O filósofo de Bolsonaro - Le Monde Diplomatique

OLAVO DE CARVALHO

O filósofo de Bolsonaro

por Felipe “Guma” Luiz
14 de dezembro de 2022
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O fato de Olavo, um antifilósofo, ter sido elevado à categoria de “pensador” e ideólogo da direita tupiniquim dá mostras do abismo em que nos encontramos

A internet está recheada com frases de sabedoria. Mas, como a mentira anda à solta, é bom acautelar-se, especialmente em tempos de pós-verdade e fake news. Uma das citações mais comuns nos meios bolsonaristas é, justamente, uma falsa citação de Lenin, bombardeada em seus leitores por Olavo: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz’” (CARVALHO, 2013, p.296). Segundo o falecido terraplanista, essa seria a postura básica da esquerda, ao acusar, por exemplo, a direita de fascista, os verdadeiros fascistas seriam a turba vermelha; ao apontar o dedo e afirmar que o capitalismo é gerador de desigualdades, a esquerda tentaria encobrir a verdadeira geradora de desigualdades que são a teorias e práticas nas quais estão aferrados; ao indicar a direita como LGBTfóbica, a esquerda, convenientemente, esqueceria os crimes de Che etc. Ou seja, o expediente de acusar o adversário daquilo que você mesmo faz seria vantajoso e especialidade da turminha do lado de lá. Ao menos segundo Olavo.

No longínquo Outback australiano, a região árida do interior do país, povos ancestrais inventaram uma arma maravilhosa: o bumerangue. De design ao mesmo tempo simples e complexo, do bumerangue podemos extrair uma metáfora para a vida cotidiana: cuidado com aquilo que você lança nos outros pois pode voltar para você. E não é que, neste caso, a metáfora se aplica com destreza, visto que, praticamente tudo aquilo que Olavo aponta na esquerda se adéqua profundamente ao governo por ele tão admirado e que ele tentou, do alto de sua montanha nos Estados Unidos, teledirigir.

Ilustração: Lila Cruz

O fato de Olavo, um antifilósofo, já que se opõe aos valores que a maioria dos filósofos e filosofias adotou desde o Iluminismo, ter sido elevado à categoria de “pensador” e ideólogo da direita tupiniquim dá mostras do abismo em que nos encontramos. Os textos carecem de valor científico e literário mas, mesmo assim, boa parte de seu clube de apoiadores, muitas vezes pouco afeitos às letras e às vicissitudes da vida intelectual, parece se importar bem pouco com isso. Olavo se coloca na posição de profeta de um mundo ao mesmo tempo futuro e passado. Passado, já que ele se opõe às conquistas da modernidade, como laicização da sociedade e separação de religião e do Estado, separação esta que levou à cidadania de negros, mulheres e LGBTs. Futuro, já que Olavo não chora o passado sem segundas intenções; seu objetivo é reestabelecer uma sociedade onde a teologia seja a rainha e as ciências e a filosofia suas servas, uma sociedade que já existiu e foi enterrada a muito custo. Quando Galileu escreveu O experimentador, no historicamente próximo século XVII, ele salientou que a ciência deveria olhar e se fiar não nas autoridades, mas na experiência. Olavo, o dogmático, se opunha a isso, posto que, em um de seus poucos trabalhos científico mais sérios e, por isso mesmo, cômicos, ele foi estudar Aristóteles, o pensador grego que explicou tudo em suas teorias e foi a autêntica pedra de toque da ciência experimental por séculos. Libertar-se de Aristóteles foi um trabalho lento e penoso, um trabalho que Olavo desprezava.

Voltando à nossa metáfora do bumerangue, vejamos algumas posições de Olavo que se adéquam tão bem a Bolsonaro e à legião de apoiadores estacionada na frente dos quartéis. Em Tudo que você precisa saber para não ser um idiota, a bíblia dos bolsoafetivos, ele afirma que:

“No Brasil de hoje, todos os ‘formadores de opinião’ mais salientes, sem exceção visível – comentaristas de mídia, acadêmicos, políticos, figuras do show business – pensam por figuras de linguagem, sem a mínima preocupação – ou capacidade – de distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem entre emissor e receptor da mensagem. A discussão racional fica assim inviabilizada na base, sendo substituída pelo mero confronto entre modos de sentir, uma demonstração mútua de força psíquica bruta que dá a vitória, quase que necessariamente, ao lado mais barulhento, histriônico, fanático e intolerante.” (CARVALHO, 2013, p. 351)

Ora, ora. Vejamos os termos de sua colocação. Os “formadores de opinião” não sabem distinguir entre fórmula verbal e experiência. É risível que Olavo, o experimentado, não sabia distinguir entre a “experiência” com uma régua, que supostamente prova a planicidade da Terra de um experimento científico sério. Ao contrário do que a maioria pensa, a ciência moderna em seus métodos, como pensados por Galileu, não estabelece o domínio do experimento pura e simplesmente; ao contrário, é a razão que comanda todo o processo. Os dados da experiência nos dizem, por exemplo, que o Sol gira em torno da Terra; faz-se necessária uma abstração e experimentos outrora complexos, hoje simples que desmintam o engodo. Olavo, o racionalista, não conhecia os fundamentos da ciência moderna.

Outro elemento é a inviabilização da “discussão racional”. Quem já tentou conversar, mesmo que amigavelmente com um bolsoafetivo, conhece a profundidade do problema. Dados não adiantam. Fatos de nada valem. As crenças estão tão arraigadas no Bolsoverso que a pessoa se alienou da vida em comum em benefícios de grupos de Zap e canais de Telegram. O problema é tão grande que, ainda que um bolsoafetivo seja, por exemplo, LGBT, mesmo diante das mais escancaradas declarações de ódio da famiglia, os receptáculos da experiência estão fechados. Se já não há discussão racional nesse país entre os polos do espectro político, são os bolsoafetivos os presos em uma bolha, que já são incapazes de raciocinar – somente remente frases feitas e teorias da conspiração pensadas pelo gabinete do ódio, esperando ganhar no grito, desta vez gritos por golpe de Estado e intervenção militar.

Em outro trecho, Olavo critica os fanáticos, afirmando que eles deixaram-se dissolver em grupos, de onde tiram conforto e aceitação, em troca de submeter-se a um líder, considerado quase-divino, acima da história (CARVAHO, 2013, p.84). Não é precisamente esse o status concedido a Bolsonaro no meio de suas hostes? De um líder invencível, incorruptível, “imbrochável”, grande enxadrista da política, que tem um plano preparado para tudo? Sim, Olavo descreve com perfeição como se enxerga Bolsonaro na populaça de verde e amarelo.

Noutra passagem, Olavo afirma que “Já observei mil vezes que no Brasil de hoje a linguagem da elite soi disant alfabetizada se reduziu a um sistema formal de pressões e contrapressões, onde as palavras valem pela sua carga emocional acumulada, com pouca ou nenhuma referência aos dados correspondentes na experiência real de falantes e ouvintes” (CARVALHO, 2013, p.176). Caso se abra um livro sobre fake news e pós-verdade, esta é exatamente a descrição: uma informação que vale pela sua carga afetiva, não por sua correspondência com a verdade. Muito se investigou sobre as redes bolsonaristas de fake news, mas muito resta por saber. Quem financia? Quem opera? Onde está sua sede física. O bolsominion que tuíta que as eleições foram fraudadas é apenas, como disse Olavo do militante de esquerda, um idiota util. Mas útil para quem?

Vejamos outro trecho: “A facilidade mesma com que uma teoria se converte em sua contrária é louvada como prova do mais alto mérito intelectual: o que importa não é a ‘veracidade’, mas a ‘fecundidade’” (CARVALHO, 2013, p.189). Isto é Olavo escrito no mármore. De nada vale que ele delire – e seus escritos são um delírio, de valor científico nulo –, importa que gere efeitos, e efeitos nefastos. Olavo descreve o coração das fake news e de seus próprios escritos; só possuem valor na medida mesma em que são falsos. Fora disso, são nulos.

Como Olavo, impregnado de cultura medieval, se via como um cavaleiro solitário, ele pode escrever o seguinte: “A destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de favelização intelectual onde a função de respiradouro para a grande circulação de ideias no mundo, que caberia à classe acadêmica como um todo, é exercida praticamente por um único indivíduo, um último sobrevivente, que em retribuição leva pedradas e cuspidas por todo lado, especialmente dos plagiários e usurpadores que vivem de parasitar o seu trabalho” (CARVALHO, 2013, p.237). Olavo, o último cruzado.

Na verdade Olavo é um teórico da conspiração e, segundo alguns estudiosos, os adeptos em teorias da conspiração não podem ser convencidos por fatos e dados. Ao contrário, isso reforça neles o sentimento de que sua visão de mundo distorcida está correta. Mas Olavo, que falou praticamente sozinho por décadas, sentiu-se empoderado depois de 2013 quando, graças às novas mídias, disponibilizadas pela ciência moderna a qual tanto desprezava, saiu dos esgotos da internet para a glória, oferecendo cursos de “filosofia”, uma tal que mal compreendida e mal explicada, mas que, para os fãs de uma cultura kitsch saudosista da ditadura e alimentada por uma grande mídia cínica, ligada ao grande capital, se assomava como pílulas de sabedoria. O resultado dessa combinação explosiva todos sabemos.

A teoria da conspiração é tão arraigada em Olavo que ele chega a afirmar que os homossexuais se organizam para infiltrar-se na Igreja, cometer atos de pedofilia e, assim, difamar a Igreja. Inverte-se tudo, confunde-se meio com finalidade, efeito com causa. Olavo só se mostra correto quando aplicado a si mesmo e aos seus. De resto, delírios de baixo valor cognitivo.

 

Felipe “Guma” Luiz, tem 35 anos, é mestre em mestre em Filosofia Política pela Unesp de Marília (2021) e doutorando em Filosofia pela UFSCAR. Pesquisa Filosofia Política, com foco na questão de como a filosofia é, efetivamente, uma arma de guerra. Tem um livro de poesia (Profecias, Urutau, 2021) e dezenas de artigos publicados por revistas especializadas. Além disso, mantém um blog e prepara um livro sobre A filosofia de Bolsonaro.

 

Bibliografia

CARVALHO, O. de. A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. S.l.: s.e., s.d. (1994)

O Jardim das Aflições: de Epicuro à ressurreição de César. RJ: Topbooks, 1998

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. RJ: Record, 2013

LUIZ, F. A filosofia de Bolsonaro. No prelo.



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