O grande medo da Arábia Saudita - Le Monde Diplomatique

AFIRMAÇÃO DO IRÃ, TENSÃO NO CATAR

O grande medo da Arábia Saudita

por Alain Gresh
5 de maio de 2014
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No olho do furacão. Assim se sente a Arábia Saudita, cercada por ameaças às suas fronteiras, seja no Iêmen, seja no Iraque. O aumento do poder do Irã lhe parece um perigo mortal. O que fazer então em uma situação em que, além disso, se desenham os contornos de um acordo Washington-Teerã?Alain Gresh

 

O Irã sempre interferiu nos assuntos da Arábia Saudita. Em 2003, o sinal verde para os ataques da Al-Qaeda contra o reino1 veio de Teerã.” Professor da Universidade de Riad, nosso interlocutor parece seguro do que afirma. Ele se mantém impermeável à grande improbabilidade dessa aliança entre um regime xiita e uma organização sunita que não esconde seu ódio dos “hereges”. E não é o único a professar tais teorias. No diário Asharq Al-Awsat(12 fev.), de propriedade da família real saudita, o influente editorialista Tareq Homeid chamou os Estados Unidos a reconhecer que o Irã era o principal patrocinador da organização fundada por Osama bin Laden.

A explicação para essas estranhas especulações de tantas autoridades sauditas seria o sentimento de um cerco crescente ao país? “Em cada uma de nossas fronteiras, a instabilidade se estende. E, por trás dela, vemos a mão do Irã”, prossegue o professor. Instabilidade no Iraque, em primeiro lugar: os contatos entre a Arábia Saudita e o governo de Nouri al-Maliki estão praticamente rompidos. Em segundo lugar, no Bahrein, onde a revolta, na esteira da “Primavera” tunisiana e egípcia, foi entendida como uma tentativa de desestabilização vinda de Teerã, antes de ser dominada com a ajuda de tropas sauditas, em março 2011. Por fim, no Iêmen, onde uma oposição regional (chamada Houthis, em referência ao nome de seu fundador, Hussein Badreddin al-Houthi), de propósitos eminentemente internos, é atribuída a manobras obscuras dos Guardiões da Revolução iranianos.2

 

Apoio contestado ao poder egípcio

Nos embates sírio e libanês também encontramos os dois eixos que dominam a região: o Irã dirige o primeiro, com a Síria e o Hezbollah libanês, e a Arábia Saudita, o outro, com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Movimento 14 de Março, do ex-primeiro-ministro libanês Saad Hariri.

As preocupações percebidas na Arábia Saudita aumentaram com as fissuras no Conselho de Cooperação do Golfo (CCG).3 No início de dezembro de 2013, Omã opôs-se firmemente ao plano saudita de uma união de países do Golfo.4 Portanto, o projeto de um comando unificado, que permitiria reunir as forças militares dos seis países, continua no rascunho. Com exceção da Arábia Saudita e do Bahrein, os membros do CCG acolheram positivamente o acordo nuclear provisório entre Estados Unidos e Irã, em novembro de 2013, e receberam o ministro das Relações Exteriores iraniano. Até o momento, o Kuwait recusa-se a assinar o acordo do CCG sobre segurança interna desejado pela Arábia Saudita, pois o texto abre mão de muitas garantias sobre as liberdades consagradas em sua Constituição.5

Nesse contexto já incerto, a Arábia Saudita, seguida por dois parceiros do CCG, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, anunciaram no dia 5 de março de 2014 a retirada de seu embaixador do Catar.6 É verdade que as relações entre o reino e o pequeno emirado vizinho, embora sejam ambos wahabitas, raramente são serenas. Um conflito de fronteira chegou a produzir confrontos armados em 1992. A derrubada do emir por seu filho, Hamed ben Khalifa al-Thani, em 1995, agravou as tensões. Em 2002, a Arábia Saudita já tinha retirado seu embaixador em protesto contra um programa da emissora kuwaitiana da Al-Jazeera dedicado ao fundador da Arábia, o rei Ibn Saud. O diplomata só voltou ao seu posto em 2008, depois que o emirado prometeu atenuar as críticas transmitidas pelo canal via satélite.

Apesar do empenho conjunto para ajudar, inclusive militarmente, a oposição ao regime de Bashar al-Assad e acelerar sua queda, a Primavera Árabe alargou o fosso entre o Catar e a Arábia Saudita. O primeiro tornou-se o campeão das transformações em curso e aposta na Irmandade Muçulmana para colher os frutos. A Arábia Saudita, por sua vez, já amargurada pela queda de Hosni Mubarak no Egito e temendo a desestabilização da região, classifica a Irmandade como uma “organização terrorista”.

Depois de ser aliada da Arábia Saudita por muito tempo, desde 1990 a Irmandade Muçulmana desempenha um papel ativo na contestação dentro do reino.7 Ela passou a alvo essencial de uma repressão implacável que também atinge intelectuais liberais, como Mohammed al-Qahtani e Abdullah al-Hamed, condenados a pesadas penas de prisão. No início de fevereiro, a imprensa saudita publicou um decreto real punindo com três a vinte anos de prisão qualquer “pertencimento a correntes religiosas e intelectuais, grupos ou formações definidos como terroristas em nível nacional, regional ou internacional; qualquer apoio à sua ideologia ou visão, qualquer expressão de simpatia para com eles”. O documento esclarece que o “terrorismo” inclui o ateísmo e qualquer questionamento dos princípios fundamentais da religião muçulmana.

Embora os decretos tenham como alvo principal a Irmandade Muçulmana, eles também procuram encorajar os sauditas que foram lutar na Síria a voltar para casa. Segundo dados oficiais, são 1.400 deles lutando contra o regime de Al-Assad; dados mais críveis, porém não verificáveis, falam de 6 mil a 10 mil. Mas por que se preocupar com isso, quando toda a mídia do reino ataca o líder sírio? Porque a lembrança do retorno de milhares de combatentes que foram para o Afeganistão na década de 1980 ainda assombra. Como explica um diplomata no Golfo, “a política do reino em relação à Síria integra cada vez mais imperativos do ‘contraterrorismo’. O Ministério do Interior está particularmente preocupado”.8 Assim, Riad pediu publicamente que sua embaixada em Ancara tome todas as medidas para repatriar seus cidadãos em trânsito pela Turquia.

Ainda no comando, apesar de seus 90 anos, o rei Abdullah continua definindo as grandes linhas da política da Arábia Saudita, mas sua aplicação na Síria foi confiada a dois homens com objetivos distintos. O príncipe Mohammed bin Nayef, ministro do Interior, que esmagou a insurgência islâmica em 2003, tem como prioridade a “guerra contra o terrorismo”. Já o príncipe Bandar bin Sultan, chefe do serviço de inteligência desde julho de 2012, procura a eficácia na luta contra Al-Assad, o que inclui o apoio a grupos salafistas da Frente Islâmica. Sua falta de vigilância na entrega de armas preocupa os Estados Unidos. É provavelmente o que explica sua “renúncia”, que veio confirmar, no dia 15 de abril, a ascensão do chefe da polícia sobre o do serviço secreto.

O apoio aos rebeldes sírios é consenso na opinião pública saudita (exceto entre a minoria xiita); em compensação, o apoio à derrubada do presidente egípcio Mohamed Mursi, em julho de 2013, suscitou mais controvérsia. “Pela primeira vez, ouvimos críticas”, diz, sob a proteção do anonimato, um jornalista influente. “Por que apoiamos a derrubada de um presidente que reivindica o Islã? Por que afundamos bilhões de dólares no Egito quando temos problemas tão grandes de moradia e pobreza?” Outrora inaudível, esse desconforto expressa-se nas redes sociais, as quais as autoridades tentam, sem grande sucesso, controlar. “Em um mundo árabe no qual as potências tradicionais, como o Iraque, a Síria e o Egito, apagam-se, absorvidas por seus problemas internos, cada vez mais forças voltam-se contra nós. E não somos capazes de responder a elas. Somos impotentes para lidar com as crises no Iraque e no Bahrein, sem falar na Síria”, continua nosso interlocutor.

A mudança na política norte-americana aumentou consideravelmente a insegurança saudita. A recusa do presidente Barack Obama em bombardear a Síria em meados de 2013 e o acordo sobre a liquidação das armas químicas detidas pelo país provocaram um gesto sem precedentes: depois de lutar anos para ser eleita membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, e enfim ser aceita, a Arábia Saudita desistiu. O ministro das Relações Exteriores, príncipe Saud al-Faisal, decidiu não discursar na Assembleia Geral em protesto contra a falta de ação da ONU diante do drama sírio.

Depois disso, a revelação das negociações secretas entre Estados Unidos e Irã em Omã, seguida do anúncio de um acordo provisório sobre a questão nuclear, em novembro de 2013, reacendeu um velho fantasma da Arábia Saudita: a de um acordo entre Irã e Estados Unidos em detrimento dos árabes. “A ideia de que nossos interesses possam ser descartados por Irã e Estados Unidos nos preocupa”, disse em 2010 o príncipe Turki al-Faisal, ex-chefe da inteligência. “Então ficaríamos presos entre um Irã nuclear e um Israel nuclear.” E acrescentou, com um sorriso: “Agradecemos a Deus por [Mahmud] Ahmadinejad…”. A personalidade do ex-presidente iraniano realmente tornava esse cenário improvável.9 Mas Hassan Rohani, eleito em junho de 2013, veio suceder a ele, e a hipótese de tal mudança parece crível. O conteúdo de um eventual acordo nuclear preocupa menos a Arábia Saudita que o acordo em si e o fim do isolamento internacional do Irã.

 

Aliança estratégica com os EUA

As relações entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita passam por muitos altos e baixos. Como em um casamento, a parte mais fraca tem medo de ser abandonada. Mas a aliança continua sendo estratégica, pois atende aos interesses fundamentais de ambas as partes. O reino precisa dos Estados Unidos para sua segurança militar, como mostraram a Guerra do Kuwait de 1990-1991 e o péssimo desempenho de seu Exército contra a rebelião Houthi no Iêmen, em novembro-dezembro de 2009. Por sua vez, os Estados Unidos precisam da Arábia Saudita porque esta financia a indústria de armas norte-americana pela compra maciça (na maior parte inútil) e garante a estabilidade do mercado mundial de petróleo.

A visita do presidente Obama, no dia 28 de março de 2014, tinha o objetivo de relembrar esses princípios fundamentais e acalmar seus interlocutores sauditas. Com que sucesso? Como reconheceu um comentarista saudita entrevistado pela Al-Jazeera, a prioridade de Obama era chegar a um acordo sobre a questão nuclear com o Irã, enquanto a Arábia Saudita quer acima de tudo pôr fim à interferência iraniana na região. A família real terá de se adaptar.

“Ninguém vai nos convencer de que o Irã é um país pacífico”, escreve um analista saudita, que acrescenta: “Nossa segurança é uma prioridade e ninguém pode contestar nosso direito de defendê-la”.10 No entanto, de que margem de manobra dispõe o reino? Ele pode se distanciar dos Estados Unidos e reprimir a revolta no Bahrein, ou apoiar maciçamente o regime militar no Egito. Mas os Estados Unidos ainda não autorizaram o fornecimento de armas antiaéreas para a oposição síria, e ele não se atreveu a ignorar isso. Quanto às convergências “objetivas” entre Arábia Saudita e Israel em relação ao Irã, elas dificilmente podem converter-se em coordenação política, ainda que a imprensa tenha noticiado, aqui e ali, encontros “fortuitos” entre representantes dos dois países.11

A fraqueza saudita também se deve a um fator estrutural raramente destacado. O reino construiu sua legitimidade sobre um discurso puramente religioso, conservador e grandemente apolítico. O wahabismo e o salafismo pregam a submissão ao soberano e, embora saibam erradicar heresias religiosas, não têm nenhuma capacidade de lutar contra as “heresias” políticas. Nas décadas de 1950 e 1960, quando se opôs ao presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e ao nacionalismo árabe, a Arábia Saudita apelou à Irmandade Muçulmana, que lhe forneceu os quadros e os temas políticos de sua luta contra o rais. Mas, engajada na repressão contra a Irmandade Muçulmana, ela se encontra bastante desmunida do ponto de vista ideológico: a propaganda salafista dos canais via satélite hesita entre o conservadorismo apolítico, o discurso antixiita e as invocações puramente religiosas pouco comprometidas com as realidades regionais.

Mesmo a ideia de estabelecer uma “frente sunita” contra a “ameaça xiita e persa” não resiste à análise. A Turquia, também sunita, denuncia com persistência a ilegitimidade do poder egípcio. E países como Marrocos, Jordânia e Kuwait recusam-se a proibir a Irmandade Muçulmana, que é um elemento importante do jogo político interno.

É verdade que as relações com o Catar poderiam voltar a uma aparência de normalidade – os dois países negociam um acordo desde o fim de março. Mas é preciso excluir uma mudança radical da parte do novo emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, que sucedeu a seu pai no dia 25 de junho de 2013. Essa transição viu um homem de 33 anos suceder a outro de 60, que renunciou voluntariamente ao poder: ela deve ter sido como um insulto para a monarquia saudita dominada pelos gerontes. Mas talvez haja um pequeno consolo para a Arábia Saudita: poderíamos assistir a uma reorientação da linha da Al-Jazeera, cujo alinhamento total à Irmandade Muçulmana suscita críticas até nos círculos dirigentes do emirado.

O Irã, em compensação, desenvolve uma estratégia internacional ativa, forja alianças tanto com governos de esquerda na América Latina – da Venezuela ao Brasil – como com a “laica” Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e envia seu carismático ministro das Relações Exteriores aos Emirados e a Omã. “O problema não é o Irã”, lamenta um intelectual saudita, embora convencido da ameaça que o país faz pesar sobre a região. “Teerã tem uma estratégia política, diplomática e regional, e isso é normal. O problema é que nós não somos capazes de definir uma e segui-la”.

Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).



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