O malabarismo dos camaleões - Le Monde Diplomatique

CRISE E ALTERNATIVAS

O malabarismo dos camaleões

por Frédéric Lordon
1 de novembro de 2008
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Estranha metamorfose: os economistas e jornalistas que defenderam, durante décadas, as supostas qualidades do mercado, agora camuflam suas posições. Ou — pior — viram a casaca e, para não perder terreno, fingem esquecer de tudo o que sempre disseramFrédéric Lordon

Na televisão, no rádio e na imprensa escrita, quem se habilita agora a comentar o desmoronamento do capitalismo financeiro? Os mesmos de sempre, é claro! Aqueles
mesmos especialistas, editorialistas e políticos de plantão, que vêm enchendo nossa paciência há duas décadas, entoando cantos
que louvam o sistema hoje desmoronando.

Lá estão eles, fiéis ao posto, sem dar sinal algum de estar perdendo fôlego. Eles
apenas se dividiram em dois campos: os
que, sem qualquer escrúpulo, viraram a casaca; e os que, um pouco atordoados pelo
choque, tentam ainda assim prosseguir, na
medida do possível, no mesmo caminho,
insistindo em defender o indefensável em
meio às ruínas fumegantes.

O impacto da explosão deve ter sido
violento. É o que se deduz do comentário de
nicolas Baverez, um tanto cambaleante: “A
globalização conserva aspectos positivos” [1],
insiste, contra ventos e marés, com uma
teimosia que lembra a de Georges Marchais
(1920-1997, antigo secretário-geral do Partido Comunista Francês). Contudo, ele acaba reconhecendo, a contragosto, que foi
mesmo o “capitalismo globalizado que entrou em crise” [2] e que “a auto-regulamentação dos mercados é um mito” [3]. Mas, para
ele, uma coisa não impede a outra: “o liberalismo é o remédio para a crise” [4]. Ora, o
que é o liberalismo senão a forma de organização econômica da auto-regulamentação dos mercados?

Pode até ser, mas Baverez decide que
ele não recuará nem mais um milímetro a
respeito desta questão, preferindo se virar
com as complexidades do seu pensamento:
“o liberalismo não é a causa da crise”, ainda que, por efeito da questão da auto-regulamentação, ele seja o problema. Do qual,
aliás, também é “a solução” [5]. Compreenda quem puder.

Rolo compressor ideológico

Outros se mostram menos desnorteados. explicam com mais desenvoltura que,
se os tempos mudaram, eles também estão
prontos para fazer o mesmo. “Esta bolha ideológica, a religião do mercado todo-poderoso, apresenta grandes semelhanças com o que veio a ser a ideologia
do comunismo. o rolo compressor ideológico liberal varreu tudo na sua passagem. Um
grande número de chefes de empresa, de
universitários, de editorialistas e de dirigentes políticos não acreditava em outra coisa
senão no soberano mercado” [6].

Ao ler estas linhas hoje, alguém pensaria estar lidando mais uma vez com um daqueles antiliberais inoportunos, simpatizante da organização Attac ou do jornal
comunista L?Humanité.

Contudo, foi o próprio Favilla, o editorialista mascarado do jornal Les Echos, que
acabou extravasando toda essa cólera contida há tantos anos. Poucos sabem que os profissionais do
Les Echos – um diário de informação econômica e financeira de propriedade do grupo
LvMH, líder mundial da indústria de luxo – estão em conflito com os seus patrões. Um
duelo causado por injustiças, censuras e imposturas intelectuais em excesso.

Há aqueles que sempre
apoiaram a privatização
de tudo o que podia
ser privatizado. Agora,
entretanto, compartilham
a opinião de que é
preciso nacionalizar

Sufocaram até mesmo a própria “verdade”: “Até então, toda voz dissonante, por
mais que ela fosse timidamente social-democrata, que lembrasse as virtudes de um
mínimo de regulamentação pública, seria
comparada a de um monstro sobrevivente
de Jurassic Park. E não é que, de repente, a
verdade aparece? A auto-regulamentação
do mercado é um mito ideológico! ” Se o jornal continuar nessa linha, já é possível imaginar que o título do próximo editorial de
um Favilla ensandecido seria “É preciso que
tudo vá pelos ares!”.

Laurent Joffrin, que poucos meses atrás
ainda ajudava Bertrand Delanoë, o prefeito
socialista de Paris, a proferir seu grito de
amor pelo liberalismo, e criticava “a esquerda ingênua” por não ter compreendido
os benefícios do mercado, também voltou
atrás – o mesmo surto que acometeu Favilla: “Há mais de uma década, os talebãs
do divino mercado financeiro vêm rejeitando todas as advertências, desprezando
todos os críticos e recusando toda tentativa
de regulamentação” [7], escreveu.

Esses pobres editorialistas nada faziam
senão balbuciar, sem pensar, tudo aquilo
que os especialistas, também repetidores,
lhes ensinaram ao longo de tantos anos.
ora, a hecatombe deste lado dos especialistas é igualmente impressionante.

Elie Cohen é um economista francês que
dedicou parte de sua vida pessoal e da sua
carreira a alertar seus ouvintes/leitores sobre a assustadora aberração em que consiste
a intervenção pública. Sempre apoiou a privatização de tudo o que podia ser privatizado. Agora, entretanto, ele compartilha a opinião de que é preciso nacionalizar.

Romper com a ultra-esquerda?

Imaginem qual teria sido a sua reação se
esta idéia lhe tivesse sido submetida dois
meses atrás! Que distante parece estar a
época em que ele conclamava os socialistas
a romper com o “discurso de ultra-esquerda
baseado na negação da realidade” [8] e lamentava muito que eles tivessem “se tornado militantes em luta contra a globalização neoliberal, por temerem uma globalização que
eles não compreendiam e na qual eles nada
enxergavam a não ser as manifestações de
multinacionais sedentas por lucros, os excessos de um mundo das finanças descontrolado e as iniqüidades de uma regulamentação a serviço dos poderosos”.

Em matéria de “realidade”, Cohen é um
especialista: “Dentro de algumas semanas,
o mercado se recomporá e os negócios serão
retomados como antes”, escreveu em 17 de
agosto de 2007 [9]. “É preciso acostumar-se
com a idéia de que as crises não constituem
cataclismos, mas sim métodos de regulamentação de uma economia mundial que
ninguém consegue enquadrar verdadeiramente por meio de leis ou de políticas” [10].

Não faltarão aqueles mal intencionados
que, sem dúvida, irão sugerir que Cohen não
é exatamente uma figura representativa do
economista acadêmico típico. e que, a julgar
pelo tempo que ele passa nos estúdios de rádio e televisão, é de se perguntar se um dia
ele conseguiu se dedicar, de uma forma ou
de outra, a alguma ciência que não seja
aquela da sua própria notoriedade.

Até mesmo os mais qualificados dentre os economistas franceses têm se mostrado tão “competentes” quanto ele, ao lidarem com o tema que nos interessa aqui.
David Thesmar, assim como Augustin
Landier, mostraram-se categóricos, ainda
em meados de 2007, ao defender a seguinte tese: “Que [o ajuste] será limitado e, sobretudo, que ele não terá efeito algum sobre a economia real”.

Esta afirmação tem uma diretriz muito clara. o mesmo ocorre com a conclusão
do artigo assinado por ambos: “o perigo
de haver uma explosão financeira, e, portanto, a necessidade de se proceder a uma
regulamentação, talvez não seja tão premente quanto se possa pensar”. Tudo sob
o título profético de “A mega-quebra das
Bolsas não acontecerá” [11].

Contudo, é possível encontrar espécimes ainda mais interessantes do que os clarividentes já citados: são os profetas. “em
seu relatório encomendado pela assessoria
do presidente nicolas Sarkozy, o economista
já alertava para os perigos da especulação
financeira”, afirma um artigo de Renau Dély.

O texto literalmente homenageia as capacidades excepcionais de adivinhação de Jacques Attali, o bobo multimídia da corte
francesa, e o seu famoso estudo que reúne
propostas da Comissão para a Liberação do
Crescimento da França. Foram duas páginas inteiras da revista semanal Marianne
dedicadas (por descuido?) a esse tema. Por
mais constrangedor que isso possa parecer,
não só o relatório Attali não comporta qualquer comentário sério a respeito dos perigos
da desregulamentação financeira, como ele
também não passa de um extenso elogio dos
prodígios realizados pelos mercados de capitais. Trata-se, de fato, de uma exortação à
adesão completa e total aos mercados.

O modelo indicado como o mais bem-sucedido e que deve ser imitado pela França
é o do reino Unido, que “se envolveu de maneira duradoura na valorização da sua indústria financeira”.

Não será esta uma idéia que, pela sua excelência, deveria evidentemente classificar
seu autor na categoria dos proféticos? Segundo Dély, “há revoluções que não se podem deixar passar”, entre as quais a “revolução das finanças”. É por esta razão que a
idéia de “fazer de Paris uma praça financeira
das mais destacadas” é o “objetivo” que norteia o considerável elenco das propostas
apresentadas por Jacques Attali.

Para isso é necessário “harmonizar as
regulamentações das Bolsas e dos setores financeiros em geral com aquelas a serem
aplicadas no reino Unido, de modo a não
prejudicar o desempenho dos atores europeus em relação aos seus concorrentes internacionais”. e para estimular as inovações
o relatório Attali propõe “multiplicar as iniciativas comuns entre os estabelecimentos
de ensino superior e as instituições financeiras, incentivando o financiamento de cátedras dedicadas às pesquisas sobre a concepção de novos modelos financeiros”.

Isso porque a universidade não deve ser
deixada à mercê das restrições dos orçamentos públicos. e tampouco se deve regatear qualquer coisa quando se trata de valorizar a formação das futuras elites.

O relatório chega ao ponto de propor
“modificar a composição das comissões e
dos colégios de reguladores, para que os
campeões das finanças possam se expressar e influenciar a posição do Alto
Comitê da cidade”.

A esta altura do campeonato, tenho
muita vontade de entrevistar Attali. Eu perguntaria: “Hoje, em novembro de 2008,
qual efeito exerce no senhor a expressão
?campeões das finanças? e, mais ainda, a
idéia de confiar aos tais campeões a regulamentação dos mercados?”

Distribuindo a poupança pelo mercado

Para seguirmos degustando as conclusões do relatório, ele sugere também “reorientar maciçamente o regime fiscal dos seguros de vida e do plano de poupança para
orientá-lo rumo a uma poupança de longo
prazo investida em ações (a ser acoplada aos
fundos de pensão)”.

Finalmente chegamos ao ponto. não se
sabe ao certo se Jacques Attali elaborou suas
previsões em relação à crise de outra forma
que não no modo da alucinação retrospectiva. em todo caso, em janeiro de 2008 ele estava convencido da necessidade de se distribuir toda a poupança dos franceses nos
mercados financeiros – serão aqueles mesmos mercados aos quais ele se referiu recentemente na televisão, chamando-os delicadamente de “tsunami”?

Assim, o relatório Attali argumenta
abertamente em favor da passagem para a
capitalização – afirmando ser “necessário,
portanto, que a poupança para aposentadoria, seja ela individual ou coletiva, se torne mais e mais poderosa”. e isso no momento preciso em que tantas famílias
americanas, em conseqüência da crise, estão vendo suas pensões virar fumaça. Sem
falar quando o extremo desespero em que
algumas se encontram já não as obrigou a
retirar recursos das suas contas-poupança
de aposentadoria.

Somente uma “feliz intuição” do momento histórico que estamos vivendo poderia motivar alguém a incentivar recorrer
à capitalização, num período em que não
tardaremos a ver aparecer os primeiros
idosos miseráveis nas calçadas das cidades americanas.

E uma vez que a mensagem desse relatório consiste em submeter toda a sociedade
francesa à lógica das finanças, que andou
demonstrando de maneira tão espetacular
suas virtudes, não podemos deixar de mencionar a intenção de promover a importância e o poder das fundações privadas no financiamento das universidades. E que,
conforme todos já devem suspeitar, comporta a supressão, numa proporção equivalente, dos financiamentos públicos.

Mas, como funcionam ao certo essas
fundações? elas aplicam seus capitais nos
mercados e vivem ao longo do ano “dos seus
rebentos”. Considerando-se as condições de desmoronamento de todos os setores das finanças que o profeta antecipou de longa data, é perfeitamente possível, portanto, que
as universidades americanas estejam preparadas para encarar alguns anos de drásticas restrições orçamentárias.

Mas, afinal, não será esse o modelo que
devemos imitar a qualquer custo? Quem se
preocupa mesmo com essas coisas? os cataventos – ou talvez os vira-casaca – seguem
girando, enlouquecidos, sem nunca encontrar qualquer obstáculo pela frente.

Todos têm razão

Salvo raríssimas exceções, todas as pessoas listadas por Favilla em seu editorial estranhamente esclarecido, como “chefes de
empresas, universitários, editorialistas, dirigentes políticos”, debateram a crise apenas
entre si, o que significa que nenhuma contradição séria surgiu entre eles. nessas condições, seria muita ingenuidade espantar-se
com o fato de não existir, em nenhum lugar
do sistema, qualquer força capaz de chamar
seus atores à ordem. nem sequer um começo de regulamentação da decência. Ou mesmo a menor possibilidade de sanção para
tão formidáveis contradições. Afinal, é ridículo ver tamanha picaretagem: todos eles
estão convencidos de estar com a razão, optando, logicamente, por se absolverem de
seus erros, coletivamente.

E, contudo, de maneira contraditória, é
preciso ter mui

Frédéric Lordon é economista, autor de Jusqu’à quand? L’éternel retour de la crise financière (Até quando? O eterno retorno da crise financeira), Raisons d’Agir, Paris, 2008.



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