, ele exalta o “árduo” trabalho do homem branco de levar a “civilização” ao mundo bárbaro, ensinando seres considerados incompletos e infantis. O poema é o seguinte:

O fardo do homem branco

Tomai o fardo do Homem Branco

Enviai vossos melhores filhos.

Ide, condenai seus filhos ao exílio

Para servirem aos vossos cativos;

Para esperar, com chicotes pesados

O povo agitado e selvagem

Vossos cativos, tristes povos, metade demônio, metade criança.

Tomai o fardo do Homem Branco

Continuai pacientemente.

Ocultai a ameaça de terror

E vede o espetáculo de orgulho;

Ao discurso direto e simples,

Uma centena de vezes explicado,

Para buscar o lucro de outrem

E obter o ganho de outrem.

Tomai o fardo do Homem Branco

As guerras selvagens pela paz

Enchei a boca dos famintos,

E proclamai o cessar das doenças

E quando o vosso objetivo estiver próximo (O fim que todos procuram)

Assisti a indolência e loucura pagã

Levai toda sua esperança ao nada.

Tomai o fardo do Homem Branco

Sem a mão de ferro dos reis,

Mas o trabalho penoso de servos

A história das coisas comuns

As portas que não deveis entrar,

As estradas que não deveis passar,

Ide, construí com as suas vidas

E marcai com seus mortos.

Tomai o fardo do Homem Branco

E colhei vossa recompensa de sempre

A censura daqueles que tornai melhor

O ódio daqueles que guardai

O grito dos reféns que vós ouvi

(Ah, devagar!) em direção à luz: “Por que nos trouxeste da servidão,

Nossa amada noite no Egito?”

Tomai o fardo do Homem Branco

Não tentai impedir

Não clamai alto pela Liberdade

Para ocultar vossa fadiga

Por tudo que desejai ou confidenciai

Por tudo que permiti ou fazei

Os povos soturnos e calados

Medirão vosso Deus e vós.

Tomai o fardo do Homem Branco!

Acabaram-se vossos dias de criança

O prêmio leve ofertado

O louvor fácil e glorioso: Vinde agora, procurai vossa virilidade Através de todos os anos difíceis, frios, afiados com a sabedoria adquirida, O reconhecimento de vossos pares.

Essa ode ao homem branco – protagonista, sábio, intelectual, construtor, glorioso, ativo, futurista, memorialista, capaz, líder, merecedor, supremo – é fundamento das sociedades ocidentais e ocidentalizadas, incluindo as ex-colônias americanas, que importaram o ideal masculino, branco e rico das antigas metrópoles.

E o que isso tem a ver com o Supremo Tribunal Federal e a mais nova nomeação do presidente Lula, a terceira, para o maior cargo da Justiça brasileira? Tudo. Dos governos de direita e extrema-direita aos de esquerda, homens brancos prevalecem como favoritos. Num país de maioria negra, de povos indígenas, marcadamente multirracial e multicultural, com diferenças gritantes entre as regiões, o homem branco é o único sujeito que se sobressai, que ocupa a instituição existente há 134 anos. Desde a sua instalação, passaram pelo tribunal 171 ministros, sendo 168 homens e apenas 3 mulheres. Todos os ministros foram brancos, com exceção de um, Joaquim Barbosa.

O homem branco tem a grande tarefa, no Brasil, de julgar e interpretar a Constituição. É ele quem detém o poder mais alto da hierarquia judiciária. É dele o “fardo” (lê-se privilégio). O que a história do STF nos mostra é que ele é o único capaz de fazer isso. O único sujeito com as características necessárias para tal função, tão nobre, tão exigente, tão branca e masculina.

Na década de 1980, Peggy McIntosh, em White Privilege and Male Privilege (Privilégio branco e privilégio masculino), concluiu que homens não reconhecem o privilégio de sexo em relação às mulheres, embora muitos admitam as desvantagens destas. E, como as hierarquias na nossa sociedade estão interligadas, os privilégios masculino e branco são negados e protegidos. Tendemos a olhar as desvantagens dos sujeitos, mas as vantagens são raramente admitidas, mesmo entre os “bem-intencionados”.

A pesquisadora, conversando com homens brancos, aponta algumas questões importantes:

  1. Alguns afirmam que os homens devem ser o centro do currículo, porque realizaram a maior parte do que é considerado importante ou distinto na vida e na civilização.
  2. Alguns reconhecem o sexismo no currículo, mas negam que isso faça os alunos do sexo masculino parecerem indevidamente importantes na vida.
  3. Outros concordam que certos pensadores individuais tenham uma perspectiva orientada para o sexo masculino, mas negam que haja qualquer tendência sistêmica nas estruturas disciplinares ou na epistemologia de atribuir mais poder aos homens enquanto grupo.
  4. Os homens que admitem que o privilégio masculino assume formas institucionalizadas e internalizadas, mesmo assim, negam que a hegemonia masculina lhes tenha aberto portas pessoalmente.
  5. Todos os homens negam que a recompensa masculina, por si só, possa explicar a centralidade dos homens. Essa centralidade se manifesta em todas as instituições.
  6. Os poucos que reconhecem que os sistemas de privilégios masculinos lhes conferiram poder, em geral, acabam duvidando que possamos desmantelar esses sistemas. Eles podem afirmar que trabalharão para melhorar o status das mulheres, na sociedade ou na universidade, mas não podem – ou não querem – apoiar a ideia de diminuir o status dos homens. Em termos curriculares, esse é o ponto em que dizem lamentar não poder incluir os novos e interessantes estudos sobre as mulheres, porque o programa já está cheio.
  7. Quando a conversa se volta para discutir a redução do espaço cultural dos homens, mesmo os mais ponderados e justos que conheço tendem a refletir ou recorrer a suposições conservadoras sobre a inevitabilidade das atuais relações de gênero e distribuições de poder, recorrendo a precedentes, à sociobiologia ou à psicobiologia para sustentar que a dominação masculina seria natural e decorreria inevitavelmente de pressões evolutivas. Outros recorrem a argumentos baseados na “experiência”, na religião, na responsabilidade social ou em desejos e sonhos.

A ausência de pessoas indígenas e negras nos debates públicos, nas instituições e no STF reforça a ideia e o estereótipo do homem branco, único capaz de estar à frente das instituições, de levar o fardo do Brasil nas costas. A pensadora negra Brittney C. Cooper, no livro Beyond Respectability: The Intellectual Thought of Race Women, afirma que não levamos mulheres negras a sério, ainda que sejam grandes estudiosas e especialistas em diversas áreas, pois, a maior parte de nós foi treinada para confiar que os homens brancos são os únicos capazes de “pensamentos profundos”. Prevalece a ideia de que são eles que nos conduzirão à luz, à racionalidade. E, por três vezes, num único mandato, Lula a confirmou.

É isso. O homem branco está à frente de tudo na nação. Mas, pasmem! Este homem está cansado, pois ele carrega o “peso” de levar adiante a civilização, a Intelligentia, de opinar quando uma bomba explode do outro lado do mundo, falar de futebol ou ocupar uma cadeira na tão prestigiada instituição. O fardo pesa, e como pesa, sobre os seus ombros. Vejo-o travado fisicamente, repetindo frases ou teorias, isolado nas suas epistemologias, sozinho num trono em que o colocaram, no qual se sentou e de onde não mais se levantou. Ah, o homem branco, que “fardo”!

 

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia pela Unicamp, escritora e feminista negra.

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