O lar se desloca? Existências em exílio de refugiados

contínuo mover-se

O lar se desloca? Existências em exílio de refugiados

por Beatriz Brandão
29 de outubro de 2020
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O exemplo de crianças que “são Somália, mas nunca viram Somália”, pode se enquadrar num sentido de refugiados que, ainda que não se reconheçam em sua cultura natal e que tenham se socializado nos moldes do novo espaço-tempo que habitam, ainda assim estão ligados à sua terra

O lar se desloca? O escritor afegão, Atiq Rahimi (2018), diria que sim, o lar se desloca, quando narra que foi “nascido na Índia, encarnado no Afeganistão, reencarnado na França”. As crianças refugiadas de Kakuma nos dariam, como espanto, frases do gênero: “sou Somália, mas nunca vivi Somália”[1]. O deslocamento de lares é visitado, também, nas escutas de Bruna Kadletz (2019), ao ouvir de Said As[2] que “todas as pessoas moram em sua terra, mas a minha mora em mim”[3]. Formulei a pergunta que abre esse texto durante o processo de minhas pesquisas com refugiados, na Itália e no Brasil, porque percebia um sentido de casa num contínuo mover-se. Movem-se num encaminhamento para a mudança, como também para algo que os escapa. A ação de mover, dentro da construção de um exílio, não implica o verbo remover. Eles se movem sem a remoção de seus pretéritos, é quando o lar se desloca para dentro (de si).

A pergunta que me faço, a partir disso, seria: que roteiros os deslocamentos de lares possibilitam para que se construam novos marcos identitários? Há muitas respostas possíveis para essa pergunta que não encontram amparo num simples “sim” ou “não”.  Mas há maior complexidade no modo que esses imigrantes forçados vão processar e articular esse deslocamento de seus lares. Se é a constituição de um novo paradigma de vida, se é a circunscrição do exílio num circuito, com suas passagens e suas paragens.

O exemplo de crianças que “são Somália, mas nunca viram Somália”, pode se enquadrar num sentido de refugiados que, ainda que não se reconheçam em sua cultura natal e que tenham se socializado nos moldes do novo espaço-tempo que habitam, ainda assim estão ligados à sua terra. Ainda a pertencem, mesmo sem um relacionamento ou sem conhecimento de sua materialidade, isso mostra que não se precisa do tátil para se sentir. Não foi necessário viver ou conhecer aquele lar para serem e se pertencerem a ele. O lar se moveu para dentro (deles).  Essa – imaginária – desarticulação entre tais espaços nos atenta para o fato de que metade da população global de refugiados é composta por crianças e adolescentes, que não vivenciaram seus códigos, símbolos, culturas e que, irão construir novos e absorver com a sociedade que os recepcionar. O quanto de seus lares não conhecidos estão nas novas construções de suas vivências? É importante notar que o lar não ficou circunscrito a um território, crianças que não o conheceram ou adultos que o deixaram, serão “sempre Somália”. Mesmo quando seus laços sociais sejam mais fortificados e se reconheçam nos regimes de vínculo que os ligam à “nova” sociedade.

Apesar de ter pensado essa pergunta há algum tempo, dois motivos me retornam a ela nesse momento específico. Um deles é o cenário da Covid-19 e as mudanças relacionais inerentes a ele.  A pandemia acirrou toda a dificuldade referente à vida dos imigrantes no Brasil: como a passagem pelo luto e rituais funerários, a precariedade do acolhimento, o parco alcance de direitos sociais e a situação dos indocumentados, já que muitos apresentam dificuldades para se obter o auxílio emergencial, o que aprofunda suas vulnerabilidades devido a situação documental. Nesse contexto, a pergunta se o lar se desloca se relaciona, prioritariamente, as construções e tipos de enlutamento e como o deslocamento de lares está inscrito como resposta ao luto a pessoas, territórios e objetos.

Metade da população global de refugiados é composta por crianças e adolescentes, que não vivenciaram seus códigos, símbolos, culturas. (Crédito: Unsplash)
O luto em deslocamento e em isolamento

Muitas pessoas deixam sua terra com sua família, parte dela ou absolutamente sós. Já partem ao somatizar perdas, na necessidade impositiva de ressignificar seus processos rituais, dentro da privação de lutos, no plural. Os rituais são suspensos por alguns motivos, seja por crises sanitárias, estados de exceção, guerras, motivações políticas. Eles são interrompidos porque algo não se encontra no mesmo fluxo numa determinada sociedade, acontece quando ela é descaracterizada de alguma maneira, fazendo com que um espaço em sua trajetória fique entre aberto.

Se o exemplo mencionado destaca a existência de um luto em deslocamento, o exercício da quarentena na pandemia apresenta um luto em isolamento. A partir da pandemia vemos formas de ritualizar em escalas, que vão da presença não permitida no hospital, junto ao doente, até o momento do cemitério, no velório e sepultamento, sendo esse crucial para se concernir como um rito de despedida. As negativas de despedidas fazem com que tenhamos que lidar com uma quantidade de ausências, que negam, do mesmo modo, o ato político que é fazer o luto, nos levando a uma racionalidade sanitária aos mortos.

A questão posta é que a pandemia acirrou e fez com que mais pessoas vivenciassem algo que já era comum na vida de um refugiado. O seu deslocamento suspende o luto, em sua forma ritualística, de vivência processual de lidar com a dor. Hoje muito se debate sobre como a falta de rituais de passagem vida/morte, o afastamento dos ritos funerários afeta as despedidas e provoca consequências. O luto era algo em suspenso numa vida em trânsito do imigrante e refugiado, que não tinha espaço-tempo para depositar sua dor, tendo seu sofrimento sempre encarnado numa carreira de rupturas. Agora vemos isso ser radicalizado numa relação entre deslocamento /isolamento.

O que pretendo com esse texto, a partir do questionamento que o transpassa (se o lar se desloca) é perceber a dimensão de que o luto não é somente sobre pessoas, mas a constância desse sentimento se perpetua e a realidade em trânsito. Como disse, ele se relaciona a pessoas territórios e objetos e, para esse momento opto por trazer a vida dos objetos.

 

Objetos: biografias que percorrem

E se você tivesse que abandonar a sua casa imediatamente, que objeto levaria consigo? Um que te fornecesse utilidade durante o percurso desconhecido? Proteção? Segurança? Afeto? Quais seriam os seus critérios? O marroquino Ahmad Basma[4], meu interlocutor de pesquisa, decidiu levar com ele um instrumento musical, Krakeb (Música Gnawa). Curiosamente, ele não tocava ao sair de sua terra e foi como se a escolha do objeto atuasse como um presságio, Ahmad se tornou músico após o seu exílio. Dizia ele ter trazido o instrumento porque a música é uma linguagem universal e conseguiria se manter conectado ao seu país.  “Eu não era músico, mas sempre gostei da música Gnawa, e com esse tipo de som eu consigo manter a conexão com minha terra, porque talvez eu não vou voltar”, contou Ahmad.

Instrumento musical, Krakeb. (Crédito: Ahmad Basma)

A importância dos objetos que são levados para o percurso dos refugiados demonstra sobre a relação do que não quer enlutar-se, conta como uma materialidade de sua biografia; uma possibilidade de retorno, para além dos acessos à memória; o lar materializado em seu deslocamento forçado. Uma forma de lembrar-se vivo e o retomar de zonas de esquecimento coletivo. Um dos modos de registro de como esses objetos percorrem foi feito por meio de projetos de contação de histórias por fotografias. Uma delas foi a iniciativa da série fotográfica “A Coisa Mais Importante”, vinculada à campanha global “Uma Família”, lançada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), com o intuito de “dar cara às vítimas das guerras que acontecem no mundo”, segundo o Alto Comissariado.

Todo esse debate em torno dos objetos, no que nomeei, como biografias que percorrem, dialoga com o que o antropólogo indiano Arjun Appadurai analisa sobre uma vida social das coisas. Isso quer dizer que as coisas, tal qual as pessoas, podem ser pensadas a partir de uma história biográfica. A análise de Appadurai se concentra na perspectiva das lógicas de consumo, mercadoria, trocas e circulação, mas o substancial que trago de sua ideia, nesse texto, é o que ele mesmo disse neste trecho: “temos que seguir as coisas em si mesmas, pois seus significados estão inscritos em suas formas, seus usos, suas trajetórias. Somente pela análise dessas trajetórias podemos interpretar as transações e cálculos humanos que dão vida às coisas” (APPADURAI, 2008: 87).

Sua obra abriu para perguntas sobre como os homens conferiam autonomia aos objetos, a fim de que eles possam não somente representar, mas, fazer. Da mesma forma, autores como Alfred Gell (1998), Bruno Latour (2009) e Tim Ingold (2011) abrem a vista para esse novo materialismo, em que coisas e objetos são relacionais, estão arrolados em processos ativos de materialização, agem eles também como agentes e atores legítimos, e não apenas como elementos passivos das dinâmicas sociais.

Minha escolha para saber se o lar se desloca foi seguir pistas e rastros dos objetos escolhidos – pelos refugiados – para seus trajetos. Foi o de compreender tais coisas como parte biográfica de suas vidas, já que estão encruzados. Já que fazem parte do mover-se, que ao mesmo tempo indica mudança e aponta para algo que os escapa. É nesse sentido que acredito que o lar se desloca por afetos itinerantes, representação fugidia, fazendo dos objetos também um lugar. Um lugar da existência política, um filtro para as suas narrativas de sofrimento, uma forma de estar sempre integrado, com um laço formado com o que teve que deixar.

Seja na pandemia, ou fora dela, refugiados podem ritualizar seus objetos nos momentos em que precisam suspender seus lutos, como algo que os mostra que nem tudo teve que ser entregue ou do que não teve que ficar pelo caminho, do que permaneceu e perdurou, do que não se deu ao ar, do que não teve que se enlutar. Os objetos remontam a capacidade de se mostrarem reconhecíveis, ao portar o que se tem. Mostra a materialidade da partitura dos refugiados, que se inscreve entre o êxodo, o exílio e, sobretudo sobre o lar. Talvez sejam eles possíveis visualizadores de suas gramáticas, em que conflito e imigração, não antes sinônimos passam a sê-lo.

 

Beatriz Brandão é doutora em Ciências Sociais pela PUC-RIO e pós-doutoranda em Sociologia pela USP. É especialista em políticas públicas, estudos diplomáticos e atua como pesquisadora do IPEA. Pesquisa temas transversais ao conflito e à arte na interface com drogas, refúgio e gênero.

 

Referências Bibliográficas

APPADURAI, Arjun. (Org.) (2008). A Vida social das Coisas: As Mercadorias sob uma Perspectiva Cultural. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense.

 

GELL, Alfred. (1998). Art and Agency. An Anthropological Theory. United Kingdom: Oxford University Press.

 

INGOLD, Tim. (2011). Being Alive: Essays on Movement, Knowledge, and Description. London: Routledge.

 

KADLETZ, Bruna (2019). Minha terra mora em mim. Florianópolis: Editora Insular,

 

LATOUR, Bruno (2009). Jamais Fomos Modernos. São Paulo: Editora 34.

 

RAHIMI, Atiq (2018). A balada do cálamo. São Paulo: Editora Estação Liberdade.

 

 

[1] Frase narrada por Marie Ange Bordas, em seu trabalho com crianças do campo de refugiados de Kakuma, no Quénia. Ver mais sobre a autora e suas obras em: http://www.marieangebordas.com/

[2] Said As é refugiado palestino no campo Bourj el-Barajneh, em Beirute, Líbano.

[3] Parte da frase de Said As se tornou o título de seu livro: “Minha terra mora em mim”: https://www.migramundo.com/minha-terra-mora-em-mim-livro-traz-historias-de-pessoas-em-refugio/

[4] Nome fictício.



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