O império teme a Revolução Haitiana
O Haiti demonstrou solidariedade à causa da libertação da Venezuela, e jamais perdoaram a Venezuela porque, graças a Simón Bolívar, o vírus da liberdade se espalhou por toda a América Latina
A história está escrita e ninguém pode apagá-la. Primeiro, o Haiti foi a primeira república negra livre do mundo, mas depois que o país declarou sua independência da França em 1804, foi sancionada por grandes potências como Espanha, Inglaterra e França.
Nenhum império aplaudiu a coragem dos escravos rebeldes naquela época; pelo contrário, responderam a essa grande vitória com um bloqueio sufocante e uma dívida histórica que marcou o destino do país.
O mesmo aconteceu com a Venezuela após a morte do eterno presidente Hugo Chávez, e após a grande vitória eleitoral do presidente Nicolás Maduro: o império nunca reconheceu a vitória popular; pelo contrário, busca sufocar o povo venezuelano por meio de um bloqueio criminoso e coercitivo com mais de mil sanções…
As potências coloniais (principalmente França, Estados Unidos e Grã-Bretanha) temiam que o “vírus” da liberdade dos escravos se espalhasse para suas próprias colônias. Portanto, eles primeiro impuseram um bloqueio diplomático e comercial, isolando o Haiti. O país não foi reconhecido diplomaticamente por décadas.
Em 1806, Thomas Jefferson, pressionado pelos estados escravistas do Sul, proibiu o comércio com o Haiti, cortando sua principal fonte de apoio econômico.
Em 1825, diante da ameaça de outra invasão naval, o rei Carlos X da França impôs uma condição brutal para o reconhecimento da soberania do Haiti: a infame “Dívida da Independência”, ilegal e desumana, cobrada dos próprios escravos que haviam sido libertados. A França exigiu o pagamento integral de 150 milhões de francos-ouro (uma soma astronômica na época). Como o Haiti não tinha dinheiro, teve que pedir empréstimos a bancos franceses para pagar o governo francês. Isso criou um ciclo de juros compostos e, como consequência a longo prazo, essa sanção não foi apenas um “pagamento”; foi um fardo que prejudicou a economia haitiana por mais de um século.

Estima-se que o Haiti tenha destinado até 80% de seu orçamento nacional apenas para pagar os juros dessa dívida. Sem recursos, o país foi incapaz de construir escolas, hospitais ou infraestrutura básica durante sua formação. O Haiti só terminou de pagar a dívida (incluindo empréstimos bancários relacionados) em 1947. Apesar da feroz batalha travada pelos africanos para conquistar sua liberdade em 18 de novembro de 1791, na vasta savana de Vertières, os escravizados tiveram que comprar sua liberdade duas vezes: primeiro com sangue e depois com ouro. Além da ironia e da crueldade dos impérios mencionados no início, o Haiti deu um exemplo de solidariedade para o mundo quando o imperador Jean-Jacques Dessalines recebeu o general Francisco de Miranda no Haiti e lhe ofereceu todo o apoio possível para alcançar a independência da Venezuela. Dessalines chegou a autorizar Miranda a hastear a bandeira venezuelana na costa de Jacmel, no sul do Haiti. Infelizmente, Francisco de Miranda não conseguiu a independência da Venezuela. Anos depois, o libertador Simón Bolívar foi ao Haiti para se encontrar com o presidente Alexandre Pétion. Apesar de todas as dificuldades econômicas enfrentadas pela primeira república negra livre, Pétion ofereceu a Bolívar seu apoio total para libertar não apenas a Venezuela, mas todos os países da América Latina. Bolívar abraçou essa grande promessa, e assim foi. Os impérios fizeram de tudo para impedir a libertação dos escravos na América Latina, mas com o Haiti e a Venezuela, a luta antiescravista era indestrutível. O que estamos vivenciando não é coincidência. Jamais perdoarão a coragem do Haiti ao destruir a força armada mais poderosa da época e ousar romper o bloqueio diplomático. O Haiti demonstrou solidariedade à causa da libertação da Venezuela, e jamais perdoaram a Venezuela porque, graças a Simón Bolívar, o vírus da liberdade se espalhou por toda a América Latina. Haiti e Venezuela são o pesadelo do império em declínio.
Quando Toussaint Louverture foi capturado pelas tropas de Napoleão em 1802 e levado para a França, ele disse: “Ao meu derrubarem, apenas o tronco da árvore da Liberdade Negra em São Domingos foi derrubado; mas ela brotará novamente de suas raízes, pois elas são profundas e numerosas”.
Toussaint não era apenas um guerreiro, era um político astuto que baseava sua liderança em três conceitos: Liberdade Universal, Disciplina e Trabalho, e Autonomia.
Quando Hugo Chávez foi brutalmente atacado pelo império, que buscava derrubá-lo, ele disse: “Chávez não sou eu, Chávez não é mais um homem, Chávez é um povo rebelde”.
O eterno comandante não era apenas um militar, um visionário, um político astuto que baseava sua liderança em três conceitos: Unidade, Luta e Batalha, e Vitória.
Unidade – Luta e Batalha – Vitória…
Os abusos de poder contra o Haiti e a Venezuela continuarão. O império norte-americano não respeita o direito internacional, as Convenções de Genebra ou os votos dos Estados-membros da ONU. Há anos gera caos político no Haiti e também passou anos tentando desestabilizar a Venezuela, pois a Revolução Haitiana representa o pesadelo do governo dos Estados Unidos.
No Haiti, orquestraram golpes de Estado e assassinaram o presidente democraticamente eleito. Na Venezuela, orquestraram golpes de Estado e sequestraram o presidente democraticamente eleito.
Portanto, clamamos pela união entre os povos da região, especialmente Haiti e Venezuela, para derrotar o império selvagem cujo líder negativo é Donald Trump. Seu único objetivo é roubar e saquear nossos recursos naturais, como terras raras, petróleo e ouro, entre outros, e pretendem mergulhar nosso povo na miséria em nome da democracia. Parafraseando Simón Bolívar, o diabo ainda está na América Latina. A América Latina ainda exala sofrimento, mas, em união e consciência, Haiti e Venezuela sairão vitoriosos.
Atacar a Venezuela é uma estratégia política para apagar a Revolução Haitiana do mapa.
Jean Edmond Paul é membro do Movimento SOVE AYITI na Venezuela.
Artigo traduzido por Carlos Francisco Bauer, diretor do grupo de pesquisa “Haiti: descolonização e libertação. Estudos contemporâneos e críticos” da Universidade de Integração Latino-Americana (Unila).

