ENTREVISTA

‘O livro é uma metáfora da Argentina’, reflete a autora de ‘Os Sorrentinos’

Escritora convidada do mês de dezembro da Amora Livros conversou com o Le Monde Diplomatique Brasil sobre a criação de seu romance de estreia e sua tradução para o português, prevista para 2025

Um restaurante de sorrentinos. “Tal qual um teatro ou uma sitcom”, afirma entre risadas a autora Virginia Higa. É nesse estabelecimento, que existe até hoje em dia, onde acontece a sua primeira obra publicada, lançada em 2018, como Los Sorrentinos

A ficção Os Sorrentinos, enviada especial da Amora Livros, retrata uma trattoria típica italiana à beira-mar na cidade de Mar Del Plata. De geração em geração, ela se tornou notável na comunidade pela criação dos famosos sorrentinos, uma massa famosa na Argentina, que se assemelha aos raviólis. Chiche, o irmão caçula, torna-se o dono do estabelecimento após seu irmão falecer e, desde então, transforma toda vida familiar com uma pitada de ficção, seja nos almoços em família ou junto aos funcionários excepcionais. 

A família pretende manter a receita dos sorrentinos inalterada até perceber que ela se populariza e passa a ser adaptada por outros restaurantes. “Para a família, isso é um ultraje, simplesmente horrível, porque tudo está mudando, mas, ao mesmo tempo, é o que acontece quando algo se torna popular”, conta a autora.

Os Sorrentinos
Foto: Divulgação/Autêntica Contemporânea

A história desta família argentina é um verdadeiro mergulho ao molho especial dos sorrentinos, feito com tomates latinos que tentam assemelhar-se aos de San Marzano. Em uma narrativa completa de cultura latina, o leitor fica embrulhado pela dobra da massa de farinha. Mas, para além da metáfora, a cultura italiana no dia-a-dia dos personagens é capaz de captar qualquer latino desprevenido.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Virginia Higa explica que “o livro é baseado em uma história real, de um restaurante que pertencia à família da minha mãe. Mas a história me foi transmitida oralmente; cada membro da família tinha sua própria versão de como tudo aconteceu”. Ao transformar em ficção, alguns resquícios são adaptados ao formato de livro.

Higa também conta sobre a recriação do ambiente na obra. “Lembro-me de quando criança, eu ia muito a este restaurante. Quando eu voltei como adulta, tudo estava exatamente igual. Nada havia mudado. Acho que isso faz parte do charme do lugar, o fato de não mudar. Foi muito, muito prazeroso recriar aquele espaço”, conclui.

A narrativa reflete sobre a presença da Itália na formação da descendência argentina. Segundo a autora, “houve uma grande onda de imigração italiana na Argentina nos séculos XIX e XX, o que moldou nossa cultura de muitas maneiras: a comida, algumas tradições e até os sobrenomes”.

A partir de seu título Os sorrentinos, o leitor não apenas mergulha, mas também conhece uma família que se inspira na tradição italiana no seu jeito de ser argentino. Nesse sentido, Higa complementa que, afinal, a obra é uma metáfora para a sociedade argentina. “Nós incorporamos elementos da nossa herança cultural, como a italiana, mas também de outras”, afirma. “É uma boa metáfora porque a ideia é que pegamos algo que veio com as pessoas que imigraram para o nosso país e transformamos em outra coisa”. 

A mesma coisa acontece com qualquer cultura: quando uma cultura, lugar ou tempo muda, não há nada que possa ser intacto. Se algo está vivo, vai mudar. Afinal, essa é a história dos países latinos, tal qual Mário de Andrade reconhece no Movimento Antropofágico, a deglutição da cultura externa para recriar uma única, mesmo que de periferia. 

Para Virginia Higa, a decisão de escrever um livro não surgiu do nada. Sua trajetória como autora começou ainda durante os estudos de Letras na Universidade de Buenos Aires (UBA). No início dos anos 2000, ela lecionava espanhol na cidade e, a partir da segunda metade da década de 2010, mudou-se para Estocolmo, onde escreveu seu segundo romance, El hechizo del verano (2023).

Ela conta que, quando lançaram a sua primeira obra, ainda vivia em Estocolmo e, por isso, não acompanhou de perto. “Foi uma experiência estranha, mas muito boa, porque me manteve em contato com a Argentina. E, recebi muitas mensagens de pessoas que estavam lendo o livro lá enquanto eu estava aqui, então foi como estar em dois lugares ao mesmo tempo”. Entre risadas, ela brinca: “meu livro era como o meu embaixador”.

 

Regina Lemmi faz parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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