"A literatura não é regional ou universal: é individual" - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

“A literatura não é regional ou universal: é individual”

por Felipe Machado
1 de junho de 2012
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Para a escritora argentina María Teresa Andruetto, vencedora do prestigiado prêmio Hans Christian Andersen, a qualidade dos livros infantis e a presença de bons professores são fundamentais para manter a literatura vivaFelipe Machado

A argentina María Teresa Andruetto é uma ponte entre as pontes. “Ponte”, segundo ela, é a melhor maneira de definir um bom professor, elo fundamental entre o conhecimento literário e os jovens leitores ávidos por informação. Com dezenas de livros publicados, essa formadora de professores acaba de receber o mais alto reconhecimento por seu trabalho: o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o “Nobel” da literatura infantojuvenil. Em junho, María Teresa vem ao Brasil para palestras e o lançamento do seu primeiro livro no país, A menina, o coração e a casa, pela Global.

 

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Hoje as crianças estão cada vez mais influenciadas pela tecnologia, videogames, iPads, redes sociais. Isso terá algum peso sobre os novos autores de literatura infantil? Como o livro, uma obra teoricamente estática, pode concorrer com essas mídias tão sedutoras?

MARÍA TERESA ANDRUETTO – Por um lado, usamos com frequência esses novos aparelhos tecnológicos, mas também temos de lembrar que eles não estão ao alcance de todas as crianças de nossos países. A realidade é que vivemos em um mundo onde diversos instrumentos de acesso às histórias e ao conhecimento podem coexistir. Por outro lado, o livro como provocador da leitura não é nem um pouco estático; na verdade, é a mídia mais dinâmica que existe. Em alguns casos, é muito mais dinâmico na provocação de nosso imaginário do que um videogame, em que as opções para a imaginação são predeterminadas. Além disso, as novas edições de livros infantojuvenis são concebidas de acordo com os mais altos padrões estéticos de design e ilustrações, o que resulta em um convite à leitura bastante atraente para os novos leitores.

DIPLOMATIQUE – A senhora afirma que “descobrimos quem somos à medida que narramos aos outros e a nós mesmos o que aconteceu”. E em relação a nós, leitores, é possível descobrir quem somos graças às leituras que escolhemos?

MARÍA TERESA – A leitura nos abre para o mundo e para outros mundos, e esses “outros mundos” tornam-se por consequência uma parte complementar de quem somos. Escrever sobre uma experiência real ou imaginária, ler as experiências reais ou imaginárias que outros escreveram, ouvir histórias familiares ou da boca de contadores de histórias nos ajudam a nos tornar quem somos. Nossas verdades e memórias são construídas a partir de relatos ficcionais, então estabelecer um contato próximo com a ficção nos ajuda a construir nossas verdades e a organizar nossas memórias.

DIPLOMATIQUE – A senhora é uma escritora argentina que começa agora a ser descoberta no Brasil. Há mais semelhanças ou mais diferenças entre a literatura argentina e a brasileira? E em relação à América Latina, há algo em comum entre os escritores de nossa região?

MARÍA TERESA – Li alguns clássicos, alguns autores infantojuvenis e, principalmente, certos poetas. Vocês têm poetasmaravilhosos, porém, um dos maiores defeitos da América Latina é a escassez de traduções e a falta de intercâmbio entre os países. Precisamos desenvolver essa área, melhorar a circulação literária latino-americana, não deixá-la dependente da validação dos países europeus. Precisamos confiar mais em nossa capacidade de aceitar e valorizar as obras de países irmãos. Claro que a questão do idioma no Brasil e na Argentina é totalmente diferente: atrevo-me a dizer que o Brasil hoje ocupa o topo da indústria editorial entre os países de língua portuguesa. Enquanto isso, a porta de entrada e referência para os outros países latino-americanos continua sendo a Espanha.

DIPLOMATIQUE – A senhora acredita que a literatura é um reflexo de uma época determinada ou de uma cultura atemporal? O que esta nossa época dirá aos nossos filhos? E o que, em relação ao que dizemos hoje na literatura, foi herdado de nossos pais?

MARÍA TERESA – Consciente ou inconscientemente, toda a literatura é o reflexo de seu tempo e estabelece um diálogo com a sociedade, que, por sua vez, a alimenta com sua linguagem. Parafraseando Borges, diria que isso “fatalmente” é o que acontece. A literatura é como um grande tecido, uma colcha feita de muitas formas individuais de diálogo, para responder e corresponder à sociedade em que estamos inseridos…

DIPLOMATIQUE – A literatura argentina vem de uma influência mestiça, assim como a brasileira. Em um tempo em que o mundo está menor, mais globalizado, ainda é importante ressaltar os traços culturais regionais? É válida a ideia de que toda literatura local também é global?

MARÍA TERESA – A grande Clarice Lispector disse que a literatura é uma longa jornada em si mesma. É a única coisa que buscamos quando escrevemos e é lá que se reflete o mundo. Ou seja, não faz sentido chamar a literatura de regional ou universal. Tudo é regional e, mais que isso, individual. E, sendo profundamente individual, é também profundamente social.

DIPLOMATIQUE – Além do reconhecimento pelo trabalho, o que mais um prêmio prestigiado como o Hans Christian Andersen muda na vida de um escritor?

MARÍA TERESA – Em minha relação com a escrita, espero que não mude nada, que as ideias continuem aparecendo por conta própria, submetidas em parte à minha vontade de trabalhar e em parte a razões que desconheço. Em relação à circulação de livros e sua visibilidade, isso, sim, mudou muito. Eu diria que abriu meus livros para outros idiomas, outros leitores, como acontece agora no Brasil. Isso é algo maravilhoso, é o sonho de todo escritor…

DIPLOMATIQUE – Um dos pontos mais importantes de seu trabalho é a formação dos professores, que a senhora define como “pontes”. Como o papel do professor mudou ao longo das últimas décadas? Como será o professor no futuro? Ele ainda será a ponte fundamental entre o conhecimento e as crianças?

MARÍA TERESA – Creio que essa “ponte humana” será sempre necessária. Um bom professor não ensina apenas conhecimentos específicos; ele transmite também um modo de se corresponder com o mundo, uma concepção de vida. Pode deixar no outro uma marca indelével, social, ética, estética.

DIPLOMATIQUE – Proporcionalmente, o número de leitores no Brasil é baixo, e ainda assim há muita literatura considerada de pouca qualidade sendo consumida. É importante apenas ler ou ler apenas boa literatura?

MARÍA TERESA – Ainda que seja visível o avanço, na Argentina também temos de crescer muito na qualidade e na quantidade dos leitores. É importante construir leitores capazes de diferenciar um livro do outro, que sejam capazes de rejeitar um livro se ele for de baixa qualidade. Só assim podemos gerar um círculo virtuoso para que a indústria editorial de cada país continue a valorizar os bons livros. Sabemos que um leitor se constrói a partir de um caminho de erros e acertos, lendo livros bons e ruins, centrais e periféricos, consagrados e novos, em seu próprio idioma e em versões traduzidas… O principal é trabalhar na construção de leitores, uma tarefa na qual têm grande importância os governos, sobretudo em relação à educação e às bibliotecas públicas. Isso é essencial tanto em relação ao lançamento de títulos de qualidade e diversidade como na formação de mediadores de leitura, que são verdadeiros pilares na construção desses leitores.

DIPLOMATIQUE – A questão da identidade é fundamental para o escritor, mas qual é sua influência para o leitor? Há diferenças entre livros escritos por homens ou mulheres, latino-americanos ou europeus, escritores do século XX ou XXI? Ou o que vale são os valores universais que nos unem enquanto seres humanos?

MARÍA TERESA – Sempre existem diferenças entre um livro e outro, não só entre aqueles escritos por homens ou mulheres, europeus ou americanos, clássicos ou atuais. Cada obra é diferente, e o resultado também é diferente quando escrevemos um livro aos 30 e outro aos 60. As diferenças entre um escritor e o outro, quando a escrita é verdadeira, são infinitas e eternas. É a particularidade da escrita que permite uma leitura “universal”. É nesse sentido que vejo a frase de Tolstoi sobre a aldeia e o mundo: “Escreva sobre sua aldeia e será universal”.

Felipe Machado é Diretor de mídias digitais do Diário de S. Paulo e Rede Bom Dia, grupo com jornais distribuídos por dez cidades paulistas. Assina também o blog Palavra de Homem e é autor dos livros Bacana bacana: as aventuras de um jornalista pela Copa do Mundo da África do Sul (2010), Ping Pong: as aventura de um jornalista brasieliro na China olímpica (2008), indicado ao Prêmio Jabuti, e dos romances Olhos cor de chuva (2002) e o Martelo dos Deuses (2007).



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