O refúgio na arte - Le Monde Diplomatique

RESISTÊNCIA CULTURAL

O refúgio na arte

por Beatriz Brandão
Maio 7, 2019
Imagem por Agência Brasil
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A chegada e o caminho de um refugiado no Brasil são demarcados por fronteiras e descontinuidades. A partir do momento que recebe seu protocolo de refúgio – que para muitos não é tido como documento oficial, ainda que seja sua provisória identidade –, o refugiado entra num sistema de redes institucionais nas quais vai buscar acolhimento. Trajeto marcado por uma série de interrupções que põe em fricção as formas e usos daquele país que deixou e que “não existe mais” para se adequar, sem perder suas marcações culturais anteriores, aos códigos desse país que, para ele, “não existe ainda”.

Das manchetes de jornais e dos dados estatísticos, a situação dos migrantes e refugiados passou com mais força aos palcos de teatro, filmes renomados e até novelas de TV. Tornou-se corrente a produção sobre eles, a reconstrução de seus dramas e a expressão de suas biografias em arte. No entanto, há um hiato entre a ruptura e a integração em que essa produção deixa de ser somente sobre eles e passa a ter mobilização artística com eles. Como forma de interação social, o refúgio se torna tema artístico e os migrantes se refugiam na arte numa dramatização da realidade de suas trajetórias.

Como dar conta dos 25 milhões[1] de refugiados no mundo numa integração que os absorva como cidadãos, com capacidade de visibilidade e intervenção cultural? Seria a arte uma dessas formas de pertencimento possível? Seria uma forma de resiliência de si e resistência a uma política do sofrimento? Talvez o questionamento de como eles se transformam nos diversos deslocamentos seja capaz de mostrar o que o olhar dos refugiados agrega nas narrativas que os limitam. Refugiados são cidadãos dentro dos demarcadores de diferenças estatais e, se passam a existir como cidadãos, como se apropriam desse lugar que teoricamente não é deles? Diante de desafios políticos cujos anseios, necessidades e desejos dos refugiados são calados, formam-se pelo mundo, principalmente nos países receptores, oficinas e companhias de teatro. Se por via institucional eles não têm fácil ingresso na vida política, na vida pública, na imprensa daquela cultura, a arte acaba sendo representativa e criadora de pontes, cria uma via comunicacional que possa reverter ou se utilizar do preconceito como reflexão.

Meu primeiro contato com esse tema foi durante uma pesquisa com refugiados em Roma, na Itália, em 2012. Nesse tempo, tive contato com muitos africanos refugiados e um deles, Daraja[2] da Costa do Marfim, diferente do destino convencional de seguir as profissões dos cursos que faziam estimulados pela instituição (jardinagem, obra civil, panificação), se tornou ator. Ele me convidava para as suas primeiras peças com entusiasmo, de alguém que inicia algo que pretende desenvolvimento profissional. Era visível como, de todas as formas que o integravam na comunidade italiana (abrigo, escola, curso de jardinagem), o teatro era o que ele conseguia vislumbrar um maior vínculo com o país, que mais o propiciava um aprendizado da língua e um lugar de resistência que não o obrigava a abandonar seus códigos culturais para ali permanecer.

Aquele era um tema forte na Europa, ainda mais na Itália que tinha entrada mais facilitada por causa da Ilha de Lampedusa, considerada a porta de entrada dos refugiados. Porém – para além de peças esporádicas sobre suas vidas e dificuldades de fugir da guerra e adentrar em território estrangeiro – não era tão divulgadas escolas de arte que se voltavam com ênfase ou exclusivamente para essa realidade. Vi a arte como meio de inserção e vocalização e sua via teatral como modo de ocupação de espaço cultural possível para receber e apresentar sua história.

Daraja faz parte da Back Reality, companhia italiana de Roma que atua com o objetivo de “contar o dia a dia do confronto e integração daqueles que buscam uma nova cidadania. Os migrantes são testemunhas importantes aqui e, acima de tudo, protagonistas do processo criativo dos espetáculos, um trabalho de integração e inclusão social realizado através do teatro com refugiados”. No entanto, não é à Itália, tampouco à Europa que se limita a essa ação, no Brasil também tem crescido o número de escolas e companhias que se engajam nessa temática.

A entrada brasileira se torna cada vez mais presente e as estratégias para o acolhimento tendem a ser cada vez mais articuladas, já que o aumento do fluxo migratório provoca transformações demográficas, em que os desafios são compartilhados tanto para o que busca abrigo quanto ao território que o recebe. Países como França, Inglaterra e Estados Unidos estão entre os espaços receptores com maior número de imigrantes. O Brasil ainda não se tornou um país com tradição na recepção de refugiados, no entanto, temos um crescente número de solicitante de refúgio, já que nos últimos seis anos houve um considerável aumento de cerca de 3% nos pedidos de abrigo. Dentre esses, as principais nacionalidades que procuram o Brasil sob o argumento da facilidade para o visto são sírios, angolanos e congoleses.

De uma iniciativa movente da Europa para países americanos, vemos em Portugal a RefugiActos, projeto ligado ao Conselho Português para os Refugiados. O grupo possui seu projeto de práticas artísticas para inclusão social em que o teatro faz parte de um projeto decisivo para a integração e a língua, com corpo de operadores formado por professores de português. No vídeo produzido por eles, alguns refugiados destacam o teatro como o lugar que se sentem “pessoas sem ter que serem toda vez lembrados que são estrangeiros e que não falam a língua”.[3] Ainda em Portugal também há o Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana que, junto do encenador britânico Graeme Pulleyn, produziu um roteiro escrito a partir de relatos reais de refugiados, imigrantes ilegais, militares, elementos das forças policiais e técnicos de instituições públicas e privadas que trabalham com migrantes. Na Bélgica se destaca a companhia de teatro PeaceCraft, formada só por refugiados.

Na França há projetos realizados por Ariane Mnouchkine, diretora do Théâtre du Soleil, em Paris, com as peças: “Le Dernier Caravanserail”, que conta a saga de refugiados em Une chambre en Inde (Um quarto na Índia), ao abordar os conflitos na Síria e em outras regiões do Oriente Médio, o terrorismo e o radicalismo religioso, os refugiados ou a opressão às mulheres. Na Espanha, em Barcelona, existe, ainda, a Agrupación Señor Serrano, que venceu o Leão de Prata da Bienal de Veneza 2015, ao discutir o fenômeno da miragem e do refúgio com a ajuda da cenografia e projeções na peça “Birdie”. O agrupamento se apresentou no Brasil, em 2016,[4] no Festival Mirada em São Paulo, com o espetáculo “Fugit”, na forma de teatro fórum, onde os espectadores fazem o percurso junto com os artistas, como se estivessem realmente fugindo para um outro país.

O Brasil também iniciou a discussão dos refugiados pelo teatro com projetos artísticos potentes. Em São Paulo se formou o Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-teto de São Paulo (GRIST), na Ocupação Hotel Cambridge em que imigrantes, refugiados e brasileiros moradores das ocupações do Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC) podem expressar, através do teatro, suas inquietações e visões artísticas. Ele é também relacionado ao coletivo Performatro, vinculado ao Programa VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que investe no projeto “São Paulo Refúgio”.[5]

As universidades também entram nesses projetos, como a “Oficina Estético-Política com pessoas refugiadas e solicitantes de refúgio” do Laboratório de Estética e Política da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LEP-ECO-UFRJ), coordenado por Alessandra Vanucci e Daniel Pimentel. O projeto conta a história do marroquino Mohamed El Jazouli e roda por escolas e outras universidades e espaços culturais com a peça Uma odisseia. Por meio da técnica do Teatro Fórum, de Augusto Boal, Mohamed transforma-se em Ulisses, personagem épico atribuído a Homero, um refugiado pós-guerra de Troia, o “ninguém” em língua grega. Ao narrar os percalços de um refugiado que acaba de chegar no Brasil, pretende debater cidadania e a transformação desse considerado “ninguém” em alguém aceito.

Para além de iniciativas para adultos, o Coletivo Galochas, em Curitiba, produziu a peça “Cantos de refúgio”.[6] Curitiba tem também o Tecer Teatro, com o espetáculo principal “KAZA”, que é sobre “incomunicabilidade, sobre como expressar a dor. E finalmente, como tudo isso transforma seres humanos em invisíveis, marginais, estrangeiros. Pode-se falar em superação, em reconstrução, transformação ou em transcendência. Em perspectiva. Ou em um nada perene. Não temos essa resposta”.

A frase expressa pela companhia Tecer – “não temos essa resposta” – também guia as inquietações de grande parte da sociedade. Parte que pensa o lugar que esses grupos e oficinas estão articulando em vários países, incluindo o Brasil, com amplas práticas de inclusão pela arte para refugiados, efetiva nos termos de integração e articulação que envolve cidadania, direitos, aceitação e a dimensão subjetiva de inserção social e política. Esses exemplos de cias. de teatro nos fornecem percepção de como essas iniciativas têm se tornado relevantes, em número quantitativo e na iniciativa de diversos países. A existência e disseminação de tais cias. na Europa[7] nos apresenta uma problemática atual e de dimensão não somente europeia, mas mundial.

A chegada e o caminho de um refugiado no Brasil são demarcados por fronteiras e descontinuidades. A partir do momento que recebe seu protocolo de refúgio – que para muitos não é tido como documento oficial, ainda que seja sua provisória identidade –, o refugiado entra num sistema de redes institucionais nas quais vai buscar acolhimento. Trajeto marcado por uma série de interrupções que põe em fricção as formas e usos daquele país que deixou e que “não existe mais” para se adequar, sem perder suas marcações culturais anteriores, aos códigos desse país que, para ele, “não existe ainda”.

Exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, no Parque Lage, no Rio.

 

A questão imposta é sobre compreender as novas territorialidades surgidas desses impasses e “para onde mandar os indivíduos que não possuem mais nenhuma utilidade e que, por sua vez, não podem mais ser incorporados a nenhum sistema produtivo?” Se quisermos ver com justiça toda a complexidade da situação dos refugiados, não podemos associar exclusivamente a questão dos direitos políticos à da inscrição nacional. Nestes tempos de mundialização, outros espaços podem ser os lugares da existência política.

Respeitemos, assim, as reivindicações que levam a atos de visibilidades e afirmação de presença que se reconhecem como sujeitos políticos na intenção de irrupções na esfera pública. É por ai que vejo ser a arte e o teatro entendidos como atuantes instrumentos de luta por espaço, visibilidade e o reconhecimento. Assim, seriam tais mobilizações que “expressam, materializam e performatizam desejos, aspirações e utopias”.[8] Num roteiro que deve, antes de tudo, matizar trajetórias, medos, experiências, desafios, novas dimensões do estar aqui, ser um potencial provedor da visualização de sua gramática de riscos e repertório de vida, traduzido na partitura do personagem. Seriam as mobilizações artísticas como espaços de existência política, como formas de reivindicações por atores diversos e heterogêneos que buscam, prioritariamente, a visibilidade pelo reconhecimento.

Há uma “política da vida que resiste”. Ao afirmar essa frase se referindo aos campos de refugiados, o antropólogo francês Michel Agier[9] nos encaminha ao pensamento que diante do aumento do número de solicitantes de refúgio, há uma realidade que não pode ser ignorada. Realidade que se expressa em dramas que movem tanto as esferas públicas quanto a sociabilidade cotidiana, o questionamento sobre uma gestão de pessoas que não são integradas, sobre aquelas que não podem ser absorvidas por políticas de encerramento e aniquilamento das pessoas.

A arte seria uma forma deles se apropriarem desses novos espaços, os dando senso de pertencimento a partir da expressão, ou mesmo qual a importância da expressão para eles? Sendo assim, por que a existência de teatro para refugiados, mais uma demarcação? Teatro como ponte para trazer o testemunhar constante da pergunta que os abate diariamente: “como eu me torno presente, como marco minha existência no mundo?”

Talvez seja esse o caminho aberto por essas manifestações, àquele do afastamento dos termos ausência e ruptura, para que performatizem os sentidos dos refugiados serem – e se sentirem – não somente cidadãos, como também atores políticos. Acredito na necessidade de sempre mais pesquisas com refugiados no Brasil por um motivo já mencionado por Mohamed Eljaziu:[10] “a presença do migrante e refugiado tem essa função didática e empírica de grande valia para o desenvolvimento humano e abertura do brasileiro sobre o mundo. Diria que não é o refugiado que precisa do Brasil, mas o Brasil que precisa de seus migrantes e refugiados”.

 

Beatriz Brandão é jornalista, escritora, doutora em Ciências Sociais e professora de Sociologia da UFRJ.

 

[1] Número divulgado pela ONU em 2016.

[2] Nome fictício.

[3] Ver em: https://nomundodosmuseus.hypotheses.org/tag/peca-de-teatro-sobre-refugiados.

[4] Ver mais em: https://mirada.sescsp.org.br/2016/teatro/refugiados-no-teatro/.

[5] Ver mais em: http://www.revistapublicitta.com.br/acao/cases/o-drama-dos-refugiados-no-brasil-chega-ao-teatro/.

[6] Ver mais em: https://www.coletivodegalochas.com.br/index.php/2016/02/27/cantos-de-refugio/.

[7] Ver mais em: https://www.swissinfo.ch/por/teatro-ajuda-a-compreender-drama-dos-refugiados/3358260.

[8] MARINUCCI, Roberto. Mobilizações de migrantes e refugiados: as lutas pela visibilidade e pelo reconhecimento. REMHU, Rev. Interdiscip. Mobil. Hum, v.24, n.48, Brasília, set./dez. 2016.

[9] AGIER, Michel. Refugiados diante da nova ordem mundial. São Paulo, SP, Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, v. 18, n. 2, 2006, p.197-215).

[10] ELHAJJI, Mohammed. Migrantes, uma minoria transacional em busca de cidadania universal. INTERIN, v.22, n.1, jan./jun. 2017. p.203-220.



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