O novo caminho de Edi Rock - Le Monde Diplomatique

RACIONAIS MC´S

O novo caminho de Edi Rock

por Walter Garcia
1 de novembro de 2013
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O novo lugar a ser ocupado pelos Racionais MC’s na cultura brasileira apenas começou a se delinear. Por ora, é evidente que o disco solo de Edi Rock dá continuidade a Jorge Ben Jor e a Tim Maia, e se coloca ao lado de Seu Jorge e Emicida, entre outros. Música negra no mercado hegemônicoWalter Garcia

Sábado à tarde, 19 de outubro de 2013. Pela primeira vez, um dos integrantes dos Racionais MC’s cantará um dos raps do grupo na Rede Globo. Corcovado, Pão de Açúcar, imagens de cartão-postal identificadas pela legenda “Rio de Janeiro”. Avenida à beira-mar. Interior de um carro, Luciano Huck é o motorista: “O Caldeirãoestá de volta. Vai rolar um momento histórico. Eu esperei por isso durante muitos e muitos anos. No palco do Caldeirão, um dos integrantes do movimento mais importante das periferias das principais capitais de São… do Brasil, eu diria, do rap. Quem vai ao palco do Caldeirãoagora é Edi Rock”.

Assiste-se a doze segundos do clipe de “That’s my way” (Edi Rock/Seu Jorge/DJ Cuca). Novamente Huck: “Um dos integrantes dos Racionais MC’s, acho que o grupo mais importante da história do rap brasileiro, [por] que[m] eu tenho profunda admiração. O Edi Rock lançou um disco solo dele [apanha o CD no banco], que é esse aqui, ó. Esse disco é bom demais, eu tô viciado nesse disco. Convidei Edi Rock pra vir ao Caldeirãoe ele topou. Então vim buscar ele na porta do hotel aqui [em] que ele tá no Rio de Janeiro. E olha o carro maneiro que eu arrumei, hein!”.1

Edi Rock entra no carro e é entrevistado no caminho para o estúdio. Só faltou o tapete vermelho, mas talvez destoasse do tom informal mantido por Huck, que conduz um típico bate-papo com celebridade: nomes dos pais, lugar onde cresceu, músicas que ouvia, bailes e shows que frequentava, início da carreira, encontro com KL Jay, Mano Brown e Ice Blue (os outros três integrantes dos Racionais MC’s).

Não há deslumbramento na postura do rapper. Nem arrogância. Nem simulacro de naturalidade. Guardadas as devidas proporções, seu jeito lembra o de Zeca Pagodinho. Ambos não parecem dirigir gestos e palavras para as câmeras, e sim para as pessoas com as quais contracenam. A principal diferença é que Pagodinho ostenta ficar à vontade, como se a grande mídia fosse a extensão de sua casa. Já a atitude de Edi Rock é reservada, polida, embora deixe escapar desconforto. E contrariedade. Ele parece dizer muito menos do que está pensando ou sentindo, o que não deixa de ser uma forma de preservar a integridade do pensamento e das emoções em meio ao espetáculo da mídia, que, segundo o rapper, “sempre distorce”, “fala o que vende”, passa “o que não é”.

Isso se torna mais nítido quando Huck expõe seu ponto de vista sobre os Racionais: “Um alto-falante importante numa época [em] que a periferia tinha pouca voz […]. E muitas vezes também uma válvula de descompressão […]. Acho que a mensagem de vocês e o que vocês fizeram teve um papel muito importante pra deixar a cidade [de São Paulo] equilibrada em muitos momentos difíceis e críticos”. Edi Rock permanece inquieto, sério. Pergunta: “Cê acha?”. E ao apresentador, que não escuta em silêncio, apenas diz: “Legal, a gente não tem essa dimensão, a gente pensa como música, música é mensagem, tá ligado?”.

A tensão existe abafada. Nada indica, porém, que a harmonia vai se romper. O ponto mais crítico acontece quando Huck pergunta o que mudou desde o início dos Racionais. “A experiência. Continua a mesma fita. […] Tamo mais forte que nunca, assim, mentalmente, espiritualmente, e unificado, tá ligado? E, sei lá, mais, eu posso falar, mais perigoso, talvez.” Huck não esconde a surpresa, sorri sem graça: “No bom sentido?”. Rock concorda: “No bom sentido, é isso, é”.

No estúdio, Edi Rock canta “Negro drama” (E. Rock/Mano Brown). Trata-se de um dos mais emblemáticos raps dos Racionais MC’s. Foi lançado em Nada como um dia após o outro dia, CD duplo de 2002. Como outras faixas desse trabalho, reflete sobre o sucesso do grupo após Sobrevivendo no inferno, CD de 1997 que continha “Diário de um detento” (Mano Brown/Jocenir). Em “Negro drama”, Edi Rock canta sua trajetória, que “Não é conto nem fábula, lenda ou mito”: “O dinheiro tira um homem da miséria/ Mas não pode arrancar de dentro dele a favela”. E Brown, também cantando sua experiência, se dirige ao “senhor de engenho”: “Eu sou problema de montão, de carnaval a carnaval/ Eu vim da selva, sou leão, sou demais pro seu quintal”. Apresentado em show gravado para 1000 trutas 1000 tretas, DVD lançado em 2006, “Negro drama” mobiliza de tal forma o público que não é difícil sentir uma ação coletiva, em potência, que visa à subversão da herança de desigualdade econômica e de segregação social: naquela gravação, o rap expressa o revide às violências brutais atualmente recebidas pelas classes baixas, com ódio alimentado pela “imagem dos antepassados escravizados”.2

No Caldeirão do Huck, o sentido de “Negro drama” se modifica. Não faltam integridade e força para o canto de Edi Rock, ainda que ele tenha suprimido duas palavras: “fodido” e “cuzão” (teria sido só pelo horário?). Mas, para o auditório, faltam entusiasmo e identificação. Falta, para o rap, a definição dos destinatários quando se entoa “Essa é pra vocês” (em 1000 trutas 1000 tretas, Brown entoa “Essa é pra você, descendente de escravo que não teve direito a indenização”). E sobram luzes. Sobram os sorrisos das Coleguinhas para a câmera, respondendo, por ironia, ao verso “Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz”. Ao ser deslocado da circulação nas periferias para a difusão na mídia hegemônica, “Negro drama” é apresentado como um patrimônio de Edi Rock. Patrimônio digno, de grande densidade em sua intenção de fazer coincidir representação direta da realidade, investimento poético, embalo musical, manejo das palavras ritmadas como instrumentos de ação – desenhando-se, assim, uma consciência artística. No entanto, agora se trata de um sucesso do artista, não mais de um revide compartilhado pelo artista com seu público.

Terminada a canção, Huck diz que Ice Blue, que está nos bastidores, lhe pediu uma coisa justa: abrir o Caldeirão“ao rap da periferia de São Paulo, aos novos movimentos”; “Vocês me indiquem quem tem que cantar neste palco, e vai vim cantar”. Após o intervalo comercial, Huck novamente apresenta Edi Rock: “Ele é um dos fundadores e integrantes dos Racionais, pela primeira vez no palco do Caldeirãocom muito orgulho por ‘tá’ validando a nossa mistura, por ‘tá’ endossando a mistura eclética, democrática e sem nenhum preconceito da mistura deste programa”. Então é feito um novo quadro na velha fórmula de Sílvio Santos: humilhação disfarçada de brincadeira, com prêmio de R$ 10 mil para Dona Marizilda, madrinha do time de futebol do projeto 9 de julho, auxiliado por Edi Rock na zona norte de São Paulo.3 Encerrando sua participação, o rapper interpreta “That’s my way”.4

O novo lugar a ser ocupado pelos Racionais MC’s na cultura brasileira apenas começou a se delinear. Por ora, é evidente que o disco solo de Edi Rock dá continuidade a Jorge Ben Jor e a Tim Maia, e se coloca ao lado de Seu Jorge e Emicida, entre outros. Música negra no mercado hegemônico. Nesse sentido, é bom reparar na postura mantida por Criolo em seus shows. E na voz de Juçara Marçal acompanhada pelos músicos Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Cada qual à sua maneira, são dois trabalhos que expressam uma grande violência prestes a explodir, mas que nunca explode de vez ou, se explode, logo se detém, represada. Pacificação em rede nacional pode fascinar. “Mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta.”

Walter Garcia é Músico e professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.



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