NEGRITUDE, ANTIRRACISMO E O BRASIL QUE AINDA SEREMOS!

O legado histórico e a contemporaneidade da revista Niger

Somos uma sociedade racista histórica e contemporânea, que precisa superar essa sua condição social basilar para se tornar uma nação de fato!

“Estamos chegando, do chão dos quilombos/
Estamos chegando, no som dos tambores/
Dos novos Palmares, nós somos/
Viemos lutar”

“A de Ó (Estamos Chegando)” – Milton Nascimento.

 

A edição fac-similar da revista Niger: publicação a serviço da coletividade negra, em 2025, pela Ciclo Contínuo Editorial não se dá apenas enquanto um momento de celebração a vida e militância do jornalista José Benedito Correia Leite (1900-1989), mas também de resgate e revalorização de um dos momentos seminais da imprensa negra no Brasil.

Lançada originalmente em 1960, entre os meses de julho a outubro – com quatro edições ao todo negritude brasileira manifesta o espirito de sua época, de uma comunidade negra ainda com a herança viva da escravidão se fazendo presente de seu cotidiano familiar, com seus traumas psicológicos e sequelas sociais sendo expostos, confrontados e dissecados pelas inúmeras formas e expressões do que hoje podemos trabalhar por uma perspectiva de construção conceitual e política de uma negritude brasileira, atrelada a vida em sociedade num modelo de república capitalista periférica. Ideologicamente moldada com os valores de sociabilidades e relações de poder por um prisma ainda escravocrata e senhorial, intrinsicamente racista.

A Niger, apesar de suas poucas edições e de seu foco editorial se dar a partir das vivências e manifestações que se originavam a partir da comunidade afro-paulista, em especial a paulistana, se fez enquanto um retrato geral e instantâneo dos processos de resistências negras e antirracistas que se moldam no Brasil entre o final dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Pondo destaque sobre um período temporal em que comumente se faz ignorar pela historiografia tradicional, com a existência de articulações políticas e culturais afro-brasileiras, que vão influenciar diretamente a constituição do moderno movimento negro que irrompe no país em meados da década de 1960.

Nas páginas da edição fac-símile, é perceptível a unidade conceitual e discursiva que permeava a publicação, dando uma identidade a obra. Refletindo uma personalidade editorial modernizante em redigir nas suas páginas temáticas, artigos, debates, reportagens, fotografias que rompem a discursiva – a época hegemônica – da democracia racial, com sua ideologia perversa de que não haveria racismo no Brasil e de que toda ação ou discurso em contrário seria nociva e perigosa a “nossa” ordem e coesão social enquanto um só povo e nação.

Um conjunto editorial que se pautava por uma extrema coragem em pautar tais recortes e perspectivas – com suas denúncias e repúdios a ocorrência de atos de racismo no Brasil e no mundo – ainda mais se dando a partir de uma cidade e de um estado que literalmente apagava as influências e vivências negras tanto ao longo de sua história, quanto de sua modernidade. Órgão de comunicação da imprensa negra que atacava diretamente a esse processo de invisibilidade social e apagamento histórico que se dava na sociedade paulista. Ao mesmo tempo em que inseria ao cenário político nacional a ocorrência, as historicidades, demandas e reivindicações de um segmento humano que insistia em se fazer existir através de suas vivências e potências de humanidades, mesmo sendo posto para fora dos padrões legitimados por nossos cânones sociais.

Processos de relações internas da comunidade negra paulista e brasileira, que acabamos por (re)descobrir, em que se percebe como estas se situavam e se percebiam em meio a uma sociedade que se constituiu no sentido de lhe ignorar e renegar em existência.

Foto da capa e contra-capa da revista Niger. Existe uma mulher na capa olhando um livro e um homem na contra-capa
Crédito: Divulgação/Cíclo Contínuo

Ao mesmo tempo em que não tinha pudores em expor as tensões, contradições e disputas internas que se faziam ocorrer no interior da própria revista, como por exemplo:

  • O uso das pautas políticas negras por representantes não compromissados de fato com a causa;
  • Uma discursiva antirracista que oscilava entre uma reivindicatória integracionista e outra mais antissistêmica;
  • A coexistência – nem sempre harmoniosa – entre uma negritude mais nacionalista e conservadora, com outra mais internacionalista e progressista;
  • Propaganda de produto de alisamento capilar, como forma de embelezamento, em especial das mulheres, numa estética de assimilação do branqueamento da população negra. O que expõem os processos de contradições sociais e o poder de alienação da discursiva ideológica da democracia racial, que se fazia ativa – mesmo que de maneira inconsciente presente nas ações antirracistas da intelligentsia negra daquele período.

Mas que ao final, demonstram a construção de uma linha editorial política de cunho antirracista e de negritude. Que se dava enquanto um anúncio do processo de reconstrução do movimento negro brasileiro que se faria perceptível já em final dos anos 1960, tendo sua consolidação enquanto novo agente coletivo da política nacional a partir de meados da década de 1970.

Por isso, esse conjunto de publicações da revista Niger, se dá no sentido de um recorte temporal de um período histórico-político de rearticulação e debates internos do movimento de negritude no país. De uma práxis política negra não “apenas” reivindicatória. Mas que se colocava em busca pela construção de um novo processo de representação política-cultural-social negra em substituição ao fim arbitrário da Frente Negra Brasileira (FNB) durante a ditadura varguista do “Estado Novo”, em 1937.

Desse modo, possibilitando compreender essa revista como consequência direta da movimentação de setores da comunidade negra em se organizar perante as novas demandas políticas e econômicas que acabavam por definir os conjuntos das relações sociais capitalistas de poder no Brasil, após o final da “Segunda Guerra Mundial”.

Época de transição e indefinição da negritude em nosso no país, que ainda se faz pouco estudada, mas que essa obra fac-símile evidencia a sua importância, para aquilo que depois se consolidaria como a constituição do moderno movimento negro brasileiro.

Por isso, sendo uma revista que para além das reportagens, artigos, editoriais, poemas e fotografias, trazia em suas páginas uma viva e dinâmica nova forma de contestação a “nossa” ordem civilizatória de harmonia social e democracia racial.

Mantendo viva essa forma de representação social, cultural e política de cunho popular, que se fez existir e atuante em plena época de negação acerca de uma vivência, de uma existência e circulação negra na sociedade paulista, em especial nos costumes e destinos da sua capital.  Além de enfrentar, toda uma série de dificuldades financeiras e clivagens do racismo estrutural brasileiro, que acabariam por dar fim a experiência editorial da Niger, após a publicação de sua quarta edição em outubro de 1960.

Um fato que não apagaria a sua importância ante ao futuro que se faria irromper no universo da negritude brasileira. Simbolizando uma etapa fundamental da luta antirracista negra no país, que agora se faz resgatar com a edição crítica da “Ciclo Contínuo Editorial”, organizada por seu dono e editor, o militante antirracista e pesquisador das resistências negras brasileiras, Marciano Ventura. Lançando luz a essa etapa tão basilar da imprensa afro-brasileira, e que tanto significou – e ainda representa – para as contemporâneas práxis coletivas de políticas antirracistas!

Importância histórica e contemporânea, que se comprovam nos paratextos do professor doutor titular de Sociologia da Unicamp, Mário Augusto Medeiros da Silva e do intelectual, escritor, poeta, ensaísta, jornalista e militante negro, Oswaldo de Camargo, um dos maiores representantes da literatura nacional, e um dos integrantes da equipe original do expediente editorial e articulista da revista Niger.

Em tempos tão pesados, aos quais cada vez mais a carne negra se torna a carne mais barata desse imenso mercadão chamado Brasil. Sendo sempre o alvo preferido de balas ditas perdidas, mas que sempre acham os mesmos corpos negros de sempre! Esse lançamento editorial se faz mais que oportuna e necessária.

Não se pode buscar a superação de nossas inequidades históricas e sociais fundantes, sem enfrentarmos nossa herança escravocrata e racismo endêmico! E ao seu jeito original de ser, mesclando jornalismo crítico, editoriais políticos e colunismo social, como forma de contextualizar, visibilizar e dar voz a população negra não só paulistana, mas nacional, a Niger torna evidente essa verdade que tantos parecem, ou optam em, negar.

Somos uma sociedade racista histórica e contemporânea, que precisa superar essa sua condição social basilar para se tornar uma nação de fato! E não perpetuar esse processo civilizatório intencionalmente inacabado, sempre privilegiando os de sempre!

A Niger em seu conjunto, nos situa, página a página, nos obriga a não esquecermos, de que a luta pela (sobre)vivência da população negra por direitos e cidadania não se dá enquanto política simplesmente identitária wookie, e nem ocorre enquanto modismo ou radicalismo irracional. Mas sim na perspectiva histórica de ser a continuidade de reivindicações e premissas seculares de resistências – amplas e diversas – antirracistas.

Um exemplo de negritude brasileira que representa a busca pela construção de um outro conjunto de sociabilidades e relações de poder no Brasil. Que não sejam medidas, muito menos atravessadas por padrões sociais hegemônicos racistas.

Nesse sentido, as suas páginas acabam por constituí-la tal qual um farol daquilo que fomos enquanto país e, principalmente daquilo que poderemos – e seremos – vir a ser! Principalmente a partir das resistências daqueles que aqui não deveriam nem mais estar aqui ou existir! Mas que insistem de maneira incansável, em desafiar aquilo que buscam lhes impor enquanto destino fatal!

E as páginas dessa preciosa edição, faz pulsar essa herança de resistência e esperança, a cada linha impressa, em cada imagem presente, que agora voltam a circular entre nós!

Rogo, que enquanto sociedade, tenhamos olhos em nossas almas e corações, para conseguirmos ler, e – finalmente – aprender, com as suas verdades!

Boa leitura! A Niger te espera!

 

Christian Ribeiro doutor em Sociologia. Professor titular da SEDUC-SP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil. Membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

 

Referência Bibliográfica:

VENTURA, Marciano [Organização]. Niger: publicação a serviço da coletividade negra – Edição fac-similar. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2025. 102p.

 

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