EDITORIAL

O mundo é dos negócios

Os fundos de investimento e as grandes corporações se regem pela busca do lucro, e nem mesmo esta enorme crise que vivemos demove essas organizações de sua finalidade última e primeira: explorar os homens e a natureza sem precisar enfrentar limites

Estamos em uma crise ambiental global sem precedentes, e as expectativas em relação aos resultados da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que vai ocorrer em novembro, em Belém, não são das melhores.

A conferência acontece em um momento em que o aquecimento global – o aumento gradual da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da Terra – já tem consequências diretas e devastadoras sobre todos os ecossistemas.

© Claudius

O aquecimento global promove mudanças no regime de chuvas, aumento da frequência e intensidade de fenômenos meteorológicos extremos, ondas de calor mais intensas e duradouras, chuvas torrenciais inesperadas e períodos prolongados de seca. A agricultura, a gestão dos recursos hídricos e a biodiversidade são afetadas de maneira drástica, levando à fome e à extinção de espécies, a migrações em áreas desertificadas, à inundação pelo mar de áreas e cidades costeiras, a chuvas torrenciais nas cidades.

Extraímos a eletricidade da queima de carvão, petróleo ou gás, gerando dióxido de carbono e óxido nitroso, gases de efeito estufa que recobrem o planeta e retêm o calor do Sol. A proporção de combustíveis fósseis na matriz energética global de 2023 permaneceu em 81,5%, uma queda de apenas 0,5% em relação ao ano anterior.[1]

A indústria, a mineração, a construção civil e a agricultura queimam combustíveis fósseis. A maioria dos carros, caminhões, navios e aviões funciona com combustíveis fósseis. O transporte é um dos grandes responsáveis pelos gases de efeito estufa, especialmente emissões de dióxido de carbono.[2] O desmatamento contribui para aumentar o aquecimento global.

Toda essa degradação ambiental é consequência do modelo de desenvolvimento capitalista da segunda metade do século XX, que desenvolveu a capacidade das grandes empresas de operarem em grande escala e promoverem exponencialmente a queima de combustíveis fósseis.

As grandes corporações do século XXI se beneficiaram do neoliberalismo, que expressa o ápice dessa destruição ambiental quando reduz a capacidade de controle e regulação das atividades econômicas por parte dos Estados nacionais, captura o financiamento público e, mais recentemente, ataca os mecanismos reguladores multilaterais, como o Acordo de Paris e as Nações Unidas.

Como reverter um modelo de negócios que consome 105 milhões de barris de petróleo por dia?[3] A S&P Global Mobility registrou a produção mundial de 89,5 milhões de automóveis e comerciais leves em 2024; em 2030, o setor fabricará 96,3 milhões, um crescimento de 7,6%. Já a produção na América Latina (Brasil, Argentina, Colômbia e Uruguai) chegará a 3,9 milhões de unidades, um crescimento de 30%.[4]

Os fundos de investimento e as grandes corporações se regem pela busca do lucro, e nem mesmo esta enorme crise que vivemos demove essas organizações de sua finalidade última e primeira: explorar os homens e a natureza sem precisar enfrentar limites, sem respeitar direitos humanos, leis e tratados internacionais, sem olhar para o futuro, comprometendo a vida no planeta.

Nem mesmo os avanços tecnológicos conseguem enfrentar esse processo predatório. Já foi divulgado, por parte de várias empresas montadoras de veículos, que está disponível o motor movido a água. O Toyota Mirai é um exemplo, mas outras produtoras, como a Tesla, também anunciaram esse motor movido a hidrogênio extraído da água.[5]

O poder dos donos do sistema produtivo atual impede que a ciência e o desenvolvimento tecnológico destruam seus negócios. A indústria do petróleo, por exemplo, reivindica a participação de seus lobistas na COP30. O agronegócio garante leis que permitem importar pesticidas proibidos por causarem danos à saúde. A mineração, financiada por fundos internacionais, contamina com mercúrio as águas dos rios em que atua ilegalmente.

Sob a ótica da sustentabilidade ambiental, tomemos a questão da mobilidade urbana. Se tivermos um sistema de transportes públicos coletivos eficiente, com metrô e veículos leves sobre trilhos (VLT) e sobre rodas (BRT) em corredores especiais, ciclovias e boas calçadas, por que precisaríamos dos automóveis? Mas as políticas públicas de mobilidade não se pautam pela sustentabilidade ambiental…

Em 1968, o então prefeito de São Paulo, Faria Lima, pôs um ponto-final nos transportes por bondes elétricos na cidade. A rede de bondes, nessa época, contava com 400 quilômetros de extensão. O sistema limpo e eficiente foi destruído “por atrapalhar o trânsito e não ser moderno”, segundo o prefeito. E a venda de automóveis e de ônibus movidos a diesel explodiu… O prefeito Faria Lima sucumbiu ao lobby dos fabricantes de automóveis, diesel e carrocerias.[6] Está no DNA do capital promover a “destruição criativa”, como dizia Schumpeter, mas o passo seguinte, a afirmação do neoliberalismo, alargou e aprofundou o espectro da destruição.

Outro mundo é possível? Certamente! Mas para isso é preciso enfrentar e limitar o poder dos donos do sistema produtivo. É preciso mais Estado e mais democracia. É preciso fortalecer o multilateralismo, tratados internacionais que reorientem o modelo de desenvolvimento. Mas são os governos nacionais que contam, e eles precisam sobrepor os interesses coletivos aos interesses das empresas, é necessário criar  democracias abertas ao efetivo controle cidadão, capazes de controlar a voracidade do capital.

A COP30 é um espaço multilateral de disputas e negociações. O lento gradualismo para enfrentar a crise climática, proposto pelas corporações e pela grande maioria dos governos, não dará conta de evitar a catástrofe. Talvez seja inevitável uma crise mais aguda para que as mobilizações nas ruas exijam de seus governos a redução em 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030, como se propõe a atingir o Brasil, no governo Lula.

 

[1] Laura Paddison, “ Uso de combustíveis fósseis atinge recordes em meio ao calor, fogo e tempestade”, CNN, 20 jun. 2024 .

[2] https://www.un.org/pt/climatechange/science/causes-effects-climate-change.

[3] https://www.kapsarc.org/research/publications/kapsarc-oil-market-outlook.

[4] https://www.autoindustria.com.br/2025/03/24/producao-de-veiculos-leves-crescera-30-na-america-do-sul-ate-2030.

[5] www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2024/11/13/carro-movido-a-agua-o-que-falta-para-nova-tecnologia-vingar-nas-garagens.htm.

[6] https://saopauloantiga.com.br/a-ultima-viagem-de-bonde.

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