O fim da “geração silenciosa” - Le Monde Diplomatique

JUVENTUDES REBELDES DA ÁFRICA – NIGÉRIA

O fim da “geração silenciosa”

por Alain Vicky
1 de abril de 2015
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Em 2012, a repressão policial sobre os protestos contra o preço da gasolina na Nigéria tinha causado a morte de quinze pessoas, entre elas Mustapha Muyideen, de 23 anos, transformado no símbolo de uma juventude maltratada. Seja o que for que venha a acontecer no futuro, a “geração silenciosa” não mais irá se calarAlain Vicky

 

Num país como a Nigéria, que tem 65 milhões de internautas, não é raro que as redes sociais se agitem. Assim ocorreu no sábado, 7 de fevereiro, por volta do meio-dia, quando se difundiu uma notícia transmitida pela agência Reuters a partir de Dakar (no Senegal): previstas para 22 de fevereiro, as eleições parlamentares e presidencial, que se resumem a um duelo que opõe o presidente que vai sair, Goodluck Jonathan, ao general aposentado e ex-ditador Muhammadu Buhari, foram adiadas para 28 de março. A Comissão Eleitoral Nacional Independente estima que o Exército, às voltas com o Boko Haram no norte do país,1 não está em condições de assegurar a segurança do pleito. “Depois desse relatório”, confessa a cantora e militante Aduke Ayobamidele Aladekomo, “começo a sentir medo. Mensagens cada vez mais violentas invadem as redes sociais.”

Nas eleições presidenciais de 2011, Aduke, filha de um dentista e de uma jurista, ex-estudante de História e de Estudos Estratégicos na universidade pública de Lagos – a capital econômica –, não se preocupava com política. “De fato”, explica a jovem, “como a maior parte da minha geração nascida na década de 1990, no fim dos anos da ditadura, eu era despreocupada e silenciosa. Eu pensava principalmente em aproveitar o dinamismo que nosso país reencontrara.”

O ano de 2012, porém, marcou uma virada. A Nigéria foi varrida pela mais importante onda de contestação desde sua independência, em 1960, desencadeada pelo fato de a gasolina na bomba ter dobrado de preço subitamente após a decisão governamental de acabar com os subsídios aos combustíveis. No início de janeiro de 2012, Aduke gravou “Hear the Voice”,2 uma canção dedicada “àqueles que não podem se expressar, aos invisíveis, a todos os que sobrevivem numa pobreza abjeta”. Esse trecho da música, cujo clipe foi exibido durante as manifestações, tornou-se o hino dos jovens manifestantes. Durante uma semana, eles tiveram como companheiras de cólera centenas de milhares de pessoas, que incluíam funcionários e operários, desempregados e empregados do setor privado, organizações religiosas pentecostais e muçulmanas, atores de Nollywood.3 Em 2014, a forte desvalorização da naira contribuiu para encarecer ainda mais o custo dos produtos importados de primeira necessidade. Numa população de 170 milhões de nigerianos, 64 milhões têm entre 15 e 34 anos, e dois terços deles estão sem emprego.4

Aduke divide a vida entre sua pequena empresa, onde fabrica camisetas, e a criação musical. Seu último show, em 25 de fevereiro, foi organizado pelo Freedom Park de Lagos em benefício do Enough is Enough [Só o necessário] Nigeria. A organização é dirigida por Yemi Adamolekun. Criada em 2010, ela reúne movimentos de jovens que lutam pela melhoria das condições de vida e contra a corrupção. A coalizão os convida a ir às urnas e conta com as redes sociais, como proclama seu site (www.eie.ng), para atingir a maior quantidade deles. Em 2014, 11 milhões de nigerianos estavam inscritos no Facebook e cerca de 6 milhões eram ativos no Twitter.5 O Enough is Enough conta com vários apoios externos, sobretudo o da rede Open Society Foundations, do bilionário George Soros.

Em 2012, depois que o presidente Jonathan finalmente aceitou reduzir o preço da gasolina, as duas principais centrais sindicais, a Nigeria Labour Congress e a Trade Union Congress, anunciaram a suspensão das manifestações. Estudantes pensaram por um tempo em prosseguir com o movimento, antes de abandoná-lo. A repressão policial tinha causado a morte de quinze pessoas, entre elas Mustapha Muyideen, de 23 anos, transformado no símbolo de uma juventude maltratada. Seja o que for que venha a acontecer no futuro, a “geração silenciosa” não mais irá se calar.

Alain Vicky é Jornalista.

 



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